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Um dos grandes problemas da humanidade é a linguagem. Embora tenhamos sido programados para falar, isso não significa que nossa expressão linguística nos isenta de erros e de equívocos. Se no dia a dia temos problemas de entendimento, as nossas dificuldades aumentam exponencialmente, quando a linguagem é utilizada com significações particulares. Digo isto porque sei o quanto o adensamento da linguagem no campo filosófico afasta o vulgo da apreensão da filosofia. No que diz respeito à linguagem artística, na narrativa ou na poesia, o adensamento tem ainda como aliado o não-dito ou o interdito, com o pensamento e as significações se camuflando sob a linguagem aparente que se lê. A linguagem literária, mais do que qualquer outra, tem dobras e mais dobras, sob as quais se refugiam os segredos do interdito, nos dois sentidos: do que não foi dito e daquilo que é proibido de ser dito, ficando nas entrelinhas. Quando nos debruçamos sobre a poesia de Augusto dos Anjos (1884-1914), sentimos mais explicitamente esse jogo da linguagem em fuga, de modo que passamos a considerar e a refletir como se deve dar o enfrentamento desse poeta. De uma coisa, eu tenho certeza: dicionários, léxicos, glossários, mesmo os especializados, se ajudam não são suficientes para o desvendamento do léxico de Augusto dos Anjos. É preciso que estejamos sintonizados com as suas leituras e buscar nos autores especializados o sentido da sua linguagem estranha ao cotidiano e, ainda mais, à poesia. Além do vocabulário filosófico ou do léxico explicitamente budista ou de doutrina religiosa oriental, precisamos esclarecer com mais cuidado o vocabulário científico atinente à teoria evolucionista, caso contrário, procurando desfazer as dobras inquietantes de sua poesia, ficaremos repetindo mesmices e não adentraremos o problema e permaneceremos, conforme diz o poeta, como “a alma embrionária que não continua”. É preciso ficar claro que o desvendamento da compreensão da teoria evolucionista em Augusto vai além de uma possível curiosidade do poeta com essa teoria. É fundamental que compreendamos existir uma relação intrínseca entre a evolução darwiniana e evolução espiritual, que se reclamam e se imbricam na poesia do autor do Eu. Para usar um clichê que todos entendem, evolução darwiniana e evolução espiritual, na poesia de Augusto dos Anjos, são as duas faces da mesma moeda, uma não existe sem a outra. E penso, então, após muita reflexão, em determinados poemas, como “Monólogo de uma Sombra”, “As Cismas do Destino”, “Os Doentes” e “Gemidos de Arte”, em que se encontram as possíveis chaves de decifração de sua poesia. Por outro lado, percebemos haver um procedimento crítico até certo ponto comum, de se fazer a ligação da espiritualidade da poesia de Augusto dos Anjos apenas com o Budismo, mas não com o Espiritismo, tendo em vista as referências ali existentes, bem mais claras do que com relação ao Espiritismo. Haveria alguma razão, da parte do poeta, para a clareza de umas referências e o obscurecimento de outras? Talvez, sim. O Budismo já era conhecido e, como religião oriental, sem uma massa de seguidores no mundo ocidental, não rivalizava com o Cristianismo. O Espiritismo começa a se desenvolver no mundo ocidental europeu, já cindido anteriormente por uma guerra religiosa entre católicos e protestantes, cujo ápice foi a Noite de São Bartolomeu, em 1572. A França católica, que trazia em si a mancha da morte por religião, aparecia, em meados do século XIX, como pátria difusora de uma nova religião, que fazia adeptos no mundo ocidental rapidamente – o Espiritismo. O mesmo não acontecia com o Budismo. Não podemos dizer com certeza se Augusto dos Anjos leu ou não as obras de Kardec, mas como não supor que isto possa ter acontecido se as suas obras são contemporâneas das de Darwin e de Marx, além de escritas em uma língua de cultura, o francês, uma espécie de coiné para os intelectuais do século XIX? Lembremos que a Federação Espírita Brasileira é de 1884, ano do nascimento do poeta. Para existir uma federação já em 1884 significa que o movimento dos centros espíritas começou bem antes. A título de informação, a Federação Espírita da Paraíba é fundada em 1916, dois anos depois da morte do poeta. Acreditamos ser plausível conceber que Augusto dos Anjos estava tão afinado com a doutrina espírita, via franceses, quanto com a budista, via alemães. É verdade que Budismo e Espiritismo têm pontos de contato entre si, como a reencarnação, que só deixará de acontecer quando o espírito encontrar a iluminação. Além disso, o karma budista encontra guarida na Lei do Retorno, da Lei da Ação e da Reação, tornando-nos responsáveis pelo que fazemos e dizemos. Seria, no entanto, muito arriscado ao escritor veicular tais conceitos na sua poesia abertamente. Aceita-se com facilidade o cientificismo e a utilização das palavras esdrúxulas das ciências físicas e biológicas, pois o mundo está entre maravilhado e atônito com tais descobertas, e a ciência sempre teve guarida na mente dos intelectuais. Como veicular as ideias espiritualistas, as do Espiritismo, mais especificamente, senão as encobrindo com as ideias mais aceitáveis de uma religião que não concorria com o Cristianismo? Por outro lado, o esdrúxulo de se fazer relações com o Budismo se adequava perfeitamente ao esdrúxulo do vocabulário científico e com a exposição cruenta de uma matéria em decomposição. Falar de Budismo ou usar de modo explícito o léxico budista, aqui e acolá, pareceria estranheza e excentricidade tanto quanto o léxico das ciências naturais em poesia. Mas pensemos que a arte se faz no interdito. Neste aspecto, a poesia de Augusto dos Anjos se aproximaria da linguagem barroca, que se utilizava de rebuscamentos para esconder o que queria dizer, por ser proibido dizer. O Budismo seria, então, uma excentricidade; o Espiritismo, uma heresia, ambos apresentados em poesia em um Brasil católico... O melhor modo de esconder isto seria através da linguagem científica abundante e das visões de degradação da matéria. Antes de finalizar este introito, reafirmamos o que dissemos em outros artigos: o fato de Augusto dos Anjos, em sua poesia, utilizar-se de uma clara espiritualidade, não nos autoriza dizer que o poeta era adepto desta ou daquela religião, o que pouco importa para a excelência de sua poesia. Escolhemos para tentar compreender um pouco mais da poesia de Augusto dos Anjos, o poema “As Cismas do Destino”, por constituir-se um dos textos que fazem a espinha dorsal do Eu. Trata-se de longo poema de 105 estrofes, dividido em quatro partes, já delineadas pelo próprio poeta: a Parte I é constituída de 28 estrofes (1-28); a Parte II de 34 (29-62); a Parte III de 35 (63-97), e a Parte IV de 8 (98-105). É um poema dialogal, como outros de Augusto dos Anjos, sendo, neste caso, o diálogo entretecido entre o Eu-lírico e o Destino... Autor: Milton Marques Junior - marquesjr45@hotmail.com Fonte: Revista Correio das Artes - Suplemento literário do jornal A União - Abril/2019 nº 2 |