Quando eu morrer, não deixarei o meu pobre nome ligado a nenhum livro, ninguém citará um verso nem frase que saísse do cérebro; mas com certeza hão de dizer: "Ele amava o teatro", e este epitáfio moral é bastante, creiam, para a minha a minha bem-aventurança eterna. (Artur Azevedo, in: "O Theatro", jornal A Notícia, 22/09/1898.
Um teatro de "ligeirezas", de observação dos costumes, voltado para o popular e o cômico. Dessa forma poderíamos, também de forma apressada, resumir a dramaturgia de Artur Azevedo. É curioso notar em sua escrita uma atenção cuidadosa com relação ao ator e ao público, sobretudo do ponto de vista da qualidade profissional do espetáculo. Há uma especificidade cênica proposta pelo autor, que parece dialogar diretamente com a sua avaliação da platéia teatral potencial no Brasil oitocentista e do início do novo século. O que já se evidencia num comentário como este: "…o nosso público, que no teatro gosta, e razão tem ele, das situações claras que não o obriguem a uma grande ginástica de raciocínio". Mas a "preguiça mental" do público é compensada pela escrita ágil do comediógrafo, que não poupa esforços para chegar até ele. Ou, como diz um de seus personagens, em A Casa de Orates: "E depois quem sabe? Quem sabe? De onde não se espera... talvez esteja destinado a dar-me muitos netinhos".
Vida e Obra
Quem quiser estudar o pensamento estético de Artur Azevedo terá de percorrer, além de poucos prefácios analíticos seus a algumas de suas peças e a algumas de suas adaptações livres de peças francesas – milhares de artigos seus sobre teatro dispersos em revistas e jornais do final do século XIX e do início deste. Destacando-se a coluna O Theatro, no jornal A Notícia (set./1989- out./1908), além de crônicas em Diário do Rio de Janeiro, Gazeta da Tarde, Correio do Povo, Diário de Notícias, entre outros. Há também os volumes editados pelo INACEN, como "Teatro de Artur Azevedo", Obras Completas.
Nascido em São Luís do Maranhão, Artur Azevedo veio para o Rio movido pela paixão pelo teatro. Foi autor de 17 revistas de ano, escreveu uma centena de comédia de costumes, operetas, sainetes, intermezzos e cançonetas, ao lado também de inúmeros parceiros, entre eles o próprio irmão, Aluísio de Azevedo.
Em seus últimos 15 anos de vida, Artur Azevedo acelerou em suas crônicas a inexistência do teatro nacional. Acreditando no futuro do nosso teatro, ele insuflou sozinho, anos a fio, uma campanha em favor da construção de uma casa, que oferecesse a um grande público os melhores espetáculos, dignificando o país e o município do Rio de Janeiro, então capital federal. Em 1909, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi inaugurado, com Hino Nacional, e discurso de Olavo Bilac, um ano depois da morte de Artur Azevedo.
Artur Azevedo produziu como poucos na história do teatro brasileiro. Soube adaptar-se sempre aos temas e aos gêneros da hora, buscando afinar-se com os acontecimentos políticos que presenciara em sua vida, assim como as transformações dos costumes e da cultura brasileira. O grande cenário de sua dramaturgia é o Rio de Janeiro. O grande personagem é o carioca, principalmente a "média burguesia fluminense do fin-de-siècle". Ele que era maranhense, e talvez o mais carioca dos maranhenses, com seu espírito satírico, crítico agudo, observador atento aos tipos característicos de uma cultura ainda em processo de auto-reconhecimento de sua identidade. Podemos destacar algumas de suas peças, que mesmo no olhar direto para uma época, permanecem significativas e atuais, para a compreensão de uma possível identidade cultural, além de representar o domínio e a destreza da escrita teatral de um dos maiores autores da dramaturgia brasileira. Seriam: Amor por Anexins, O Tribofe, A Capital Federal, O Mambembe, Casa de Orates, Entre o Vermute e a Sopa, entre muitas outras.
A Dramaturgia Ligeira
A expressão "teatro ligeiro" tenta dar conta de uma vertente do teatro brasileiro que se caracteriza pelos gêneros da comicidade, que em geral adotam um ritmo bastante ágil na escrita, com entradas e saídas de personagens, falas curtas, entre outros recursos. É também utilizada de forma pejorativa, por alguns críticos, para atribuir a essas obras um caráter superficial, o que na verdade representa um olhar "ligeiro", no mesmo sentido de superficialidade.
Em geral, a dramaturgia de Artur Azevedo utiliza-se de personagens tipo. Os tipos seriam aqueles personagens de fácil identificação com o gosto popular, na medida em que apresentam características emblemáticas de uma estratificação social, seja no âmbito familiar ou social. Apresentam um comportamento repetitivo, além de uma fala que o caracteriza como tal, através da repetição de frases, como os bordões. Basta observamos os personagens da Commédia Dell'Arte, como Arlequim. Pertencem a uma longa tradição de teatro popular e cômico, que se origina já na Grécia Clássica, e sobretudo em autores como Aristófanes e Menandro, assim como na tradição do Teatro Romano, como Plauto. É sempre bom observar que sempre ocorrem variações de um elemento ou outro, no caso da apropriação de estruturas de dramaturgia, como os personagens tipo, no decorrer da história e na transposição entre tradições teatrais. A galeria de personagens tipo é extensa, e poderíamos destacar alguns deles: o empregado astuto, o enamorado, o avarento, o soldado fanfarrão, entre outros. Cada autor utiliza como bem quer a idéia de um tipo e a adapta de acordo com o enredo da peça.
É notável a potencialidade que o "gênero ligeiro" tem em incorporar a contemporaneidade e as "cores" do “popular”. As comédias musicais, as revistas de ano, o cômico em geral, para atingir o melhor de suas possibilidades, necessitam sempre de atualizações, funcionando como verdadeiras crônicas. O efeito espetacular é a razão de ser de toda a estrutura da peça. Que espetáculo de comédia pode ser bom se não produz o riso? Dessa forma podemos aqui apontar em que medida a escrita de Artur Azevedo se coloca como proposta de atuação para os atores e o encenador.
Trata-se de um teatro de performance. O texto, nesse caso, se constitui como uma engrenagem, de alguma maneira à espera da "mão" do ator. Como numa espécie de academia de ginástica espetacular, cujos instrumentos - as palavras - necessitam da interferência criativa do ator. E este jamais deve perder-se de seus "repertórios", mantendo-se "afiado", em função do jogo que se estabelece: a "confusão". O ator transita pelo palco como uma espécie de atleta teatral, sempre na perspectiva do efeito "gracioso", perseguindo os caminhos que levam ao riso.
Trabalhar com personagens tipo, ou característicos, demanda certa especialização por parte do ator: o virtuosismo e a aquisição de recursos espetaculares, o canto e o gesto preciso são cruciais para a "construção" do personagem. A cena se constitui à base de cálculos. Haveria diante do texto de Artur Azevedo a necessidade de um tipo de ator "matemático". Ao encenador caberia um olhar preciso, posto que o ritmo da ação deve ser vertiginoso. Especialização e apuro técnico: o tempo da cena, o tempo da comédia, pode escapar-lhe a qualquer momento.
As peças de Artur Azevedo foram sempre encenadas, e em geral obtiveram grande sucesso frente ao público, e até hoje podem encontrar.
Fabio Cordeiro é ator, diretor e assessor teórico.