Nome do Escritor: José Carlos de Bom Sucesso

Cemitério: hotel quatro estrelas

Dr. Júlio, um renomado professor de Filosofia. Muito culto, leitor assíduo de jornais, livros, livretos, artigos filosóficos, escritor, poeta e cantor nos finais de semana. Ótima pessoa, mas de um temperamento muito curto. Sempre está metido em polêmicas, sejam elas do meio artístico, político, social e outras.
Certo dia, após os compromissos na faculdade, entrou em polêmica com um político e só não saíram aos tapas por causa do vigário local. Foi orientado a ficar mais calmo, portanto a palavra “calma” não está em seu vocabulário. Sempre, de muitas vezes, explode de fúria.
No último semestre, em reunião com a direção da faculdade, teve um surto de zanga que o deixou muito exausto. Não tinha para ninguém e sempre as decisões e os pensamentos eram, sem dúvidas, complexos e difíceis de serem entendidos pelos alunos, pelos colegas de profissão, enfim, pela sociedade em geral.
Participou de um encontro de jovens no último final de semana, mas quase foi expulso do evento pelo fato de ir contra as ideias do palestrante. Foi um tempo quente entre os dois. Parece que até o nome da mãe deles foi falado no dia.
Foi convidado para ser intermediário de um debate sobre a violência promovido pela faculdade onde trabalha. O termo violência foi mencionado várias vezes que ele mesmo interviu para que os participantes dissessem “crueldade”. Mais um fato não aceito e virou tempestade no debate. Quase saíram aos tapas e mais uma vez teve o encerramento antecipado.
Foi ao mercado comprar frutas. Lá encontrou outro professor de filosofia. A conversa entre eles foi muito demorada e precisaram ser retirados do recinto. Foi um tempo exasperado e foram discutir na rua. Quase saíram aos tapas.
Todos os lugares onde frequentava tinha confusão.
Ele, por ser uma pessoa muito inteligente e de grande saber, não aceitava as opiniões dos outros. Sempre eram suas opiniões, os seus pensamentos e os seus desejos, os mais corretos e de acordo com as correntes filosóficas. Tudo tinha a polêmica e das polêmicas é que surgiam as brigas, as palavras de baixo calão, enfim, tudo o que acontecia era fruto do pensamento.
Certa vez foi padrinho de casamento de um ex-aluno. Não deu outra. Iniciou outra querela com o juiz de paz. Quase não houve o casamento.
Foi casado e ficou nem um mês com a família. Na lua de mel criou outra contenda com a esposa sobre questões filosóficas.
Autor de vários livros, mas sempre que os lança ele cria uma contestação sobre tudo. Até mesmo o canto dos pássaros é motivo para questionar.
Foi ao médico e somente não teve briga porque o médico era o próprio pai. Tudo que ele dizia, o pai concordava e foi uma das maneiras de vencer a ânsia e uma forma de terapia contra a cólera que estava dentro dele.
O irmão era psicólogo e sugeriu que ele tirasse um momento de férias, mas longe de tudo, até mesmo longe da própria natureza. Pensou várias vezes e não achou nenhum lugar.
Um certo dia, o celular toca dentro da sala onde lecionava. Não atendeu no momento, mas a insistência era muita que ele pediu licença para atender. Do outro lado da linha estava a ex-sogra, que chorando comunicava o falecimento da filha, que fora casada nem um mês. Ficou triste e via-se as lágrimas rolarem nos olhos. Perdeu o sentido do que falava e foi amparado pela aluna, da qual, há cinco minutos antes, teve mais uma refutação. Triste e desolado, sentou-se perto da aluna e ela veio ampará-lo, juntamente com os demais alunos. A aula acabou e ele foi imediatamente para o velório da falecida na cidade vizinha.
No velório encontrou com várias pessoas conhecidas, com antigos professores, antigos alunos e um deles foi proclamado bispo e veio celebrar a missa. Até que desta vez ele respeitou todos os presentes. Não criou nenhuma polêmica, mas arregalou os olhos quando o bispo disse algumas palavras que não se relacionavam bem com a matéria Filosofia, mas a cunhada falou aos ouvidos dele para não dizer nada, pois sabia que ele iria com tudo e todas as técnicas ao bispo. Foi difícil, mas foi contido.
