Escrever bem

A crença de que escrever bem é um dom reservado a poucos, um talento literário especial, é um dos maiores equívocos que podem impedir alguém de desenvolver suas habilidades de comunicação. Na verdade, escrever bem é, em sua essência, uma competência que pode ser aprendida, aprimorada e aplicada por qualquer pessoa que se dedique a observar, praticar e refletir. Quem já se expressa oralmente com clareza, conseguindo organizar ideias e narrar eventos de forma compreensível, já possui a base fundamental para decolar na linguagem escrita. Podemos entender que escrever bem é, em grande medida, "falar no papel", porém com um grau maior de cuidado, coerência e organização estrutural, uma vez que o texto não conta com a entonação, os gestos ou a interação imediata para esclarecer possíveis ambiguidades.

Um dos exercícios mais poderosos e acessíveis para quem deseja escrever melhor é a leitura ativa e diversificada. Ler constantemente, especialmente textos que sirvam como bons exemplos do tipo de redação que se almeja produzir, é fundamental. Se o objetivo é escrever relatórios técnicos claros, deve-se estudar relatórios bem-elaborados; se a meta é produzir artigos de opinião persuasivos, a leitura de colunistas renomados é imprescindível. A leitura expõe o indivíduo a diferentes estruturas sintáticas, amplia o vocabulário, apresenta novas formas de articular argumentos e, subliminarmente, treina o reconhecimento da fluidez e do ritmo de um texto bem-escrito. A imersão em bons modelos é um professor silencioso e constante.

Não importa em qual setor da vida ou da profissão se atue: a comunicação escrita eficaz é uma ferramenta indispensável para o sucesso e a funcionalidade social. Não é preciso procurar muito para perceber sua onipresença. O cotidiano pessoal e profissional é repleto de gêneros textuais que demandam clareza: desde relatórios de trabalho e mensagens eletrônicas formais até manuais de instrução, revistas especializadas, códigos de conduta, cartas de reclamação, atas de reunião e memorandos internos, só para citar alguns exemplos. Constantemente, você lê esses materiais, você registra informações por escrito, você arquiva documentos. Dominar a escrita é, portanto, dominar um instrumento prático de ação no mundo.

Para escrever, é claro, não se exige um treinamento tão intenso e precoce quanto o da fala, que adquirimos naturalmente na primeira infância. A linguagem, em seu aspecto oral, é de fato um patrimônio de todos e constitui o mais poderoso vínculo de integração social. No entanto, um ponto crucial que muitas vezes não fica suficientemente claro é que a linguagem escrita, em contraste com a fala, não é um fenômeno "natural" no desenvolvimento humano. A educação, por vezes, nos leva a acreditar que escrever corretamente é uma consequência espontânea de saber falar, mas esta é uma visão simplista. Natural é a fala, adquirida pela imersão no meio social. A escrita, por outro lado, é uma tecnologia cultural, uma codificação complexa que precisa ser metodicamente ensinada, aprendida e praticada.

É justamente por não ser natural que a escrita conta com todo um aparato de suporte e normatização. Dicionários padronizam a ortografia e definem significados; gramáticas descrevem e prescrevem as regras de funcionamento do idioma; revisores e editores atuam como filtros de qualidade e clareza; tradutores e intérpretes fazem a ponte entre códigos escritos diferentes. Esse ecossistema existe para sustentar e refinar um sistema que não nasce conosco. Escrever bem, portanto, não é esperar pela inspiração de um talento inato, mas sim fazer uso consciente dessas ferramentas, combinando a clareza da fala com a disciplina da organização textual, o hábito da leitura com a prática constante da escrita, transformando a comunicação cotidiana em uma oportunidade de aprimoramento contínuo.


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