Nome do Escritor: Pedro Luiz Cipolla

A Revisão

Agenor é desses homens que pode ser classificado de bonito.
Com seus 40 anos carrega ainda o charme da sua juventude incrustada nos cabelos brancos de suas têmporas.
Apesar de estar casado há 15 anos, manteve-se fiel até que...
Explico melhor: a firma em que Agenor trabalhava, por economia, começou a admitir estagiárias para trabalharem na empresa.
Moças jovens, de mais ou menos 22 anos, que procuravam uma oportunidade de trabalho em mercado tão escasso.
Homem sedutor que era, e porque não dizer meio safado, Agenor foi fazendo amizade com alguma delas e se insinuando. Ora nos cafezinhos ora nos corredores da empresa...
Daí a oferecer carona às moças foi um pulo.E assim, o nosso ex-marido exemplar, foi aos poucos entrando paulatinamente pela seara do pecado, sempre com a desculpa de que estava ajudando às colegas.
Claro que as intenções de Agenor eram as que o amigo leitor imagina.
Primeiro testar o seu poder de charme e conquista, já adormecido há 15 anos e segundo, porque as mocinhas de fato eram um estímulo àquele lobo que se havia perdido parte do pelo,não havia perdido o vício.
Entre caronas e conversas Agenor foi fazendo as suas conquistas entre as moças da empresa.Como o que mais corre é boato, ele começou a ser conhecido por todas as estagiárias e a sua fama de amante experiente cresceu tanto que a sua carona começou até a ser disputada.
No final o que acontecia, é que nessas idas e vindas Agenor trocava carícias, com umas mais e outras menos, a ponto de, antes de entregar a mocinha em casa,  parar em alguma rua mais afastada e ali ficarem namorando.
Quem já namorou sabe que certas áreas do corpo, uma vez tocadas com carinho, dificilmente permitem ao mesmo que ele se aquiete sem os chamados "finalmente".
Como motéis e lugares mais tranqüilos estavam totalmente afastados, tanto da possibilidade financeira de Agenor, como pelo risco que ofereciam dele ser descoberto pela mulher,era de fato nas ruinhas mais afastadas dos bairros que o nosso Don Juan exercia todo o seu poder de conquista e prazer.
De fato, no mais das vezes, as mocinhas iam se entregando às carícias experientes de Agenor que também perdia o controle da situação.
Na medida em que as carícias íntimas iam avançando o interior do carro ia virando uma grande bagunça de roupas, blusas, meias e calcinhas tiradas pela sofreguidão dos amantes.
Não raro tinham que se vestir às pressas e saírem correndo quando algum vizinho ou transeunte passava pela rua.
Uma vez, Agenor quase foi pego em flagrante pelo pai de uma das moças.
O problema maior não residia aí e sim nas "pistas" que estas aventuras rocambolescas pudessem deixar no "local do crime", o carro, e serem achadas inadvertidamente por alguém da sua família quando saíssem para passear ou fazer algum daqueles piqueniques no litoral.
Para isso Agenor já havia programado de rotina, antes de fazer qualquer passeio com a família, a "revisão".
A "revisão" consistia de uma procura minuciosa dentro do carro, de qualquer objeto que pudesse compromete-lo ou denunciá-lo com relação às suas investidas amorosas.
Várias vezes encontrou pontas de cigarro com batom, lápis de sobrancelha, fitas de cabelo, grampos e pasmem: até uma calcinha!
Esta "revisão" era sagrada para ele. Disto dependia a sua segurança da tão decantada fidelidade ao casamento.
Acontece que na noite anterior, depois de uma "carona", Agenor foi para casa e como estava muito cansado resolveu fazer a "revisão" só no dia seguinte:sábado.
Pela manhã é despertado com o alarido da família, querendo a todo custo, fazer um piquenique à Praia Grande, uma vez que o dia estava lindo. A sogra havia trazido até as coxinhas de galinha e o frango com farofa.
Não poderia dizer não, até pela sensação de culpa, à tão carinhosa mulher e aos dois filhos pequenos que agora penduravam-se do seu pescoço gritando: "Vamos papai!".
Meio entorpecido pelo sono Agenor põe toda a tranqueira no carro (a sogra, inclusive) e parte em direção ao litoral para o tão festejado piquenique.
A gritaria da criançada e a balbúrdia vão fazendo Agenor se distrair e começar até a cantar.
No rádio toca uma música antiga de Nelson Gonçalves que Agenor desafinado procura acompanhar:
"Amor traído, amor bandido, não merece revisão..."
REVISÃO?
Aquela simples palavra desperta em Agenor uma descarga de adrenalina tão intensa que ele começa a suar frio. Em pânico pensa:
"Meu Deus! Como é que eu fui esquecer de fazer a "revisão"? Também a gente saiu correndo e eu esqueci!!"
Suas mãos apertavam fortemente a direção do automóvel como reflexo do seu desespero. Em fração de segundos passou pelo seu cérebro toda a bandalha que praticara até então.
O suor insistia em correr frio pelo seu rosto enquanto disfarçadamente olhava pelos lados à procura de algo ou algum objeto que pudesse compromete-lo.    Virava tanto os olhos que parecia que eles sairiam das órbitas na vã tentativa de faze-los percorrer um raio de 360º.
Dentro do carro todos estavam muito excitados para perceberem qualquer mudança na situação, exceto a sogra, que graças a Deus, roncava no banco de trás.Ainda bem, pois se existisse algo, ele tinha certeza de que ela seria a primeira a encontrar.
Como a procura visual resultara em nada, Agenor passou então a fazer disfarçadamente uma procura tátil de algum objeto estranho que pudesse estar por entre os vãos ou embaixo dos bancos do carro.
Discretamente, como alguém que quisesse se coçar enquanto dirigia, foi enfiando uma das mãos por entre os vãos dos bancos à procura do que nem ele mesmo sabia.
No desespero das apalpadelas descobre embaixo do banco, uma sandália...
"Quem poderia ter esquecido esta sandália aqui meu Deus?"
Agora não era hora de saber quem, mas como se livrar do objeto que o denunciaria.
Alegando a visão de um pássaro raro, aponta para o céu fazendo com que a família toda se volte para o outro lado, podendo assim, jogar pela janela, atirando na Serra do Mar, aquela que seria a prova cabal da sua safadeza.
Mas se existia um pé deveria haver o outro...
Como um cego desesperado vai palpando por entre os bancos até que finalmente encontra o outro pé da sandália.
Repete a mesma balela da visão do pássaro raro e consegue, sem que ninguém perceba, se desfazer da  sandália que seria a decretação final do seu casamento.
Aos poucos, passado o desespero, Agenor vai recobrando a calma perdida e começa até a sorrir. De fato ele tinha um anjo da guarda muito forte. Não fosse a música de Nelson Gonçalves ele não se lembraria de revisar o "local do crime". Ainda bem que deu tempo!Desta ele escapou.
Finalmente chegam à praia do tão atribulado piquenique.
As crianças abrem as portas do carro e saem em desabalada carreira em direção ao mar.
Ele desce do carro e estica as pernas, sentindo no calção molhado o suor do pânico pelo qual passara.
Sua mulher pega a cesta de piquenique e grita:
"Mamãe! Venha logo!"
"Já vou Almerinda. Só preciso descobrir onde é que essas benditas crianças esconderam as minhas sandálias!"