Após o velório, Dr. Júlio ficou por mais tempo no cemitério. Não queria sair e ficou perto do túmulo da esposa, com que ficou casado nem mesmo um mês. Ele a amava muito. O temperamento dele é que lhe atrapalhava. Era autor de vários livros, palestrante em várias conferências, um exemplo de professor, mas tinha o atilho muito curto. Queria mudar, mas não conseguia.
Triste da vida, no outro dia, pediu licença na faculdade por quinze dias. Estava desolado em perder o amor da vida. Mesmo estando separados, ela o consolava pelo telefone e muitas vezes ele foi visto conversando com ela na praça e até mesmo na casa dela. Não estavam casados, mas eram a mesma coisa de um casal. Ela era a melhor amiga e a pessoa que ele mais confiava.
Em todos os dias ele ficava no cemitério. Levou uma cadeira, uma pequena mesa e o computador pessoal. Ali, pelo menos nos quinze dias que ficou afastado, ele escrevia mais livros, mais artigos e pensava melhor a vida.
Estava fazendo muito frio neste dia e ele não estava se sentindo bem. Ficou lá até mais tarde e pediu para o coveiro que naquela noite ficaria ali. Gostaria muito de ver a noite dentro de um cemitério, de contemplar a vida após a morte e ainda não se contentava com a morte prematura da esposa. O coveiro concordou e ainda lhe trouxe um cobertor e um travesseiro, pois a noite prometia ser fria. O tempo foi passando. As estrelas apareceram no céu e uma paz reinava ali, dentro daquele cemitério. Era uma sexta-feira e não tinha mais ninguém para ser velado. Dia de folga do coveiro, mas Dr. Júlio anotou o telefone do coveiro e prometeu que vigiaria o cemitério naquela noite.
Dr. Júlio andou no cemitério por parte da noite. Parava perto de um túmulo, perto do outro. Apreciava a arte de construção, as flores, as luzes que refletiam sobre eles. Notou que todos eles tinham uma cruz, um símbolo que os cristãos diziam ser a força da fé, a arma da salvação e o modo com que definiam a vida e a travessia para a morte. Ele não concordava muito com isto. Era um grande professor e conhecia fielmente a ciência com que ele tinha sempre o prazer em ensinar a quem quisesse aprender. Era muito incompreensível em entender o que pensavam as pessoas. Para ele, o importante era o conceito filosófico do ser enquanto vida, do ser que era um dos precursores das ciências: a Filosofia.
Sentia frio e pensava, pensava mais uma vez, refletia sobre a vida, sobre o mundo e sobre as pessoas. Pensava em mudar a maneira de viver. Ponderava sobre as pessoas e o respeito que ele teria que ter sobre elas. Dizia consigo mesmo que precisava mudar de vida. Não tinha amigos, mas detinha o mundo cheios de inimigos. Adormeceu sobre o túmulo da esposa.
Após meia hora de sono, sonhou os mais belos sonhos. Sonhou que estava sendo tragado para um negro buraco e sem fim. Não tinha ninguém a seu lado. Os livros, as palestras e os diplomas não mais existiam. Eram tudo falsidade, eram conquistas das pessoas mundanas. Acordou meio atordoado e pensou a falta que a esposa fazia. Disse em voz baixa que queria ser abraçado por ela, que sentia falta dos beijos e das carícias, enfim, disse e suplicou perdão. Adormeceu novamente.
Acordou novamente e sentiu que o cobertor estava sendo puxado para baixo. Ele fazia força para colocá-lo novamente sobre ele, mas a força era tanta que os braços doíam e o perdia a cada momento. Sentiu algo sobre ele. Um enorme peso vindo por cima dele e um frio, alguma coisa mais fria que gelo afagando o rosto. Queria gritar, mas a voz era tragada por algo tentando beijá-lo e tocar o corpo.
Após muito esforço, livrou-se daquilo e saiu correndo pelo cemitério. Sentia que algo o seguia a ponto de agarrar-lhe, mas sua força e o pensamento em dizer em voz bem alta que mudaria após sair dali, deram-lhe velocidade e a forma de escapar. Pulou o muro do cemitério e nunca mais voltou ali.
Retornou à faculdade e mudou completamente a vida. Ficou mais calmo e nas polêmicas sempre procurava ouvir, analisar e dar a opinião. Os amigos voltaram. A vida teve mais brilho e mais amor. Voltou a acreditar em si mesmo e sempre lembrava da esposa como o remédio de cura para si mesmo. Não quis mais nenhum relacionamento com ninguém. Vinte anos após o acontecido, falece ele de acidente de veículo e foi enterrado no mesmo túmulo onde a esposa estava. O mesmo coveiro o enterrou e disse que o falecido fora aluno dele.

