7 - Uma perspectiva de transformação:
Este quadro sumário mostra que o Brasil tem sido capaz expandir seu sistema educacional através do tempo, aumentando as oportunidades educacionais em todos os níveis, mas tem encontrado grandes dificuldades em melhorar sua qualidade, e, em tempos de recursos escassos como os atuais, de aumentar sua eficiência. O crescimento extensivo e desigual foi também a característica dominante da economia brasileira até o início da década de 80, quando os problemas de eficiência, qualidade e eqüidade assumiram o primeiro plano, e colocaram o país em uma depressão econômica ainda sem perspectivas de solução. Neste sentido, as dificuldades pelas quais passa a educação brasileira não são muito distintas das que afetam o país como um todo: a dificuldade em desenvolver a competência, a ineficiência no uso de recursos públicos, e a ausência de mecanismos efetivos para corrigir os problemas de iniqüidade econômica e social. A falta de uma população educada e competente é um freio para o crescimento econômico, e a limitação de recursos afeta a capacidade de resolver os problemas educacionais.
É necessário romper este círculo vicioso, e a análise dos dados mostra que, apesar das evidentes dificuldades financeiras, a educação brasileira ainda se debate com graves problemas no uso dos recursos disponíveis, de descontinuidade institucional e administrativa, e de falta de uma agenda razoavelmente consensual de transformação.
O primeiro ítem desta agenda é aparentemente simples: a educação depende de governos competentes e seriamente envolvidos com as questões educacionais. Independentemente dos problemas estruturais, sociológicos e pedagógicos que existem na educação brasileira, já haveria um grande avanço se os governos federal e estadual abandonassem o comportamento predatório em relação os recursos da educação. Os mecanismos que podem permitir esta transformação política são demasiado complexos para serem discutidos aqui, mas o fato é que já existe no Brasil uma safra de governantes estaduais seriamente envolvidos com a melhoria da educação em seus estados, e obtendo resultados satisfatórios. Além dos exemplos de Minas Gerais e São Paulo, vários outros estados, entre os quais alguns dos mais pobres, como Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, vêm apresentando resultados extremamente significativos na melhoria da competência administrativa, com impacto importante na educação, como mostra o quadro 13.
Os demais ítens desta agenda podem ser vistos nas propostas contidas no documento CEPAL/UNESCO sobre a educação na América Latina, que reune o consenso existente entre os especialistas a respeito dos caminhos necessários para superar os problemas educacionais na região(40). Resumindo de forma extrema, o documento CEPAL/UNESCO propõe, como objetivos estratégicos da reforma educacional, o desenvolvimento da cidadania e o aumento da competitividade econômica dos países; para isto, duas linhas de política governamental devem ser desenvolvidas de forma simultânea: uma voltada para e eqüidade, e outra para o desempenho dos sitemas educacionais.
Duas linhas de reforma institucional são consideradas indisensáveis, a descentralização radical dos sistemas educativos, levada ao nível dos estabelecimentos educacionais, e o fortalecimento do papel de integração e coordenação dos governos centrais e regionais. Estas noções estão também presentes nos projetos que o Banco Mundial vem desenvolvendo em colaboração com treze estados brasileiros, com ênfase especial na região Nordeste.
Em termos de educação básica, a experiência brasileira mostra que existem avanços importantes no caminho da descentralização, mas ainda muito pouco no que se refere às atividades de coordenação e integração dos governos estaduais e federal. Estas atividades devem desempenhar duas funções essenciais: a correção das iniquidades sociais, pela redistribuição de recursos e apoio técnico e financeiro a comunidades ainda incapazes de gerir seus sistemas educacionais de forma adequada; e o estabelecimento de padrões de desempenho, a partir de mecanismos permanentes de avaliação e acompanhamento de resultados. Até o presente, o governo federal tem insistido em executar diretamente atividades no nível da educação básica e técnica, sem desenvolver de forma adequada sua competência na área de avaliação de resultados e aperfeiçoamento de conteúdos. Quanto aos critérios de repasse dos recursos do salário-educação, apesar de iniciativas recentes, eles continuam longe de serem transparentes. Não existem ainda, nem a nível federal, nem a nível dos estados, sistemas gerenciais que disponham de indicadores adequados de desempenho que possam balizar estas múltiplas atividades. Os resultados extremamente preocupantes das pesquisas sobre a qualidade da educação básica parecem ter começado a sensibilizar as autoridades educacionais e os setores empresariais, embora não ainda a ponto de produzir resultados significativos.
Finalmente, há que se considerar a questão fundamental da integração entre os governos estaduais e municipais, que são os efetivamente responsáveis pela educação básica. Apesar da desejabilidade de uma descentralização maior, os municípios são muito heterogêneos quanto à sua capacidade de efetivamente administrar seus sistemas de ensino, o que torna crucial o papel dos governos estaduais. Além disto, seria necessário que os municípios fossem efetivamente responsabilizados pela universalização do acesso, ao contrário do que ocorre hoje, quando assumem em geral uma função meramente complementar à dos governos estaduais.
Existe uma última tarefa importante para os governos estaduais e federal, que é o de fortalecer a competência do país na análise e entendimento das questões educacionais. Passada a fase inicial de expansão quantitativa, os problemas do ensino se tornam cada vez mais complexos, exigindo competências pedagógicas, gerenciais e econômico-financeiras que são escassas, e que precisam ser desenvolvidas e implantadas em suas universidades e centros de pesquisa. Uma parte importante deste trabalho de aumento de competência consiste em tomar conhecimento das experiências de outros países, e entender em que medida elas permitem balizar os caminhos do futuro. Neste aspecto, iniciativas de cooperação internacional, como a do InterAmerican Dialogue, podem dar uma contribuição inestimável.
Já existe hoje um forte consenso entre os especialistas e em parcela importante da elite política e econômica sobre a importância estratégica da educação como elemento fundamental para a modernização industrial, e, conseqüentemente, para sua participação plena no mundo do século XXI(41). Existe também um consenso razoável a respeito dos caminhos pelos quais a educação pode ser melhorada e tornada mais equitativa e produtiva. O que falta, sobretudo, é que este consenso adquira maior amplitude, e que se construam instrumentos eficazes para a realização desses objetivos, de modo a fundamentar ações governamentais cada vez mais decididas e bem direcionadas, com a prioridade que educação exige. Aqui também, o papel de instituições formadoras de opinião pública, como o Inter American Dialogue, pode ser muito importante.
Fonte:
www.schwartzman.org.br
|
|
Artigo anterior
|
|
Próximo artigo
|
|