
Relíquias de Casa Velha, de Machado de Assis
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Relíquias de Casa Velha
Machado de Assis
ÍNDICE:
1. PAI CONTRA MÃE 6. UMAS FÉRIAS
2. MARIA CORA 7. EVOLUÇÃO
3. MARCHA FÚNEBRE 8. PÍLADES E ORESTES
4. UM CAPITÃO DE VOLUNTÁRIOS 9. ANEDOTA DO CABRIOLET
5.
SUJE-SE, GORDO! 10. PÁGINA CRÍTICAS E COMEMORATIVAS
A ESCRAVIDÃO levou consigo
ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito
alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao
pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A
máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca.
Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da
cabeça por um cadeado. Com o vício de beber. perdiam a tentação de furtar,
porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a
sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade
certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se
alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham
penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
O ferro ao pescoço era
aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa
também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com
chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia
assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Há meio século, os escravos
fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia
ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada.
Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de
padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade
moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto.
Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado
no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam
para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse
aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.
Quem perdia um escravo por
fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas
públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o
tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a
quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", -- ou
"receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima
ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e
na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o
acoutasse.
Ora, pegar escravos fugidios
era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com
que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das
ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo;
a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o
acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o
impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.
Cândido Neves, -- em família,
Candinho,-- é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza,
quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse
homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele
chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que
era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o
bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era
carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A
obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao
cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório,
contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros
empregos foram deixados pouco depois de obtidos.
Quando veio a paixão da moça
Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um
primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego,
resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições. Não
lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não
fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns
para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se
demorou muito.
Contava trinta anos. Clara
vinte e dous. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e cosia com ela. Não
cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam
matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para
ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela
notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez
nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia
a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de
longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la,
deixá-la e ir a outras.
O amor traz sobrescritos.
Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o
marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi--para lembrar
o primeiro ofício do namorado, -- tal foi a página inicial daquele livro, que
tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses
depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos
por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam
a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes;
diziam que era dado em demasia a patuscadas.
--Pois ainda bem, replicava a
noiva; ao menos, não caso com defunto. --Não, defunto não; mas é que...
Não diziam o que era. Tia
Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar,
falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora viesse
agravar a necessidade.
--Vocês, se tiverem um filho,
morrem de fome, disse a tia à sobrinha.
--Nossa Senhora nos dará de
comer, acudiu Clara. Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça,
quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas,
e o casamento seria uma festa, como foi.
A alegria era comum aos três.
O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados,
Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso
digeria-se sem esforço.
Ela cosia agora mais, ele
saía a empreitadas de uma cousa e outra; não tinha emprego certo.
Nem por isso abriam mão do
filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar
escondido na eternidade. Um dia. porém, deu sinal de si a criança; varão ou
fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia
Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos.
--Deus nos há de ajudar,
titia, insistia a futura mãe.
A notícia correu de vizinha a
vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa
trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das
costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força
de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A
porção era escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda
que de má vontade.
--Vocês verão a triste vida,
suspirava ela. --Mas as outras crianças não nascem também? perguntou Clara.
--Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que pouco...
--Certa como? --Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o
pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo?
Cândido Neves, logo que soube
daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero mas muito menos manso que de
costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer. --A senhora ainda
não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo.
Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau... --Bem sei, mas somos três. --Seremos
quatro. --Não é a mesma cousa. -- Que quer então que eu faça, além do que faço?
-- Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho,
o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado;
não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você passa
semanas sem vintém. -- Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de
sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase
nenhum resiste, muitos entregam-se logo.
Tinha glória nisto, falava da
esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia rir à tia, que era
naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.
Cândido Neves perdera já o
ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores.
Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas
horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de
corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às
pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo
fugido, gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força
era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas
remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido,
quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa
e ia atrás do vicioso. Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um
salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os
dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.
Um dia os lucros entraram a
escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de
Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um
desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e
deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer
que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos
prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura.
Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis.
Clara não tinha sequer tempo
de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia
Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à tarde, via-se-lhe
pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum
fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em
escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade.
Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande
soma de murros que lhe deram os parentes do homem.
--É o que lhe faltava! exclamou
a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equívoco e suas
conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.
Cândido quisera efetivamente
fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar
de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior é que não achava
à mão negócio que aprendesse depressa.
