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Greve dos caminhoneiros.

Em 21 de maio de 2018 teve início um dos movimentos mais surpreendentes e bem sucedidos de toda a história do Brasil. Foram dez dias que abalaram a economia e a compostura civilizada da sociedade. Pode-se dizer que foi a primeira greve realmente orquestrada através do uso dos aplicativos de relacionamento pela internet. Algumas antigas lideranças ditas sindicais foram inapelavelmente desmentidas ao tentarem negociar com o governo em nome dos grevistas. Acertos feitos com representantes de um governo também sem credibilidade e representatividade não surtiram nenhum efeito.
A população, enquanto consumidora e provedora, trouxe a tona o fino verniz de civilidade que há neste rico e pobre país. Rico pela abundância de recursos que apresenta para o consumo, pobre pela forma mesquinha que grande parte das pessoas se posicionam perante a vida, em particular, em relação ao convívio em sociedade. Deus para mim e o diabo para os outros, é um ditado antigo, mas ainda muito em voga, e situações extremas como essa é tudo o que pede um ser mesquinho e explorador.
Enquanto uma parcela dos comerciantes elevavam astronomicamente os preços dos produtos, consumidores trocavam socos e pontapés nas mais diversas filas para pagar muito caro por muito pouco, os caminhoneiros se entreolhavam diante de um sucesso inesperadamente intenso. A grande mídia tentou inicialmente imprimir o selo de marginalidade na conduta destes profissionais, assim como sempre fazem com quem decidem perseguir, mas o povo estava mais preocupado em roubar ou brigar, em saber quando o novo caminhão com combustível iria chegar.
O exército foi chamado e passou a escoltar caminhões com cargas estratégicas. Ao contrário do que muitos queriam e esperavam, não agiram com truculência, dando tiros ou dispersando concentrações na base da violência. Os mais diversos segmentos sociais tentaram pegar carona no movimento, clamando por direitos humanos, fim da corrupção ou intervenção militar no governo do país. Outros pediam a diminuição do preço da gasolina também, e outros, só queriam mesmo aparecer.
No final, houve a diminuição do preço do diesel, e a confecção de uma tabela mínima para os valores de frete, conforme os caminhoneiros exigiam. O Brasil flertou com a anarquia e caos. Demonstrou como a malha de distribuição de bens de consumo é frágil e dependente de um único meio de transporte. Mostrou, acima de tudo, o quanto estamos longe da utopia da cidadania.

Autor: Arnold Gonçalves


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