Data de Nascimento: 19/05/1966

Conquista da lua

Marcelo fui um brilhante aluno de Física. Com os conhecimentos adquiridos no último ano do curso ginasial e se preparava para estudar a profissão de Físico e ser um grande professor na faculdade, juntamente com os poucos amigos que tinha, assistia brilhantemente à chegada do homem à lua. Era frio e na casa do vizinho, várias pessoas assistiam e até o padeiro resolveu levar o balaio de quitanda para vender. Era muita gente.
Quando a grande frase foi dita, “ um pequeno passo para o homem, mas um passo enorme para a humanidade”, Marcelo bateu palmas, pulou de alegria e sentiu-se muito realizado, pois sempre estudou muito o mundo astronômico e era fascinado com a Teoria da Relatividade. No pensamento, ele estava feliz. Faria um bom curso e se tornaria um excelente físico. Com os conhecimentos adquiridos e a vontade de ser alguém, poderia ser contratado para trabalhar na NASA e, quem sabe, ser até diretor de missões espaciais no futuro. Foi festa para todo lado. Alguns diziam ser verdade, outros duvidavam. Alguns diziam que o homem estava conquistando segredos ainda não revelados. Surgiu até uma briga entre dois indivíduos de ideias divergentes, mas foi separada e tudo voltou ao normal.
Após uma semana da chegada do homem à lua, na escola, Marcelo sempre discutiu com os professores. Era muito esforçado e tinha uma enorme capacidade de pensar. Bolou fórmulas matemáticas, fez vários cálculos e sempre dizia que era muito fácil chegar a outros planetas. Discutiu com o professor de Geografia, com o professor de Inglês e até mesmo com a diretora. Era muito fácil, dizia ele muito confiante.
O tempo foi passando e na terceira semana, Marcelo teve um audacioso plano. Reuniu-se com os dois amigos mais chegados, de nome Marcos e Paulinho. Tinha a menina Camila, que ele dizia ser a namorada. Somente ele sabia disto, porém ela corria dele. Marcou uma reunião com eles na manhã do próximo sábado. Pediu que ninguém faltasse, porque o assunto era de suma importância.
A semana foi passando e os planos de Marcelo estavam a cada dia mais fortes. Na escola, não falava nada com os alunos, mas, em um caderno a parte, estava cheio de desenhos, de cálculos, de fórmulas matemáticas e físicas. Até parte de biologia estava escrito.
Conforme previsto, na manhã fria de sábado, Marcelo foi à casa de cada um dos amigos e os chamou. Um deles demorou, mas logo veio meio sonolento e disse que estava com dor de barriga. Imediatamente, Marcelo lhe trouxe umas folhas da planta denominada Marcella, que é ótima para dor de barriga. Ele descobriu isto lendo os livros de medicina caseira. Colocou ainda um pouco de limão e casca dele próprio. Falou que demoraria umas duas a três horas para sarar. Com os amigos já reunidos e Camila, meio desconfiada da reunião, eles foram para o fundo do quintal da casa. Arranjaram-se como puderam e Marcelo tirou de dentro de uma pasta um monte de papel. Deveria ter mais ou menos umas cinquenta folhas. Todas estavam desenhadas e com vários cálculos. Assim ele disse:
- Amigos. O homem foi à lua no mês passado. É fácil e durante as semanas anteriores, eu calculei e descobri a fórmula fantástica de podermos ir lá também. Não é difícil, mas temos que ter o trabalho de todo mundo aqui presente. Vocês são os meus melhores amigos e os escolhi para compartilhar comigo esta conquista. Vou precisar do trabalho de todos para construirmos a nave que nos levará até lá.
- Imagine sermos os primeiros brasileiros, ou melhor, as primeiras crianças a chegarem à lua?
- Isto não vai dar certo, retrucava a menina Camila.
- Vai, insistia Marcelo. Os meus cálculos não estão errados. Até a semana que vem a nave deverá estar pronta. Vou providenciar tudo e espero contar com ajuda de todos.
- O centro de treinamento será no quintal de minha casa. Lá é espaçoso e não tem ninguém para nos incomodar. Meu pai está para a roça e minha mãe mais fica na casa de minha avó, pois ela está doente e necessita de cuidados. Somente vai em casa para fazer o almoço para mim, lavar algumas roupas e para dormir. Tudo vai ficar tranquilo, eu lhes garanto.
No rosto de Marcelo resplandecia o gosto pela ideia. Imagine ele, dentro de si, com uma verdadeira conquista: serem eles os primeiros brasileiros a irem à lua, com todo o projeto dele, as fórmulas, os cálculos e todo aparato. Sorria feliz internamente e se mostrava feliz para com seus amigos.