Data de Nascimento: 20/02/1948

A consulta

- Já não te conheço de algum lugar?
- Acho que não.
- Seu nome, é?
- Júlia, e o seu?
- Jorge, muito prazer. O que você veio fazer no consultório de um cirurgião plástico? Você é bonita demais...
- Obrigada, mas sabe como é, hoje em dia você tem que estar com tudo em cima. A concorrência é grande...
- Desculpe, mas duvido que uma mulher bonita como você tenha alguma coisa para operar. Pelo menos o que eu estou vendo...
- Você é muito gentil, mas você não está vendo tudo. E você, por que veio fazer uma consulta?
- Sabe o que é? Separei recentemente da minha última mulher. Sofri muito.Envelheci muito nestes meses. Olha só as minhas pálpebras. E estas bolsas embaixo dos olhos,então? Não são mais duas bolsas e sim duas sacolas de gordura.E você?É casada?
- Agora estou sozinha. Recentemente tive uma grande decepção. Fui traída.
- Verdade?
- Peguei o meu marido com OUTRO na cama.
- Outro? Puxa que trauma. E o que você fez?
- Dei uma surra nos dois. Arrebentei uma garrafa na cabeça daquele safado e quebrei o braço do amante dele. Quando eu fico nervosa eu sou violenta.
- Bem feito! E você é toda grandona, linda né?
- Você gosta de mulher potranca?
- Adoro. Não gosto de mulher pequenininha. Você deve ter percebido que me encantei com você desde o primeiro momento em que a vi.
- Sabe que eu também te achei bem fofinho?
- E cá entre nós Julinha, mate a minha curiosidade. O que você quer operar? Quer colocar mais silicone nesses seios lindos?
- Não, meu amor. Eu vim mesmo é pra trocar de sexo. Daí sim, ficarei uma mulher perfeita!

