A obra Castro, de António Ferreira, é a primeira tragédia escrita em português e
de encenação da história dos amores de monarcas, tirados da crônica para a poesia e sobre fatos acontecidos na cidade onde se representou, Coimbra, Ferreira constrói uma tragédia que conjuga formas classicistas com conteúdos modernos porque, apesar da divisão em cinco atos e a utilização do coro, do mensageiro e dos confidentes, a focagem
do tema adquire uma dimensão transtemporal por ilustrar um conflito universal: a oposição entre o indivíduo e a sociedade, entre a paixão e a norma,
entre o desejo e o dever. As crônicas oferecem a versão histórica do assunto, mas vão
acrescentando elementos novelescos que facilitam a passagem deste para a
literatura e a sua conversão em mito, e foi a poesia a primeira a acolhê-lo, tanto
num romanceiro oral e anônimo de tema inesiano no século XV como na
tradição culta.
Mas da lírica era preciso passar ao teatro, o gênero mais acessível ao público,
e a Castro de Ferreira soube responder às preocupações do seu tempo: as
reflexões sobre o poder, o peso da púrpura e as necessidades do Bem Comum,
tipicamente renascentistas; mas também antecipa os parâmetros da tragédia
barroca, da tragédia da modernidade: o confronto entre aquilo que nos define
como indivíduos e os pedidos da coletividade que, paradoxaknente, exige o
sacrifício do desejo para ser como os demais, para formar parte da sociedade, o
que chamamos anteriormente o confronto entre a paixão e a norma. Por isso, na
Castro há dois grupos de personagens muito bem definidas: as que acreditam no
sentimento e as personagens
defensoras da Razão de Estado. Por isso o conflito do indivíduo perante a sua
sociedade, conflito universal, é mais importante que o conflito pessoal dos
próprios protagonistas, que nem chegam a encontrar-se, circunstância
desvalorizada pela crítica e considerada uma espécie de erro do autor que retira
interesse ou dramatismo à tragédia e que foi reparado pelas versões posteriores
do tema.
Extraído do texto: Análise e evolução da tragédia portuguesa: Da Castro de António Ferreira à... Autora: María Rosa Álvarez Sellers.
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