Durante toda a semana, após as atividades escolares, eles se reuniam na casa de Marcelo e do quintal construíram uma engenhoca mais parecida como a do projeto Apolo. Duas semanas e na terceira semana já estava toda construída. Assim que estava pronta, Marcelo lembrou de que maneira ela sairia do chão. Não tinha combustível suficiente, mas a brilhante ideia passou-lhe pela mente:
- Segundo as leis da física, terei que ter um empuxo muito grande, pois a gravidade não me deixa ir. Já tive a ideia, de acordo com o projeto.
- Deste lado, colocarei cinco litros de gasolina e do outro lado, pelo menos uns dois quilos de pólvora. Quando entrarem em combustão, eles me darão a aceleração suficiente para sair do chão. As placas lá em cima, após a cabine, terão um conceito melhor, pois elas serão alimentadas pela luz solar e me darão energia suficiente para carregar as duas baterias. Terei, pois, energia e aceleração para sair.
Chegando perto dos amigos, logo explicou todos os detalhes. Cada um compra uma grande quantidade de bombinhas e tiraremos as pólvoras até que deem dois quilos. Pedirei dinheiro emprestado para minha avó e comprarei a gasolina. Vou pedir para o Paulo, que é de maior, para comprá-la no posto, pois para criança eles não vendem.
Tudo isto foi planejado e executado. Eles carregaram o compartimento de pólvora, arrumaram o tanque do combustível. Pelo projeto de Marcelo, estava tudo certo e marcaram a data do lançamento. Foram atrás do fotógrafo da cidade e pediram para ele fotografar. Os pais iam pagá-lo, pois seria uma aventura esperada por todos. Queriam que a televisão viesse, mas eles não tinham dinheiro para a vinda dela.
Marcaram o grande dia. Os colegas da escola vieram todos, mas sem os pais. O fotógrafo não veio, pois achou que era brincadeira das crianças e não deu atenção devida ao fato.
Assim que a mãe de Marcelo foi para a casa da mãe dela, Marcelo chamou os amigos para o lançamento.
Camila chorou de emoção ao ver a obra pronta. Não quis ir, mas ficou prestando muita atenção.
Marcelo colocou uma roupa nova. Pegou o chapéu do pai e arrumou outros chapéus para os dois colegas. Todos estavam alegres. Foram aplaudidos pelos colegas. Sendo Marcelo um bom orador, ele subiu em uma cadeira e fez um discurso, que se resumiu no seguinte:
- Meus amigos. Hoje é um dia muito especial. Nós, eu, Marcos e Paulinho, seremos os primeiros brasileiros a pisar na lua. Vamos mais rápidos que os astronautas da Apolo. Vamos chegar lá, buscar pedras e terra. Seremos vistos pela história como os brasileiros, ou seja, como as crianças brasileiras de alto nível intelectual a pisarem na lua. Seremos heróis.
Todos foram aplaudidos. Muitas palmas chamaram a atenção de um médico que morava nos fundos da casa de Marcelo. Ficou ele na janela ouvindo o barulho das crianças e pensava que era festa de final de ano.
Com honras, Marcelo, Marcos e Paulinho subiram nas escadas e sentaram-se. Pediu que Felipe acendesse o pavio e pediu para que os outros se afastassem. O momento foi de muita emoção, pois três crianças brasileiras seriam as primeiras a pousarem na lua. Seriam recebidas pelo presidente da república, pelos jornalistas, pela televisão e o mundo todo estaria nos pés.
Marcelo, sentado no lugar, disse:
- Contagem regressiva.
Todos os que estavam ali presentes disseram:
- Dez, nove, oito, sete ...
Quando chegou no zero, Felipe, com uma grande tocha nas mãos, acendeu o pavio. Não deu outra. Foi um verdadeiro estrondo e saíram todos pelos ares. Um caiu no pé de manga, o outro, dentro do chiqueiro, outro, ficou preso na árvore de manga. Uma grande lavareda cobriu tudo o que ali estava. As crianças correram e muitas choravam. O médico, que morava nos fundos, chamou outros que ali passaram e socorreram todos.
Os três, já no hospital, quando acordaram e viram o médico e os enfermeiros perto deles, disseram todos juntos:
- A lua tem vida. Fomos raptados e estamos refém deles.
Tomaram todos uma grande surra e, hoje, ficaram assim definidos: Marcos foi ser engenheiro agrônomo e mais tarde possuía quatro fazendas; Paulinho foi para uma companhia aérea e hoje voa para o exterior; Marcos foi ser jornalista e hoje cobre todas as missões da NASA.