Local de Nascimento: São Paulo SP

3:00h

- Atrasada, outra vez!
- Que culpa eu tenho? Você só marca esses horários estapafúrdios e ainda quer que eu chegue na hora?
- É você que não tem responsabilidade. Por que você não se arruma bem antes do horário que a gente combina?
- E você pensa que é fácil? Quando eu penso que já tá todo mundo dormindo e vou saindo pra ninguém perceber, o júnior me chama e eu tenho que ir fazer o menino pegar no sono de novo.
- Você sabe que esperar me deixa nervoso!
- Ah! Mas você fica nervoso por tudo. A última vez implicou comigo por causa da roupa que eu estava usando.
- E não era pra implicar? Uma mini saia tão justa que nem dava pra se mexer!
- O meu marido, que é o meu marido, acha bonito e logo você tem que reclamar?
- Estou me arriscando por sua causa!
- E eu não me arrisco? Faço tudo o que você me pede, e coisas que até Deus duvida...
- Comigo é assim:é tudo ou nada. Que é que você quer? Melzinho na chupeta?
- Se meu marido descobre ele me mata!
- Mata, é? Quero ver ele reclamar do dinheiro que você põe em casa.
- É, mas ele não imagina que a maior parte do dinheiro que eu ganho não vem daquele trabalho miserável de balconista das Lojas Bahia.
- Você acha que ele não suspeita que você levanta algum por fora?
- Olha o respeito! Não é bem assim.
- Se até agora ele não desconfiou de nada...
- Não sei. Sabe que eu fico sempre nervosa, como da primeira vez...?
- Deixe de bobagens. Esse seu nervoso só atrapalha. Vai dizer que você não gosta?
- Vou te falar a verdade. A primeira vez eu tive muito medo,mas agora curto adoidado. Esse friozinho na barriga...
- É ou não é gostoso?
- Tem razão. Só de pensar que a gente faz tudo isso escondido e ninguém sabe, é muito excitante. Só de imaginar que podem descobrir... Acho que já não posso viver mais sem isso tudo.
- Então. Vai na minha que você só se dá bem.
- Puxa! Mas precisa ser sempre assim de madrugada? São 3:00h da manhã
- Que você queria? De dia você não tem tempo, e a gente daria a maior bandeira. Daí sim,seria perigoso. Depois que de dia, teria que ser muito rápido,e de madrugada é muito mais tranqüilo. Você trouxe as meias de nylon e as luvas que eu sempre te peço?
- Hum, hum.
- E a máscara?
- Hum, hum.
- Então vamos começar logo esse assalto que já tá ficando tarde.

Formação Acadêmica: Ensino superior - Medicina

Pelo telefone

- Alô!
- Alô!
- De onde falam?
- Daqui!
- Que é daí eu sei. Quem é que está falando?
- Eu, ué!
- Que é você eu também sei. Quem VOCÊ é?
- Eu sou eu, já disse.
- Faça-me um favor e vai chamar o Luiz Alfredo.
- Ele num pode atendê.
- Então chama a Maria Helena.
- Acho que ela também não pode.
- Ah! Já entendi. Casalzinho novo, devem estar namorando... Você deve ser o novo auxiliar doméstico. Acertei?
- Certo, mano.
- Você faz exatamente o quê aí?
- Eu faço a limpeza, sinhô.
- Pelo visto você está aí há muito pouco tempo.
- Pra falar a verdade eu cheguei hoje cedo.
- Entendi. E você trabalha na limpeza há muito tempo?
- Desde menino que eu só trabalho com o meu irmão, sinhô.
- Bonito uma família trabalhando junta. Um irmão ajudando ao outro.
- É isso aí.
- E seu irmão tá te ajudando aí?
- Não sinhô, ele tá lá fora.
- Ah! Já sei, ele é o jardineiro? Ou o piscineiro?
- Não sinhô. Ele tá lá fora no carro.
- Ah! É o motorista particular?
- Não. Ele tá me esperando.
- Te esperando pra quê?
- Ué pra levá as coisa embora.
- Então o que vocês estão fazendo aí?
- Um assalto, ora. Nóis só num fumo embora porque vim atendê o telefone.
- Cadê o Luiz Alfredo e a Maria Helena?
- Ah! Os dois tão preso no banheiro. Deixa eu ir embora que eu tô com pressa. Tchau, sinhô!

Local onde vive: Amparo SP

O Especialista

A concorrência está cada vez maior em todas as áreas. Antigamente só do fulano falar que era médico as pessoas quase que faziam uma reverência e logo chamavam "o doutor".Hoje é só parar em um posto de gasolina para abastecer o carro, já é doutor.
Aderbal Aranha, conhecido na Faculdade de Medicina por Babal, resolveu se especializar em Ginecologia e Obstetrícia, o que o leigo entende por ser o médico que faz partos e trata de mulheres. O que ninguém sabe é que Babal como médico era um ótimo jogador de futebol, seu sonho de carreira que teve de abandonar em detrimento à Medicina para agradar ao pai.
Babal, sabedor das suas poucas habilidades como médico, resolve então abrir seu consultório na periferia da cidade. Aluga uma sala numa avenida de grande movimento,em cima de uma padaria. Para diminuir a concorrência e aumentar a clientela coloca com a maior desfaçatez uma enorme placa na janela do consultório: "Dr. Aderbal Aranha-Especialista em Partos Difíceis".
Um belo dia, coincidentemente, o seu professor de Ginecologia e Obstetrícia na faculdade, passa por aquela avenida e lendo a placa não se contém e vai até o consultório do seu ex-aluno.
- Dr. Abelardo estava eu passando pela rua quando vi a sua chamativa placa de especialista. Vamos e venhamos doutor (grifou este doutor, com um certo ar de reprovação) eu que fui seu professor sei que o Sr. nunca foi bom aluno. Como é que então coloca uma placa se dizendo especialista em partos difíceis? O Sr. não acha que é um pouco demais?
- Tem razão professor, mas eu não disse nada mais do que a verdade. Para mim todos os partos são difíceis!