A natureza ia andando, o feto
crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mês, mês
de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso
também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos.
--Não, tia Mônica! bradou
Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai
ouvi-lo. Isso nunca!
Foi na última semana do
derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que
nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura
de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la,
vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho
arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A
mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente.
Clara interveio. --Titia não fala por mal, Candinho. --Por mal? replicou tia
Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem
fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum
dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde,
quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos
com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar
nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém,
ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua.
Enfim...
Tia Mônica terminou a frase
com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já
insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza
e calor,-- crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a
amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em
voz baixa. A ternura dos dous foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.
--Quem é? perguntou o marido.
--Sou eu.
Era o dono da casa, credor de
três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quis que
ele entrasse.
--Não é preciso... --Faça
favor.
O credor entrou e recusou
sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou
que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais; se
dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para
regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra
supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a
retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da
casa não cedeu mais.
--Cinco dias ou rua! repetiu,
metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.
Candinho saiu por outro lado.
Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum empréstimo, não
sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários,
alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem
proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou
mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não alcançando mais que
a ordem de mudança.
A situação era aguda. Não
achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para
a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para
os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os
quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio. Teve
ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Cândido Neves, no
desespero da crise começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum
meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as
queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que
fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio
e iriam dormir melhor do que cuidassem.
Assim sucedeu. Postos fora da
casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois nasceu a criança. A
alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a
criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua
dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a
levaria. Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este
sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai
levá-lo à Roda na noite seguinte.
Naquela reviu todas as suas
notas de escravos fugidos . As gratificações pela maior parte eram promessas;
algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis.
Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido
Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio;
imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a
vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um
grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da
Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio.
Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido
uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais
indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu
cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação
incerta ou barata.
Voltou para a triste casa que
lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente
mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo
feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica
lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar
com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que
vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a
criação do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a
morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à
mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se
fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da Rua dos
Barbonos.
Que pensasse mais de uma vez
em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito,
que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do sereno. Ao entrar na Rua
da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo. --Hei de entregá-lo
o mais tarde que puder, murmurou ele. Mas não sendo a rua infinita ou sequer
longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que
ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à
direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher;
era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo
fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a
mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a
informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza
de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.
--Mas...
Cândido Neves não lhe deu
tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse
pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de
S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona.
--Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.
Arminda voltou-se sem cuidar
malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou
dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível.
Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A
escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de
costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu
então que a soltasse pelo amor de Deus.
--Estou grávida, meu senhor!
exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me
solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu
senhor moço! -- Siga! repetiu Cândido Neves. --Me solte! --Não quero demoras;
siga!
Houve aqui luta, porque a
escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta
de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia
alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com
açoutes,--cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza,
ele lhe mandaria dar açoutes.
--Você é que tem culpa. Quem
lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves.
Não estava em maré de riso,
por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também é certo que
não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos
Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a
luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço,
inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais
tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada,
arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu
ao chamado e ao rumor.
--Aqui está a fujona, disse
Cândido Neves. -- É ela mesma. --Meu senhor! --Anda, entra...
Arminda caiu no corredor. Ali
mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de
gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta mil-réis,
enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia,
levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
O fruto de algum tempo entrou
sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono.
Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que
fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as
conseqüências do desastre.
Quando lá chegou, viu o
farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo.
Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com
a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que
pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de
amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos
enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de
gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma
vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra
a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho,
entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.
--Nem todas as crianças
vingam, bateu-lhe o coração.
MARIA CORA
CAPÍTULO PRIMEIRO
UMA NOITE, voltando para
casa, trazia tanto sono que não dei corda ao relógio. Pode ser também que a
vista de uma senhora que encontrei em casa do comendador T... contribuísse para
aquele esquecimento; mas estas duas razões destróem-se. Cogitação tira o sono e
o sono impede a cogitação; só uma das causas devia ser verdadeira. Ponhamos que
nenhuma, e fiquemos no principal, que é o relógio parado, de manhã, quando me
levantei, ouvindo dez horas no relógio da casa.