Local de Nascimento: Bom Sucesso MG

Debaixo da árvore

Naquele lindo lugar,
Debaixo da árvore, no luar.
Vi a sua pessoa
Mesmo estando na vida atoa.

Os lábios diziam alguma palavra
Como ouro, na lavra.
O olhar era fito
Ainda na era do mito.

Aproximando-se, com aperto de mão
Sacudiu por dentro o coração.
As palavras eram suaves e leves
Iguais a plumas de neves.

O balanço do corpo ardente
Virava nuvem no olhar poente.
Estremecia o batimento do coração
Cantada na mais linda canção.

Um balançar da cabeça, um oi
Sumindo na luz fria que se foi
Não mais vejo o rosto ardente
Que por um momento, me deixou contente.

Formação Acadêmica: Ensino superior

Inverno

Quando o ipê roxo floresce
Abrindo suas lindas flores.
Abelhas serenam sobre elas
Voando e trombando entre si.
Um descuidado beija-flor
Abre as asas no galho superior.
Não se importa com quem o vê.
Bate suas lindas e frágeis asas.
Uma mosca voa rapidamente,
Sendo perseguida por um pequeno pássaro.
Esconde entre as lindas flores roxas.
O vento sopra suavemente
Fazendo com que algumas flores menos novas
Despencarem do alto da copa.
Vão na direção do chão frio
Transformando-se em um vasto tapete roxo.
O caboclo olha para cima
Lembra que o inverno está próximo.
É hora do agasalho, é hora de se recolher.