Médico Cirurgião Plástico. Pianista. Escritor.

Almas gêmeas

Ah! A solidão mata...
Foi assim pensando que Alfredo, um cinqüentão machista, descasado há muitos anos, cansado de freqüentar saunas com os amigos, entrou no piano bar "Alone again", em Ipanema.
Já nem se lembrava quantas vezes tinha estado lá à procura de um alguém. Alguém que realmente o completasse a quem ele pudesse dedicar todo o amor de uma vida vazia.
Após sua separação, havia estado com outras mulheres, por pouco tempo, mas por um motivo ou por outro, acabava se cansando e a separação era sempre inevitável.
Recentemente havia lido um livro no qual a "alma gêmea", o grande amor de uma vida, sempre existiu. A única questão era como e quando encontrá-la.
Ah! Quanta insatisfação! Palavras de amor que só o álcool conseguia por em sua boca, e que só com o despertar da manhã já o faziam esquecer.
Após o 3º uísque, o olhar que corria vago e tímido, aguça os sentidos como uma fera que espreita a presa. O torpor em que Alfredo estava de repente é sacudido pela abertura da porta do bar, que por instantes parece a do Olimpo.
Adentra, Aline! Reencarnação da índia Potira, uma beleza morena de cabelos longos e pretos que brilhavam, mesmo à luz mortiça do ambiente. Sua presença parece ter criado um vácuo absorvendo a voz dos freqüentadores do bar. Aos poucos o burburinho das vozes foi se transformando em murmúrio e aumentando gradativamente de volume até que os homens se acostumassem à sua presença.
Alfredo, sentindo o coração saindo pela boca,vence a timidez e ato contínuo se precipita sobre ela, antes que um outro gavião solitário assim o fizesse. A partir daí sua vida já não seria a mesma. O que parecia impossível, agora se materializava. A sua alma gêmea,tinha certeza, acabava de entrar por aquela porta de bar.
- Prazer, Alfredo.
- Encantada, Aline...
A cada minuto de conversa mais Alfredo se encantava com Aline. Viúva desde há um ano e saindo agora do luto, saíra para espairecer um pouco, não tanto por ela mas pela insistência de uma amiga. Gozado é que aquele sotaque paulista,que ele tanto ridicularizava nos outros, com os rr de "porrta", "torrta", na boca de Aline agora soavam como música aos seus ouvidos.
De fato, Aline mexia estranhamente com todos os sentidos de Alfredo. Um homem já tão vivido parecia que agora, como um menino, descobrira pela primeira vez a paixão ou o que pensava dela.
Tarde da noite, levando-a para casa, um belo prédio de apartamentos na Barra, Alfredo, excitado pelos uísques, tenta resgatar em minutos todos os afagos que sua carência afetiva pediam. Ela tímida, um pouco indefesa recua... A viuvez justifica a sua recusa.
- Por favor, vamos a um último uísque em sua casa? Ou então na minha?
Aline, como o inconsciente de Alfredo talvez quisesse, nega...
Apesar dos tempos de liberalidade uma aventura passageira nunca virá a ser um grande amor.
Não, hoje não. Coisas de mulher, você sabe... Calma, o mundo não foi feito em um dia.

Alfredo que no fundo sempre pensou que não poderia entrar sócio de um clube que o aceitasse como tal, concorda resignado valorizando a conduta moral de Aline.
Assim, era exatamente assim, que ele queria sua alma gêmea. Vivida porém recatada, insinuante porém discreta, tímida deixando antever um vulcão queimando dentro do seu corpo de deusa.
De fato, estava cansado da rotina do "vamos logo". Façamos o que tem de ser feito como dois animais no cio... Uma atitude que no fundo feria a sua sensibilidade.
Sensibilidade que faltava à muitas mulheres. Aline era diferente!
Entregaria agora, as rédeas do seu tão desiludido coração, àquela que o guiaria pelo caminho da felicidade. Jurava que agora seria pela última vez...
Afinal, estar com Aline tornou-se o objetivo maior da vida de Alfredo. Conviver com ela, conhecendo-a melhor, deixar esta relação amadurecer, podendo assim colher frutos mais doces. Vingar-se-iam agora do tão amargo e insatisfeito passado que certamente deixara marcas profundas em ambos.
A partir daí, foi aquela cara porém deliciosa rotina: jantares, cinema, teatro.
Um dia, na sauna, um amigo, seu confidente, vendo-o tão animado perguntou:
- E daí, Alfredão? Ela é boa de cama? Conhecendo o vivido cinqüentão.
- Não, essa não é como as outras. Nem transei ainda. Essa é honesta. Estamos esperando o momento certo... Estamos nos curtindo.