Morava então (1893) em uma
casa de pensão no Catete. Já por esse tempo este gênero de residência florescia
no Rio de Janeiro. Aquela era pequena e tranqüila. Os quatrocentos contos de
réis permitiam-me casa exclusiva e própria; mas, em primeiro lugar, já eu ali
residia quando os adquiri, por jogo de praça; em segundo lugar, era um
solteirão de quarenta anos, tão afeito à vida de hospedaria que me seria
impossível morar só. Casar não era menos impossível. Não é que me faltassem
noivas. Desde os fins de 1891 mais de uma dama, -- e não das menos belas, --
olhou para mim com olhos brandos e amigos. Uma das filhas do comendador
tratava-me com particular atenção. A nenhuma dei corda, o celibato era a minha
alma, a minha vocação, o meu costume, a minha única ventura. Amaria de
empreitada e por desfastio. Uma ou duas aventuras por ano bastavam a um coração
meio inclinado ao ocaso e à noite.
Talvez por isso dei alguma
atenção à senhora que vi em casa do comendador, na véspera. Era uma criatura
morena, robusta, vinte e oito a trinta anos, vestida de escuro; entrou às dez
horas, acompanhada de uma tia velha. A recepção que lhe fizeram foi mais
cerimoniosa que as outras; era a primeira vez que ali ia. Eu era a terceira.
Perguntei se era viúva.
-- Não; é casada.
-- Com quem?
-- Com um estancieiro do Rio
Grande.
-- Chama-se?
-- Ele? Fonseca, ela Maria
Cora.
-- O marido não veio com ela?
-- Está no Rio Grande.
Não soube mais nada; mas a
figura da dama interessou-me pelas graças físicas, que eram o oposto do que
poderiam sonhar poetas românticos e artistas seráficos. Conversei com ela
alguns minutos, sobre cousas indiferentes, -- mas suficientes para escutar-lhe
a voz, que era musical, e saber que tinha opiniões republicanas. Vexou-me
confessar que não as professava de espécie alguma; declarei-me vagamente pelo
futuro do país. Quando ela falava, tinha um modo de umedecer os beiços, não sei
se casual, mas gracioso e picante. Creio que, vistas assim ao pé, as feições
não eram tão corretas como pareciam a distância, mas eram mais suas, mais
originais.
CAPÍTULO II
DE MANHÃ tinha o relógio
parado. Chegando à cidade, desci a Rua do Ouvidor, até à da Quitanda, e indo a
voltar à direita, para ir ao escritório do meu advogado, lembrou-me ver que
horas eram. Não me acudiu que o relógio estava parado.
-- Que maçada! exclamei.
Felizmente, naquela mesma Rua
da Quitanda, à esquerda, entre as do Ouvidor e Rosário, era a oficina onde eu
comprara o relógio, e a cuja pêndula usava acertá-lo. Em vez de ir para um
lado, fui para outro. Era apenas meia hora; dei corda ao relógio, acertei-o,
troquei duas palavras com o oficial que estava ao balcão, e indo a sair, vi à
porta de uma loja de novidades que ficava defronte, nem mais nem menos que a
senhora de escuro que encontrara em casa do comendador. Cumprimentei-a, ela
correspondeu depois de alguma hesitação, como se me não houvesse reconhecido
logo, e depois seguiu pela Rua da Quitanda fora, ainda para o lado esquerdo.
Como tivesse algum tempo ante
mim (pouco menos de trinta minutos), dei-me a andar atrás de Maria Cora. Não digo
que uma força violenta me levasse já, mas não posso esconder que cedia a
qualquer impulso de curiosidade e desejo; era também um resto da juventude
passada. Na rua, andando, vestida de escuro, como na véspera, Maria Cora
pareceu-me ainda melhor. Pisava forte, não apressada nem lenta, o bastante para
deixar ver e admirar as belas formas, mui mais corretas que as linhas do rosto.
Subiu a Rua do Hospício, até uma oficina de ocularista, onde entrou e ficou dez
minutos ou mais. Deixei-me estar a distância, fitando a porta disfarçadamente.
Depois saiu, arrepiou caminho, e dobrou a Rua dos Ourives, até à do Rosário,
por onde subiu até ao Largo da Sé; daí passou ao de S. Francisco de Paula.
Todas essas reminiscências parecerão escusadas, senão aborrecíveis; a mim
dão-me uma sensação intensa e particular, são os primeiros passos de uma
carreira penosa e longa. Demais, vereis por aqui que ela evitava subir a Rua do
Ouvidor, que todos e todas buscariam àquela ou a outra hora para ir ao Largo de
S. Francisco de Paula. Foi atravessando o largo, na direção da Escola
Politécnica, mas a meio caminho veio ter com ela um carro que estava parado
defronte da Escola; meteu-se nele, e o carro partiu.
