O ENDEREÇO DE QUEM GOSTA DE LER E ESCREVER


V O L T A R

APRESENTAÇÃO

         Autor x Obra - Tomando por base a experiência que tive com a publicação de meus livros anteriores, posso dizer que muitos leitores entendem a poesia como sendo resultado das impressões e sentimentos pessoais do escritor quanto ao assunto tratado. Chegam a acreditar que tudo é verídico, desde os lugares até as personagens expressas no poema. Gostaria de deixar claro que o poeta é como um fotógrafo ao clicar sua câmara: tenta retratar a vida, o mundo, e principalmente a existência humana através de seus instrumentos, no caso os sentidos, a razão e a escrita. Sendo assim, não há necessariamente vínculo entre o que diz a poesia e o que pensa o poeta. Ele pode dizer o que não pensa, dizer o que pensa que os outros pensam, dizer o que gostaria de pensar, o que não gostaria de pensar, e assim por diante, em infinitas possibilidades. Por isso, peço ao leitor desvincular autor e obra, não apenas a minha, mas a de qualquer outro escritor a que venha ter acesso.

         Objetivo da Obra - Envolvido pelo clima de final de milênio, também resolvi registrar o momento. Como as câmaras de vídeo e fotografia não podem reter mais que o plano físico da cena, apelei para a poesia, a fim de capturar para sempre as verdades e mentiras que estarão por trás desses filmes e fotos que nossos descendentes irão ver quando quiserem saber como era o século vinte, mais particularmente durante a virada de século e milênio. Sei que é ambicioso querer retratar a essência das coisas, principalmente por ser quase impossível precisar como ela é e quais os seus limites, por isso muitas poesias darão a impressão de inacabadas. Para meus contemporâneos tenho a expectativa de que essas fotos em forma de poesia possam trazer à tona movas formas de visualização do mundo, motivando-os a uma melhor reflexão sobre a vida que levam. Às vezes arrisco-me a dar soluções, mas normalmente o poema ficará em aberto para que cada um resolva as suas indagações intimamente.

         Estrutura da Obra - Alguns detalhes contidos na estruturação dos poemas podem passar desapercebidos e causar uma tremenda confusão no entendimento dos textos. O principal deles é o uso de diversas vozes num mesmo poema; para indicar essas vozes afasto o início do verso cada vez que há mudança. Exemplificando: versos começando na coluna um indicam a primeira voz; versos começando na coluna cinco indicam a segunda voz, e assim por diante. Cada voz pode ser a representação de uma personagem ou um narrador. Vozes iniciadas em colunas alinhadas à extrema direita do texto funcionam como eco, ou som de fundo. Textos escritos em forma continua, como se fossem prosa, servem para demarcar introduções, conclusões, quebra de ritmo ou dara idéia de infinito, de acordo com a situação. Cada conjunto é formado por um tema, uma expressão e um poema. Eles foram ordenados do mundo natural para o artificial. Outros detalhes poderiam ser explicados, mas ficam para serem descobertos pelo próprio leitor.


V O L T A R