Enfim,um dia entre abraços sufocados, beijos desesperados, os corpos clamando pela solução final, Aline e Alfredo resolvem programar um fim de semana em uma praia solitária. Não em qualquer uma, mas sim onde os dois pudessem ter o apogeu da flor que espera ser colhida após o tempo da semeadura.
Santo Antônio de Itaboraí, no litoral fluminense, foi onde Alfredo alugou uma casinha de pescadores dentro da praia.
Ali, os encantos do mar e o clima primitivo da casa os envolviam, fazendo com que os futuros amantes imaginassem todas as loucuras que estavam por vir.
A casinha era simples, com o chão de areia e uma cama de casal, que poderia ser comparada a um catre que agora parecia as nuvens pousadas sobre um céu azul, que Aline fez questão de forrar com um lençol de cetim vermelho.
Aline, com uma roupa branca esvoaçante, sai da cabana e corre em direção ao mar fincando na areia uma vela branca, bem onde as ondas deixam as suas últimas espumas.
Diante da curiosidade do futuro amante...
- Estou agradecendo a Iemanjá, por ter te encontrado e para que ela abençoe o nosso amor! Êpa hêi Iemanjá!
Após algumas garrafas de vinho, tristezas da infância, juras de amor, lágrimas, desejos...
- Meu maior sonho seria poder ter um filho teu. Com esta tua carinha de safado...
Alfredo confessa nunca ter tido filhos. Nunca os quis. Achava que atrapalhariam o casamento. Na verdade deveria ter seguido o conselho de sua querida mãe (que Deus a tenha) e não ter se casado nunca. Sua mãe dizia que ele não fora talhado para o casamento. Quanta saudade da mãe... Duas lágrimas sentidas, profundas, escondidas em algum canto escuro da alma rolaram ao mesmo tempo pela face de ambos. Lágrimas e almas gêmeas... Como se a vida deles tivesse se misturado desde o começo mostrando o que eram e o que queriam ter sido.
E aí os corpos se encontraram, sofridos e maltratados pelo destino, na ânsia louca do amor e do prazer. Os dois se buscando desesperadamente... Lábios sedentos, mãos deslizando pelos corpos, sussurros incompreensíveis. Línguas, cobras da sedução,em excitação máxima! Pernas, peitos, coxas e um ai meu Deus!
A loucura do descontrole. Aline procurando Alfredo... e Alfredo procurando Aline, acha... Ela era... ELE!
Num misto de dúvida, surpresa e espanto, Alfredo para. Olha bem nos fundo dos olhos de Aline que suspende a respiração ansiosa e ofegante e balbucia:
- Beije-me amor. Você é minha verdadeira alma gêmea!
Alfredo, depois de descobrir seu lado mulher, casa-se de papel passado (contrariando outra vez os desejos de sua falecida mãezinha) com Aline, digo Alinelson Silva de Jesus, 23 anos, carioca, reservista de 1ª categoria da Marinha,natural de Pau Grande, Rio de Janeiro.
Nota do autor: "Quando Deus fez o sapo também fez a sapa".

EMAIL: pedrocipolla.pc@gmail.com

Último desejo

Outro dia pela manhã me deparei no jornal com uma realidade que, mais cedo ou mais tarde, todos nós enfrentaremos: a morte.
Claro que se sabemos mal e mal das nossas vidas, pelo menos deveremos ter certeza do que queremos para as nossas mortes.
"Compre sua campa no Cemitério Boa Paz. Tranqüilidade. Este é o investimento mais inteligente que você pode fazer. Sem entrada e sem intermediárias ".
Gozado. Nunca havia pensado nisso: minha última morada. Pelo menos essa não preciso me preocupar se fica perto da escola das crianças, tem supermercado nas redondezas, se a rua tem muito movimento, ou o que é, ou era, mais importante, ser próxima a uma boa pizzaria.
Não, nada disso. No cemitério Boa Paz, sem entrada e sem intermediárias, o seu sossego eterno estaria garantido.
Será que pagando bem, vou poder ser enterrado com os objetos que tanto gostei em vida? Como o relógio do meu avô, que até hoje trago junto a mim e que insiste em marcar horas; e que certamente irá me acompanhar na outra vida, sem essa tremenda teimosia?
Ou então o meu radinho de pilha, companheiro de todas as noites. Só ele sabe que gosto de dormir ouvindo vozes...
Não, não quero comprar uma coisa pela qual não poderei reclamar se não estiver satisfeito.
Quando morrer, quero retornar rapidamente, ao bom e velho pó do qual fui feito.
Os meus poucos pertences quero deixar com aqueles que me amaram e que se lembrarão de mim nas horas mais corriqueiras do dia, como com o relógio do meu avô.
Com a árvore que cortariam para o meu caixão, façam cadernos e dêem às crianças para que escrevam sobre o mistério da vida, para que os homens aprendam o mistério da morte.
As minhas cinzas uma parte joguem bem para o alto onde possam cair nas asas de algum pássaro errante e assim ele possa me levar a lugares que sempre imaginei e nunca vi.
Outra parte joguem no mar para que eu possa mergulhar nos abismos infindáveis que tentei em vão descobrir em vida e outra parte dêem a mulher que tanto amei com a certeza de que um dia iremos nos encontrar de novo...
Por fim, ora, falem bem de mim, se puderem...