A vida tem suas
encruzilhadas, como outros caminhos da terra. Naquele momento achei-me diante
de uma assaz complicada, mas não tive tempo de escolher direção, -- nem tempo
nem liberdade. Ainda agora não sei como é que me vi dentro de um tílburi, é
certo que me vi nele, dizendo ao cocheiro que fosse atrás do carro.
Maria Cora morava no Engenho
Velho; era uma boa casa, sólida, posto que antiga, dentro de uma chácara. Vi
que morava ali, porque a tia estava a uma das janelas. Depois, saindo do carro,
Maria Cora disse ao cocheiro (o meu tílburi ia passando adiante) que naquela
semana não sairia mais, e que aparecesse segunda-feira ao meio-dia. Em seguida,
entrou pela chácara, como dona dela, e parou a falar ao feitor, que lhe
explicava alguma cousa com o gesto.
Voltei depois que ela entrou
em casa, e só muito abaixo é que me lembrou de ver as horas, era quase uma e
meia. Vim a trote largo até à Rua da Quitanda, onde me apeei à porta do
advogado.
-- Pensei que não vinha,
disse-me ele.
-- Desculpe, doutor, encontrei
um amigo que me deu uma maçada.
Não era a primeira vez que
mentia na minha vida, nem seria a última.
CAPÍTULO III
FIZ-ME ENCONTRADIÇO com Maria
Cora, na casa do comendador, primeiro, e depois em outras. Maria Cora não vivia
absolutamente reclusa, dava alguns passeios e fazia visitas. Também recebia,
mas sem dia certo, uma ou outra vez, e apenas cinco a seis pessoas da
intimidade. O sentimento geral é que era pessoa de fortes sentimentos e
austeros costumes. Acrescentai a isto o espírito, um espírito agudo, brilhante
e viril. Capaz de resistências e fadigas, não menos que de violências e
combates, era feita, como dizia um poeta que lá ia à casa dela, "de um
pedaço de pampa e outro de pampeiro". A imagem era em verso e com rima,
mas a mim só me ficou a idéia e o principal das palavras. Maria Cora gostava de
ouvir definir-se assim, posto não andasse mostrando aquelas forças a cada
passo, nem contando as suas memórias da adolescência. A tia é que contava
algumas, com amor, para concluir que lhe saía a ela, que também fora assim na
mocidade. A justiça pede que se diga que, ainda agora, apesar de doente, a tia
era pessoa de muita vida e robustez.
Com pouco, apaixonei-me pela
sobrinha. Não me pesa confessá-lo, pois foi a ocasião da única página da minha
vida que merece atenção particular. Vou narrá-la brevemente; não conto novela
nem direi mentiras.
Gostei de Maria Cora. Não lhe
confiei logo o que sentia, mas é provável que ela o percebesse ou adivinhasse,
como todas as mulheres. Se a descoberta ou adivinhação foi anterior à minha ida
à casa do Engenho Velho, nem assim deveis censurá-la por me haver convidado a
ir ali uma noite. Podia ser-lhe então indiferente a minha disposição moral,
podia também gostar de se sentir querida, sem a menor idéia de retribuição. A
verdade é que fui essa noite e tornei outras, a tia gostava de mim e dos meus
modos. O poeta que lá ia, tagarela e tonto, disse uma vez que estava afinando a
lira para o casamento da tia comigo. A tia riu-se; eu, que queria as boas
graças dela, não podia deixar de rir também, e o caso foi matéria de
conversação por uma semana; mas já então o meu amor à outra tinha atingido ao
cume.
Soube, pouco depois, que
Maria Cora vivia separada do marido. Tinham casado oito anos antes, por
verdadeira paixão. Viveram felizes cinco. Um dia, sobreveio uma aventura do
marido que destruiu a paz do casal. João da Fonseca apaixonou-se por uma figura
de circo, uma chilena que voava em cima do cavalo, Dolores, e deixou a estância
para ir atrás dela. Voltou seis meses depois, curado do amor, mas curado à
força, porque a aventureira se enamorou do redator de um jornal, que não tinha
vintém, e por ele abandonou Fonseca e a sua prataria. A esposa tinha jurado não
aceitar mais o esposo, e tal foi a declaração que lhe fez quando ele apareceu
na estância.
