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Matrix, no Mar do Xaraés

Contos, mitos e lendas podem expressar verdades profundas sobre o ser humano e sobre a dinâmica dos grupos e das sociedades. Quando isso se dá, testemunhamos o fascínio que tais criações de nosso imaginário exercem duradouramente sobre nós. Há mitos eternos e presentes em culturas diversas, com o mesmo dom de encantar. Nos dias de hoje nos deparamos com o Mito de Matrix, expresso através do cinema, com todos os fascinantes recursos da modernidade. Não sei se todos perceberam uma das verdades universais de que ele trata, quando dramatiza um confronto mortal entre a humanidade e o mundo virtual, embate esse que seria o tema central do filme. Criado pelo homem, o mundo virtual, a criatura, ganha vida própria e autonomia. Logo após empenha-se em aniquilar e dominar a humanidade. Uma das mais antigas versões desse mito é aquela segundo a qual Deus criou os Anjos, alguns deles se rebelaram e se tornaram Demônios, os eternos inimigos de seu divino Criador, a disputar incessantemente a posse sobre a alma humana.

Filosoficamente, o “mito-matrix” é expresso pelo pensamento de Marx, quando ele afirma que “criamos as ferramentas e elas nos recriam”! Querem ver? Criamos a moeda como instrumento de troca e a vemos fascinar e escravizar a tantos! Numa sociedade primitiva vimos, num passado não muito remoto, índios cavaleiros ( Guaicurus) que, após domesticarem milhares de cavalos, adaptaram seus sentimentos e emoções ao nomadismo facilitado pelo abundante meio de locomoção. Para tanto, eliminavam os próprios filhos pequenos, enquanto estorvos nas suas andanças cavaleiras e capturavam crianças de outras tribos, já de 10, 12 anos, que adotavam. Como vemos, a criatura formatando o seu criador e nele recriando os próprios sentimentos humanos!

No universo jurídico e normativo, vemos “matrix” fazer a festa! Criam-se normas, leis e manuais para canalizar ou inibir ações para atingir objetivos desejados e, quando se vê a norma produzir efeitos deletérios, uma endemoniada dinâmica burocrática a mantém viva. Leis ambientais que definem modalidades de Unidades de Conservação, que seriam modelos de organização legal e territorial para conservar e preservar a biodiversidade, se tornaram propiciadoras de riscos ambientais e impeditivas da busca de práticas conservacionistas adaptadas à realidade da Planície Pantaneira. Constituída de grandes áreas empastadas e sendo a região campeã de incidência de raios, os animais pastadores, os rebanhos de gado, se constituem num fator essencial no controle de biomassa produzida que, na estiagem, se transforma em grandes depósitos de combustível sólido, a céu aberto! O fracasso normativo se dá porque a Lei não prevê uma unidade de conservação com gado e acordos internacionais nos pressionam para a criação de Reservas fadadas a se tornarem fatídicos fachos de fogo que, promovendo incêndios, nos transformam em meliantes ambientais expostos à multas e execração pública.

Nosso MS tem um terço de seu território constituído de um grande parque natural, o Pantanal, e somos constantemente insultados com a afirmação sectária de que temos poucas unidades e áreas de conservação! Nesses termos, a criatura normativa passa a ser objeto de uma estranha idolatria, quando a factual conservação da biodiversidade nas áreas de criação de gado é negada, enquanto fatídicos e incendiários modelos são exigidos por atores cujas concepções ambientais são ideológicas, ou seja, pouco importa a realidade, vale o que esses senhores tem no plano das idéias. Voltando ainda a Marx: “Tudo se relaciona”e tais condutas, para serem bem compreendidas, tem de ser avaliadas respondendo-se a que interesses geo-políticos servem grandes vazios geográficos em nosso interior, quem se promove com os incêndios, muitas vezes ganhando dinheiro e verbas graças a eles, e a quem interessa veicular a noção de que o brasileiro seja um relapso com seu Meio Ambiente, ou que os países pobres é que seriam responsáveis pelo aumento da temperatura global da Terra.

Estes são questionamentos necessários, neste início de milênio quando, frequentemente, se perde a visão do que sejam os meios e os fins, ocorrendo então uma inversão de valores, pois a idolatria da norma passa a justificá-la por si mesma, definindo o triunfo da criatura sobre seu criador.

Valfrido M. Chaves Pantaneiro, psicanalista- 2003