Livros publicados:
Nenhum por enquanto.

A Cirurgia

- Seu nome?
- Roberta, digo, Roberto Santos Silva.
- Já internou neste hospital?
- Não, Graças a Deus não! É a primeira vez.
- Tua cirurgia já está marcada?
- Tá. É hoje. Eu estou na fila há 2 anos.
- Quem vai te operar?
- Ah! É o doutor... Como é mesmo o nome dele?
- Qual é a especialidade dele?
- Ele opera "essas coisas", sabe?
- Que coisas? Diz logo pô! Não tá vendo a fila? Além de atender esse povão agora tenho que adivinhar quem vai operar o quê?
- Ai! Não seja bruto. Estou nervosa, né?
- Afinal, já descobriu o que você vai operar e o nome do cirurgião?
- Olha, já te disse. Vou operar "aquilo". Entendeu?
- Ah! Já sei, a boneca vai operar o bilauzinho.
- Fala baixo! Quer que todo mundo saiba é? Ah, lembrei! O nome do médico é Vilarinho. Mas que bagunça é aqui né?
- O que você esperava de um hospital do INSS? A fofinha não gostou é?
- Não enche, seu grosso!
- Jurandir vem cá! Leva essa florzinha prá Urologia. Ela tem cirurgia marcada com o Dr. Vilarinho. Boa sorte, princesa!
- Obrigada, seu chatonildo!
No Centro Cirúrgico...
- Magalhães, vai pondo o paciente na mesa e comece a anestesia que eu já estou indo.
- Puxa, mas você ontem bebeu, hein?
- Também eu tava como o diabo gosta...
- A Marta, não largou do teu pescoço a noite toda.
- Não foi só do pescoço que ela não largou a noite toda.
- Deixa a tua mulher saber...
- Que saber, nada! Ela nem desconfia. E depois você sabe, né? Enfermerinha nova no hospital tem que passar pelo "bisturi" aqui do papai.
Tô numa ressaca... Como é, Carvalho? Vamos operar? Já estamos atrasados.

- Oi, Magalhães! A primeira cirurgia não era na outra sala?
- Era! Mudaram. Você já deveria estar acostumado com essa bagunça. O Macedo demora 10 horas prá fazer uma fimose... O jeito foi mudar para esta sala. Na 9 tão fazendo um RX, a 5 está contaminada, na 4 o ar condicionado pifou, na 2 acabou o oxigênio, na 8 o foco tá quebrado, na 6...
- Tá bom, tá bom. Eu já estou acostumado. Vamos começar logo que depois desta eu tenho mais 3 cirurgias e ainda marquei um almoço com o pessoal do Convênio.
- Será que agora o reajuste sai?
- Não sei não Magalhães, nós estamos pleiteando reajustar a consulta de R$ 6,00 para R$ 8,00 e as cirurgias maiores de R$ 120,00 para R$ 150,00.
- Será que eles vão topar?
- Tá difícil! Carvalho, vamos lá! Passa o bisturi.
- Pô, mas esse cara é grande, hein?
- Glorinha, feche os olhos que você não pode ver essas coisas.
- Ah! Doutor, eu já estou acostumada...
- Me dá aquela tesoura curva delicada. Carvalho, cauterize este vaso menor e deixa o maior que eu vou amarrar. Catgut!
- Como tem gente que não gosta da coisa, né? Toda vez que você faz esta cirurgia eu sinto um arrepio aqui em baixo.
- O cara já nasce assim. Ele não consegue viver com "esta coisa". Se não cortar ele é capaz de se matar.
- È uma pena né? Olha que este é um cara grande, hein? Bonitão, mas tem mesmo um jeitinho de boneca.
- Como é que você sabe? O bicho tá dormindo. Tá anestesiado...
- Parece, né?
- Humm Carvalho, tô te estranhando... É, mas antes de passar pela cirurgia ele passou por uma batelada de exames para confirmar. Não é assim, não...
Pega o afastador e afasta aqui que eu não estou enxergando por causa do sangue.
- Doutor!
- Fala Glorinha, minha instrumentadora querida.
- Agora é a pior parte, né? Quando "descasca" tudo. Eu que sou mulher sinto um friozinho na barriga... Como chama esta parte?
- Emasculação. Tá achando um desperdício é?
- Puxa, tá faltando tanto homem na praça e tem uns que estão jogando fora...
- E o que eu te dou, não te agrada?
- Por favor, doutor Vilarinho...
- Carvalho, levante a peça que eu vou cortar a base. Pronto, tá livre. Glorinha, leve prá casa e dê pros teus gatinhos.
- Que nojo doutor. Deixe de brincadeiras.
- Bom, Carvalho você termina? Agora você já sabe, né? É só rebater toda essa pele prá dentro e depois costurar. Capricha na "mocinha". Eu vou adiantando e chamando o outro paciente.
Obrigado, pessoal!
- Enfermeira chame meu próximo paciente!
- Como é o nome dele, doutor?
- Roberto Santos Silva. Cirurgia de fimose.
- ?
- Como é! Vamos logo!
- Não doutor, acho que houve um pequeno engano. Roberto Santos Silva é cirurgia de transexualismo, mudança de sexo. Fimose, é que a cirurgia do Roberto Silva Santos.
- Não brinca!
- Não estou brincando, doutor. Olhe aqui no quadro:
1- Roberto Santos Silva- sala 10 - Transexualismo
A seguir: Roberto Silva Santos- sala 01- Fimose
- Então, eu... Mas o que aconteceu? O Dr. Macedo estava na 10. Eu estava na 1? Eu estava na 1 ou na 10? Não sei, mas eu pensei...
Meu Deus esta ressaca! Isto só pode ser um pesadelo!
Enfermeira, eu tô indo embora!
- Mas e agora doutor? O que é que eu vou dizer quando perguntarem pelo senhor?
- Não sei! Diga que eu morri ou me afoguei no álcool. Eu não quero estar aqui quando esse "tal" Roberto acordar.

