página anterior

A volta de Tarzan

Os adolescentes de minha geração (hoje somos sessentões), tiveram sua imaginação povoada e estimulada pelas criações do escritor Edgar R. B. que, com elas, nos levava para a inóspita África onde, fascinados, seguíamos o fantástico gigante branco, Tarzan. Filho de nobres ingleses, criado por gorilas, Tarzan tornou-se um defensor de causas nobres nas planícies e florestas africanas. Sua inteligência, bravura e generosidade levavam-no a infindáveis aventuras em defesa do bem, dos oprimidos e da fauna africana. Libertava, colocando em risco a própria vida, os animais capturados para que fins fossem.

Tarzan teria sido, então, um louvável precursor das preocupações e ações vocacionadas para a proteção da Natureza, quando agredida pela humana vilania. Fruto de uma época, nosso herói tinha laivos colonialistas e suas ações expressavam um papel na dominação e liderança sobre as populações nativas, por parte do colonizador branco que, a seu bel prazer, usou e abusou dos recursos naturais e humanos do continente africano. Noutros termos: nunca respeitou a biodiversidade e a diversidade cultural, onde quer que tenha estabelecido com o “pacto colonial”.

Hoje sabemos que nosso herói, enquanto mito, cumpria um papel em nosso imaginário coletivo: sugerir que as Nações colonizadoras desempenhavam uma ação civilizadora naquele malfadado continente. Tarzan seria o modelo, o herói mítico que representava e justificava a presença “civilizadora” e hegemônica do homem branco na África, junto a uma população nativa, incapaz e ingênua.

Dando um salto do Continente Africano para o Brasil, verificamos aqui a presença de inúmeras organizações mantidas pelas Nações Hegemônicas atuais, muito bem intencionadas e vocacionadas para uma genérica “proteção do meio ambiente”: fauna, águas e flora. Parecem uma reedição do Tarzan dos bons tempos: heróicos, bem intencionados, abnegados. Muito bem financiados, casualmente, a partir das mesmas economias que controlam o mercado financeiro que nos define como “país de risco”, nos impondo juros escorchantes e um modelo econômico que engessa nossa economia por duas décadas. Casualmente, ainda, todas empenham-se em nos convencer de que somos nós, países pobres, os responsáveis pelo aquecimento gobal que ameaçaria a Terra.

Tais “ONGs-Tarzan” atuam de modo coerente com aquele finalismo engessante e espoliador de nossa economia rural e, obviamente, dos nossos recursos naturais mal remunerados. São preservacionistas, preocupadíssimos com nossas araras, florestas e cerradas. O discurso destes senhores gira em torno de três ou quatro palavras: ameaça, extinção, biodiversidade, devastação e preservação. O árduo trabalho do homem do campo preparando uma terra para receber a semente e que esse homem chama de “beneficiar a terra”, é denominada por tais senhores de “impactação da natureza, ou do cerrado”... O conceito de “unidade de conservação” e “preservação” prevalece sobre o de “manejo” e desenvolvimento. Têm eles ainda grande habilidade em produzir ventríloquos nativos, também mestres na impactação da autoestima de quem produz para viver e vive para produzir.

O Pantanal é um corredor ecológico de 140.000 Km2, sendo o maior parque natural do mundo, numa área economicamente ativa, ganhos onde o povo pantaneiro teve e tem um papel crucial. Desafio alguém desmentir esta afirmação. Afirmo que o tabu que se faz dessa realidade sócio ambiental é ideológico, programático e estratégico, dentro de uma visão geopolítica imperial, cujas raízes até o “biguá pantaneiro” sabe onde estão. Trata-se de um competente marketing que tem como objetivo a cristalização da noção de que o brasileiro seja um meliante ambiental ou, no mínimo um nativo incompetente, incapaz de ser o ator principal na definição de seu futuro e no destino de seu entorno. Daí, não se poder reconhecer ou divulgar nossas conquistas e avanços na nossa relação “homem e meio ambiente” e, tampouco, validar a presença das culturas locais nas discussões que lhes digam respeito. Isso define a pedagogia da submissão para a prática da dominação, compondo uma dinâmica perversa, cujas raízes estão em nosso passado colonial. Portanto, a dominação e a submissão transcendem o econômico e estão estabelecidas na alma de alguns que parecem dar razão a Nelson Rodrigues, quando este dizia: "O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na sua própria sombra". Aliados à “pedagogia-Tarzan”, há uma tropa eco-talibã esquerdista que faz coro à satanização de nosso produtor rural, por entender que essa é uma maneira eficaz de promover a “luta de classe”. É um belo casamento...

Valfrido M. Chaves