Local onde vive: Bom Sucesso MG

João Medroso

Era madrugada fria. O vento soprava forte vindo do lado nordeste da cidade. As luzes estavam cintilando, pois apresentava a anomalia do sopro do vento. Fazia muito frio e o único jeito era andar bem agasalhado.
João Medroso, apelido dado a um trabalhador na zona rural, que todos os dias saia cedo de sua residência até o local de trabalho, fazia o percurso todos os dias. Tinha chuva, tinha sol, tinha barro, tinha poeira, com festa, sem festa, com luto, com carnaval, enfim, todos os dias ele se levantava cedo. Não gostava de botinas e nem sapatos. Sempre tinha preferência por chinelas. Segundo ele dizia, elas são muito confortáveis e os pés ficam mais soltos e recebem diretamente o frescor da natureza. Porém, ele possuía um grande defeito: Era medroso e até da sombra ele tinha medo. Assim, o apelidaram por João Medroso.
Quando saia para o trabalho, ele não estava só. Pedia a companhia da esposa ou do filho mais velho, que era motorista da empresa de ônibus que ligava a cidade à capital do estado. Afinal, era o filho quem o fazia companhia até à fazenda. A distância era uns três quilômetros.
Neste dia, porém foi um pequeno inferno para João. O filho não pode ir consigo, pois estava cobrindo viagem de outro motorista fora do estado. A esposa estava muito resfriada e não quis sair para acompanhá-lo. O filho pequeno não quis ir e disse que tinha medo igual ao pai. O sogro estava com a perna enfaixada devido a um tombo no último dia e a sogra, coitada, tinha mais medo do que João.
Pegou o farnel e o colocou no ombro. Abriu a porta da sala e saiu. Os olhos fitavam o portão que dava acesso à rua. Ventava muito e os galhos das plantas tombavam até os pés. O faro lhe soprava no rosto ao ponto de tirar-lhe o chapéu da cabeça, mas ele foi mais esperto e o segurou com a mão. Abriu o portão, com um passo mais largo saiu e seguidamente o fechou. Não tinha chave naquele momento, mas uma pequena cordinha foi a ferramenta para segurar o portão. Deu uma pequena paradinha e pensou consigo:
- É hoje. Não tem ninguém de companhia hoje. Se não fosse aquela vaca que pariu ontem, eu não iria.
- Iria, sim, mas depois do nascer do sol. Se eu não for, o patrão me xinga e eu não gosto de ser xingado.
Fez um pouco de hora no momento. O vento estava ficando mais forte e o frio lhe subia até o rosto. Segurou o chapéu com mão esquerda, pois a pressão atmosférica estava contra o caminhar.
Em um determinado momento, suspirou e pensou ser aquela madrugada a mais arrepiante e temida por ele. Não tinha nenhuma pessoa para lhe fazer companhia. Pensou em passar à casa do patrão e pedir-lhe que o acompanhasse, mas logo se lembrou que o patrão estava dormindo na fazenda e não tinha ninguém.
Dobrou a primeira esquina e logo deu de cara com um gato preto, que pulando à frente, fez com que ele desse um grito e se arrepiando todo. O cabelo se espetou e um grande calafrio lhe percorreu pelo corpo.
- Meu Deus, o que é isto? Correu para o outro lado da calçada.
Caminhando a passos largos, ouvia-se o barulhinho da chinela batendo-lhe no calcanhar. Era fraco, mas aquele: Toc, toc ...
Virou na primeira esquina e logo se deu com movimentação de um grupo de pessoas da segunda casa. Era um velório que se realizava na casa. O corpo arrepiou mais ainda e uma voz lhe chamava:
- João, você não vem ao velório do Mário, o seu compadre, que faleceu ontem à noite.
João não olhou para trás e caminhou mais rápido ainda. Ouviu alguém dizer que ele tinha medo de velório e não era para chamar. Ficaria impressionado e poderia ter um ataque de histeria e não daria certo.
Quase levou outro susto, mas deu de cara com o padeiro montado em uma bicicleta. O susto foi grande que o padeiro caiu, mas não estava com o balaio cheio de pão.
Pediu desculpas e prosseguiu o caminho. Não olhou para trás, nem mesmo quis conversar com o padeiro que lhe gritava para informar se ele havia machucado. Prosseguiu andando mais rápido.
O vento lhe soprava mais forte e parecia uma carícia de uma jovem fazendo-lhe bafejo na face. Pensava ser uma alma desconsolada de amor que nas noites, ou melhor, nas madrugadas saia à procura de alguém para deliciar os desejos.
- Sai de mim, coisa horrorosa! Dizia sério e nem mesmo prestava atenção no cântico dos pássaros e no despertar dos galos na madrugada.
Aos poucos a cidade ia ficando para trás. As luzes iam sendo cobertas pelo breu noturno. Não se via nada. Nem a luz da lua que se escondia por trás das nuvens. As vozes dos galos se emudeciam. Escutava-se a ode dos grilos e ao longe os sapos. O tóc tóc da chilena era ouvido com intensidade, pois João andava muito depressa.
- Ainda bem que estou quase chegando à fazenda.
- Só resta-me descer esta estrada cheia de cascalho e virar à direita. Mais uns seiscentos metros já enxergarei as luzes da fazenda. É só entrar, tirar o leite e começar cedo o trabalho.
À medida que João descia sobre o cascalho, algumas pedras pequeninas batiam-lhe nas pernas. Por mais rápido que ele andava, a chinela pegava mais pedras e atiravam-lhe por mais força, fazendo com que ele aumentasse o passo. A cada passada, mais pedras de tamanho maior eram-lhe atiradas até suas costas.
- Meu Deus, meu Deus!
- Socorro! Agora estão me atirando pedras. É o fantasma da roça.
- Socorro! Alguém me ajude, por favor!
João correu tanto e se desequilibrou, vindo ao chão cair. Feriu-se todo. O rosto, os braços, as pernas, os dedos do pé e quase lhe custou um braço quebrado. Foi socorrido pelo patrão que ouviu os gritos e achou que alguém estava morrendo.
João ficou pelo menos dois dias internado no hospital e mais quinze dias em casa. Quando retornou ao trabalho, pediu para o patrão trocar o horário e comprar uma bicicleta para ele.

Bacharel em Ciências Contábeis, escritor e poeta. Membro da Academia Lavrense de Lavras - ALL.

Menina bailarina

Baila, baila, menina.
Em teus sonhos, ser bailarina.
Um passo para a esquerda
Com cuidado, chora a perda.