-- Tudo está acabado entre
nós; vamos desquitar-nos.
João da Fonseca teve um
primeiro gesto de acordo; era um quadragenário orgulhoso, para quem tal
proposta era de si mesma uma ofensa. Durante uma noite tratou dos preparativos
para o desquite; mas, na seguinte manhã, a vista das graças da esposa novamente
o comoveram. Então, sem tom implorativo, antes como quem lhe perdoava, entendeu
dizer-lhe que deixasse passar uns seis meses. Se ao fim de seis meses,
persistisse o sentimento atual que inspirava a proposta do desquite, este se
faria. Maria Cora não queria aceitar a emenda, mas a tia, que residia em Porto
Alegre e fora passar algumas semanas na estância, interveio com boas palavras.
Antes de três meses estavam reconciliados.
-- João, disse-lhe a mulher
no dia seguinte ao da reconciliação, você deve ver que o meu amor é maior
que o meu ciúme, mas fica
entendido que este caso da nossa vida é único. Nem você me fará outra, nem eu
lhe perdoarei nada mais.
João da Fonseca achava-se
então em um renascimento do delírio conjugal; respondeu à mulher jurando tudo e
mais alguma cousa. Aos quarenta anos, concluiu ele, não se fazem duas aventuras
daquelas, e a minha foi de doer. Você verá, agora é para sempre.
A vida recomeçou tão feliz,
como dantes, -- ele dizia que mais. Com efeito, a paixão da esposa era
violenta, e o marido tornou a amá-la como outrora. Viveram assim dous anos. Ao
fim desse tempo, os ardores do marido haviam diminuído, alguns amores
passageiros vieram meter-se entre ambos. Maria Cora, ao contrário do que lhe
dissera, perdoou essas faltas que aliás não tiveram a extensão nem o vulto da
aventura Dolores. Os desgostos, entretanto, apareceram e grandes. Houve cenas
violentas. Ela parece que chegou mais de uma vez a ameaçar que se mataria; mas,
posto não lhe faltasse o preciso ânimo, não fez tentativa nenhuma, a tal ponto
lhe doía deixar a própria causa do mal, que era o marido. João da Fonseca
percebeu isto mesmo, e acaso explorou a fascinação que exercia na mulher.
Uma circunstância política
veio complicar esta situação moral. João da Fonseca era pelo lado da revolução,
dava-se com vários dos seus chefes, e pessoalmente detestava alguns dos
contrários. Maria Cora, por laços de família, era adversa aos federalistas.
Esta oposição de sentimentos não seria bastante para separá-los, nem se pode
dizer que, por si mesma, azedasse a vida dos dous. Embora a mulher, ardente em
tudo, não o fosse menos em condenar a revolução, chamando nomes crus aos seus
chefes e oficiais; embora o marido, também excessivo, replicasse com igual
ódio, os seus arrufos políticos apenas aumentariam os domésticos, e
provavelmente não passariam dessa troca de conceitos, se uma nova Dolores,
desta vez Prazeres, e não chilena nem saltimbanca, não revivesse os dias
amargos de outro tempo. Prazeres era ligada ao partido da revolução, não só
pelos sentimentos, como pelas relações da vida com um federalista. Eu a conheci
pouco depois, era bela e airosa; João da Fonseca era também um homem gentil e
sedutor. Podiam amar-se fortemente, e assim foi. Vieram incidentes, mais ou
menos graves, ate que um decisivo determinou a separação do casal.
Já cuidavam disto desde algum
tempo, mas a reconciliação não seria impossível, apesar da palavra de Maria Cora,
graças à intervenção da tia; esta havia insinuado à sobrinha que residisse três
ou quatro meses no Rio de Janeiro ou em S.Paulo. Sucedeu, porém, uma cousa
triste de dizer. O marido, em um momento de desvario, ameaçou a mulher com o
rebenque. Outra versão diz que ele tentara esganá-la. Quero crer que a verídica
é a primeira, e que a segunda foi inventada para tirar à violência de João da
Fonseca o que pudesse haver deprimente e vulgar. Maria Cora não disse mais uma
só palavra ao marido. A separação foi imediata, a mulher veio com a tia para o
Rio de Janeiro, depois de arranjados amigavelmente os interesses pecuniários.