Site/Blog:
Por enquanto, meus textos estão sendo divulgados apenas pelo Site do Escritor.

A Auto Escola da vida

Gracinha, quer dizer, Maria das Graças Pereira, de pais portugueses, morava num bairro da periferia de São Paulo tendo no nome o que lhe faltava em beleza.
Não que fosse uma moça muito feia mas uns óculos de fundo de garrafa apoiados no nariz adunco e os dentes protuberantes lhe davam um ar, porque não dizer, esquisito.
Pela insistência do pai fizera vestibular para Medicina pois ele queria uma filha doutora já que o outro filho continuou no seu ofício: padeiro.
Tendo prestado vestibular para Medicina, Gracinha entrou em Veterinária e acabou mesmo cursando Psicologia numa dessas faculdades com nome de santo.
Agora formada, e já com 30 anos, se via na obrigação de ter que trabalhar. Afinal, tinha que ajudar a família e também ocupar seu solitário tempo.
Pensou em trabalhar em algo diferente uma vez que o número de psicólogos superava em muito o de padeiros.
Lembrou da grande dificuldade da sua mãe ao aprender a dirigir, pois mesmo após 10 aulas ainda não havia conseguido tirar o carro da garagem sem levar o portão junto e acabara por desistir.
Segundo Gracinha o fracasso da mãe teria sido pelo fato de que havia faltado ao instrutor um pouco de psicologia, e não como falavam as más línguas da vizinhança, na dificuldade natural do povo lusitano...
Daí a sua grande idéia: abrir uma auto escola que associasse Psicologia ao ensino das aulas de direção. Quantas pessoas não teriam dificuldade de dirigir um automóvel por problemas psicológicos?
Na garagem lateral de sua casa inaugurou orgulhosa a "Direção e Confiança", a Auto Escola que acaba com o seu medo de dirigir!
Coincidência ou não, Dna. Alzira, uma cinqüentona que morava nas redondezas, ganhou um carro em um sorteio e procurou a nossa instrutora para aprender a dirigir.
Gracinha pediu emprestado ao pai sua Brasília para que pudesse então começar a dar suas primeiras aulas.
No dia marcado lá vai a nossa instrutora psicóloga buscar a aluna para sua primeira aula.
- Bom dia, Dna Alzira.Lindo dia não? (regra básica em Psicologia: transmitir alegria e otimismo ao cliente)
- Não sei não, Gracinha. Tô tremendo dos pés à cabeça. Tenho vontade de desistir. Esta noite nem dormi de medo...
- Que é isso Dna. Alzira? Para a Sra. isto aqui vai ser uma brincadeira. (outra regra básica: incutir auto confiança)
- Muito bonito, mas eu estou me borrando toda!
A aluna senta-se ao volante e Gracinha ao lado:
- Bem, vamos lá. Não se esqueça de que a pressa é a inimiga da perfeição e nós temos todo o tempo do mundo. (outra regra: muita paciência).
Ainda tremendo, Dna. Alzira arruma o espelho retrovisor e tocando no "São Cristóvão" ali pendurado faz o sinal da cruz e se prepara...
- Uma vez ligado o motor vamos engatar as marchas que nos levarão ao sucesso (otimismo). Pise naquele pedal da esquerda e empurre a alavanca do câmbio.
Isso, muito bem! Solte o freio de mão e agora vá soltando o pé esquerdo enquanto o direito pisa devagarinho no pedal da direita.
Ótimo! Veja como o carro obedece. Olha aí, já estamos andando!
- Gracinha! É, é um milagre! Nunca pensei que pudesse conseguir! Grita eufórica Dna.Alzira.
- Agora, sem medo, (outra regra básica em Psicologia: incutir coragem) vá pisando no pedal da direita devagarinho que vamos mudar para a 2ª marcha.
Isso... Pise no pedal da esquerda e suavemente puxe o câmbio para trás... Devagar, devagar... acelere de leve...
Pronto, estamos em 2ª...
Até hoje não se sabe direito o que aconteceu. Por medo ou porque o pé tivesse ficado preso, Dna. Alzira começa a acelerar o carro descontroladamente.
- Calma Dna. Alzira! Devagar, tenha serenidade... (regra fundamental: transmitir calma ao paciente)
E Dna Alzira acelerando...
- Pare! Olhe a tremenda ladeira...!
- Não consigo!
- Pare esta merda, pelo amor de Deus! Pise no freio, porra!
Nisso, Gracinha puxando o freio de mão que insistia em não funcionar, já havia perdido toda a sua compostura, serenidade, esquecendo-se totalmente da Psicologia ficando mais para o "salve-se quem puder " do que para pormenores de educação.
Nada adiantou. Precipitando-se ladeira abaixo em desabalada e incontrolável carreira ia aquela Brasília desgovernada...
No meio do caminho um carrinho de frutas foi pego em cheio, tendo feito a felicidade dos moradores da rua e a infelicidade do fruteiro que pelo menos escapou com vida,o que não se pode dizer dos dois cachorros que foram atropelados...Um após o outro...
Uma velhinha que tomava sol na calçada, para fugir do automóvel descontrolado correu tanto, que de susto teve um ataque cardíaco.
Por fim, o carro conseguiu parar embaixo da carcaça abandonada de um caminhão.
As duas, com algumas escoriações, só conseguiram sair do carro depois que o Corpo de Bombeiros serrou a carroceria.
Só mais tarde foram achar o "São Cristóvão" dentro do sutiã de Dna. Alzira...
Atualmente, Gracinha está em tratamento para perder o medo de dirigir, Dna. Alzira é motorista de praça em São Paulo e o "São Cristóvão" continua no espelhinho...