Sobre a ponta dos pés
Um, dois, três, passos ao viés.
Corre para a direita
Como se fosse em rua estreita.

As mãos balançam constante
De acordo com a música alucinante.
Em gestos típicos e singelos
Geometricamente, em paralelos.

Em teu sonho de bailar
Viajas no tempo a dilatar.
Pensas ser gente grande e talentosa
Dançando a música amorosa.

Lembrarás neste momento primário
As roupas no armário.
Serás a rainha dançarina,
Serás a eterna bailarina.

EMAIL: josecarlos.bomsucesso@yahoo.com.br

Quero morrer

Qual o motivo para dizer a frase acima. João Bosco, um empresário de sucesso, nas horas vagas presta serviços comunitários para a sociedade, da cidade onde mora.
Já cansado e com os nervos à flor da pele, foi ao médico e este lhe receitou uma grande quantidade de remédios. Não lhe adiantando nada. A cada dia mais nervoso e mais preocupado com tudo.
Na manhã de domingo, após ter discutido com a esposa e os filhos, já alvoraçado com o nervosismo, ele pegou a camioneta e saiu para dar algumas voltas pela cidade. Não estava satisfeito e resolveu sair pela estrada de chão indo parar em várias fazendas e, já cansado, parou próximo a uma árvore. Sentando debaixo dela e ouvindo um casal de canários que ali habitava e estava em sintonia com os cânticos, disse em voz muito alta:
- Que vida amargurada. Não aguento tanta pressão em minha vida. Brigo com a esposa todos os dias, xingo os filhos, vou ao boteco e bebo todas. Saio carregado. Os meus negócios estão bem em um dia, estão mal no outro. É cobrança para todos os lados. Hoje, eu preciso dar um jeito em minha vida.
Olhando para os lados, viu alguns urubus que sobrevoavam o local. Voavam em círculos e pareciam que diziam no seu ouvido:
- Está na hora do jantar. Vamos jantar carne fresca, de cara enraivado com a vida.
Olhou para baixo e viu ser picado por umas formigas, onde ele se sentava.
- Que maldição, que vida. Retrucava em voz mais alta ainda.
Não se conformando, levantou-se e foi urinar próximo ao formigueiro. Pensou que o xixi faria uma revanche às formigas que o picaram. Ao voltar, quase pisou em um rolo de cascavel que não o picou porque o som do chocalho o alertou e ele deu um pulo para trás.
- Maldição! Exclamou com mais raiva. Não aguento mais.
Olhou para cima da árvore e viu um galho. Não pensou duas vezes, exclamando rapidamente:
- Agora sim. Estou pronto para dar um basta na vida, tão ordinária, tão ruim. Nem mesmo sei se eu existo ou se estou aqui de passagem...
Foi até o carro e pegou uma grande corda. Estava disposto a dar um basta na vida. Jogou a corda no galho, deu vários nós e fez um laço para executar o plano.
Pensou que ali, as pessoas o encontrariam e os pecados seriam todos perdoados.
Fez o laço, pôs no pescoço e pulou. A surpresa foi toda que o laço desatou e ele caiu ao chão.
Mais furioso ainda, fez novamente o laço e abrolhou mais uma vez. A surpresa foi tanta, que o laço novamente desatou. Ficou surpreso com o acontecido e refletiu o motivo de não ter executado a ação.
Pensou que seria a última vez, pois apertou o nó com mais força e ao colocar a corda novamente no pescoço, sentiu que algo lhe tocava levemente os ombros. Era um toque genial, meigo, de leve, que o chamou pelo nome:
- João Bosco, João Bosco...
- Por que fazes isto?
Ele olhou rapidamente e viu a figura de uma mulher muito bonita. Com cabelos loiros cacheados, olhos verdes, uma boca tão linda que ao falar lhe trazia uma paz e um carinho todo especial.
- Por favor, não faças isto. É uma loucura tirares a vida que o Pai Todo Poderoso te deu.
- Vamos, tires esta corda do pescoço e pares para pensar.
- Tu tens tudo na vida. Tens esposa que te ama, tens filhos que te querem muito. Tens bens e dinheiro à vontade. Portas tudo o que quiseres. Por favor, tires isto do pescoço, porque os urubus acima de ti querem o jantar. Não jantam há vinte dias. Podes ser o alimento para eles. Tires, por favor.
- Que nada, que nada. Eu não tiro isto por nada.
Eu nem sei quem és e o que fazes aqui. Vás embora e não me enchas o saco.
- Antes de eu ir, vou dizer-te:
- Se não tirares isto do pescoço, vás morrer. Os urubus te jantarão. Imagines a fortuna que tens?
- A esposa receberás a pensão e a metade dos bens. Ela é jovem e bonita. Rapidinho terá uma nova companhia, vivendo ao lado dela com muita felicidade e desfrutando de tua conta bancária.
- Os filhos venderão tudo o que tens. Comprarão propriedades, carros luxuosos, casarão, irão viajar para o exterior e dirão que foste o melhor pai do mundo.
- Os bens serão vendidos e irás para o fundo do poço. Lá terás a companhia dos covardes, dos mentirosos, dos adeptos das maldades.
- Não, jamais tiro isto do pescoço. Estou cansado de viver. Não aceito conselhos de ninguém. Nem mesmo de minha mulher e de meus filhos. Estou combalido com tudo. Não tenho sossego nem mesmo de querer ir para uma melhor. Deve ser muito bonito. Tantas mulheres bonitas e tantos lugares bonitos. Eu vou aproveitar.
- Não tens razão. Estás completamente equivocado com a vida. Por favor, tires a corda e vivas uma nova experiência, pois viver é a melhor função da vida.
- Não tiro não. Estou decidido.
Então o ente com quem conversava disse pela última vez:
- Tires, mais uma vez e sentirás que a vida mudará para ti. Portanto, tu não fales que não avisei.
Como um vento, o ente sumiu daquele lugar.
João Bosco, portanto, começou a refletir:
- Se eu morrer, vou perder tudo. O dinheiro, os bens, a família. Vai ter “Ricardão” na minha casa.
Parou e pensou. A vida não vale nada. Não quero isto. Vou embora e não mais farei isto.
Ficou por mais uma meia hora pensando e ouviu, novamente, a voz que lhe dizia:
- Tires isto do pescoço.
Sorrindo, disse para a voz:
- Não caio noutra. Tchau.
O tempo foi passando e João Bosco olhou de repente e viu pelo menos uns dez bois furiosos vindo a seu encontro. Não deu outra. Saiu correndo. O impacto foi tanto que desta vez a corda não soltou. Ficou dependurado e os bois o fazendo de pingue pongue.
Ele, portanto, não ouviu o que a voz lhe dizia:
- Tires isto do pescoço...

Livros publicados:
Mistérios: lendas e contos de Bom Sucesso Uma palavra Segundo Poema Lembranças Contos e contos do além Psiu - contos e poesia.

Site/Blog:
Por enquanto, meus textos estão sendo divulgados apenas pelo Site do Escritor.

Somos poucos

Somos muitos,
Mas poucos.
Conhecemos a história
Dos líderes, dos mártires e dos poetas.
Castro Alves em lindos versos,
Chama atenção à liberdade
De expressar a eterna saudade.
Drummond não mais voltará à Itabira,
A Vale comprou tudo.
Noel Rosa sempre olhando a Estrela Dalva
Despontando a cada noite no céu,
Traz a magia dos bons tempos do carnaval.
Encantamos casais,
Não somos encantados.
Publicamos livros para poucos,
Pois os meios de comunicação não nos conhecem.
A mídia é para poucos
Que descarregam dinheiro em propagandas
Nos jornais, nas revistas.
O pobre poeta solitário
Encanta a lua com os versos,
Pobre em palavras, porém ricos em sabedoria.
Somos o mundo que se curva aos pés
Do cronista que fala do dia a dia,
Do compositor, em sua nova canção.
Somos fracos diante dos opressores,
Que possuem fortunas.
Somos também fortes sobre eles,
Pois temos a arte de juntar as palavras,
De fazer alguém feliz.
Ver o marido dizer um dos versos,
Que horas ficaram presos entre as palavras.
Somos fortes ao ver e receber críticas
De quem não conhece,
De quem nos prestigia.
Somos abençoados por Deus
Em dizer o amor em versos,
Em falar da natureza em prosa,
De fazer uma criança sorrir, com um conto.
De estremecer de medo o morador perto do cemitério.
Somos muitos, somos poucos prestigiados,
Somos o princípio da luz
Vinda do sol, da lua, da galáxia.
Somos a vida a cada fio
De lembrança, de memória.
Um dia seremos eternizados,
Com uma simples manchete de jornal:
Somos.

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