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Auto-retrato

Hoje parei só para ver o tempo passar. Não pensar em nada e ficar olhando o céu sistematicamente azul. Ficar olhando as nuvens fazendo imagens que tanto me divertiam na infância.
Deixar o cérebro correr solto, maluco, inconseqüentemente pelas ruas e becos da minha vida, do meu passado.
Como em um filme de um cineasta pós-moderno construir imagens que pudessem fazer o meu auto-retrato. Imagens, muitas delas, que talvez nem eu mesmo entendesse,mas assim mesmo deixar correr solto o que a vida impregnou no meu cérebro.
Gestos de carinho, adeus, lágrimas sentidas, gozos intermináveis...
Idas e vindas, cheiros de mato e de flor, de fruta e de amor.
Amor que ainda não sei se conheço, se é esse ou se um dia conhecerei. Das brigas, das ansiedades, das desilusões, do desencanto, que parece que só a vida ensina. Dos amores,das lembranças,das saudades, dos momentos tão felizes e da desgraça dos desenganos. Sentimentos que foram deixando marcas no meu rosto.
Do que fiz ou deixei de fazer, do que seria se tivesse feito... Tudo o que foi deixando as minhas pálpebras mais cansadas.
O tempo, esse sim, abraçado com seu maior aliado, o destino, sabe o que faz. Segue o seu curso inexorável, certo, matematicamente certo seguindo o que está escrito em algum livro que nunca chegarei a ler; deixando na minha boca esse esgar de escárnio com relação à vida que ninguém percebe.
E eu como essas nuvens vou gradativamente mudando a minha forma ao sabor do vento destino. Hora uma criança rindo, um homem chorando, um cachorro com a boca aberta ou um beija-flor parado no ar. Não sou exatamente o que queria ser, e sim o que alguém,que não conheço, quer que eu seja. Só percebi isto muito tarde. Num tempo que não me dá a certeza,mas a resignação de me entregar suave, dócil, ao meu destino,começando a considerar que na hora certa a morte é até uma bênção.
O destino tem esse dom. Depois de tanto lutarmos contra ele acabamos por nos associarmos e entender que é ele quem manda. O senhor todo poderoso. Ele quem escreve aquele livro a que nós não é dado ler, e se encarrega de fazer cumprir tudo o que lá está escrito. Ele que nos convence de que viver tem prazo de validade, e sorte teremos se nos fizermos consumir até a última gota de nossa essência para justificarmos a nossa presença neste mundo, quem sabe para voltarmos como um novo produto e em nova embalagem.
Nós que não passamos pelo tempo e sim o tempo que passa por nós.
Na verdade o auto-retrato de nossas vidas, de auto não tem nada, pois nós entramos com a cara, mas o fotógrafo é o destino.