Demais, a tia era rica.
João da Fonseca e Prazeres
ficaram vivendo juntos uma vida de aventuras que não importa escrever aqui. Só
uma cousa interessa diretamente à minha narração. Tempos depois da separação do
casal, João da Fonseca estava alistado entre os revolucionários. A paixão
política, posto que forte, não o levaria a pegar em armas, se não fosse uma
espécie de desafio da parte de Prazeres; assim correu entre os amigos dele, mas
ainda este ponto é obscuro. A versão é que ela, exasperada com o resultado de
alguns combates, disse ao estancieiro que iria, disfarçada em homem, vestir
farda de soldado e bater-se pela revolução. Era capaz disto; o amante disse-lhe
que era uma loucura, ela acabou propondo-lhe que, nesse caso, fosse ele
bater-se em vez dela, era uma grande prova de amor que lhe daria.
-- Não te tenho dado tantas?
-- Tem, sim; mas esta é a
maior de todas, esta me fará cativa até à morte.
-- Então agora ainda não é
até à morte? perguntou ele rindo.
-- Não.
Pode ser que as cousas se
passassem assim. Prazeres era, com efeito, uma mulher caprichosa e imperiosa, e
sabia prender um homem por laços de ferro. O federalista, de quem se separou
para acompanhar João da Fonseca, depois de fazer tudo para reavê-la, passou à
campanha oriental, onde dizem que vive pobremente, encanecido e envelhecido
vinte anos, sem querer saber de mulheres nem de política. João da Fonseca
acabou cedendo; ela pediu para acompanhá-lo, e até bater-se, se fosse preciso;
ele negou-lho. A revolução triunfaria em breve, disse; vencidas as forças do
governo, tornaria à estância, onde ela o esperaria.
-- Na estância, não,
respondeu Prazeres; espero-te em Porto Alegre.
CAPÍTULO IV
NÃO IMPORTA dizer o tempo que
despendi nos inícios da minha paixão, mas não foi grande. A paixão cresceu
rápida e forte. Afinal senti-me tão tomado dela que não pude mais guardá-la
comigo, e resolvi declarar-lha uma noite; mas a tia, que usava cochilar desde
as nove horas (acordava às quatro), daquela vez não pregou olho, e, ainda que o
fizesse, é provável que eu não alcançasse falar; tinha a voz presa e na rua
senti uma vertigem igual à que me deu a primeira paixão da minha vida.
-- Sr. Correia, não vá cair,
disse a tia quando eu passei à varanda, despedindo-me.
-- Deixe estar, não caio.
Passei mal a noite; não pude
dormir mais de duas horas, aos pedaços, e antes das cinco estava em pé.
-- É preciso acabar com isto!
exclamei.
De fato, não parecia achar em
Maria Cora mais que benevolência e perdão, mas era isso mesmo que a tornava
apetecível. Todos os amores da minha vida tinham sido fáceis; em nenhum
encontrei resistência, a nenhuma deixei com dor; alguma pena, é possível, e um
pouco de recordação. Desta vez sentia-me tomado por ganchos de ferro. Maria
Cora era toda vida; parece que, ao pé dela, as próprias cadeiras andavam e as
figuras do tapete moviam os olhos. Põe nisso uma forte dose de meiguice e
graça; finalmente, a ternura da tia fazia daquela criatura um anjo. É banal a
comparação, mas não tenho outra.
Resolvi cortar o mal pela
raiz, não tornando ao Engenho Velho, e assim fiz por alguns dias largos, duas
ou três semanas. Busquei distrair-me e esquecê-la, mas foi em vão. Comecei a
sentir a ausência como de um bem querido; apesar disso, resisti e não tornei
logo. Mas, crescendo a ausência, cresceu o mal, e enfim resolvi tornar lá uma
noite. Ainda assim pode ser que não fosse, a não achar Maria Cora na mesma
oficina da Rua da Quitanda, aonde eu fora acertar o relógio parado.
-- É freguês também?
perguntou-me ao entrar.
-- Sou.
-- Vim acertar o meu. Mas,
por que não tem aparecido?
-- E verdade, por que não
voltou lá à casa? completou a tia.
-- Uns negócios, murmurei; mas,
hoje mesmo contava ir lá.
-- Hoje não; vá amanhã, disse
a sobrinha. Hoje vamos passar a noite fora.
Pareceu-me ler naquela
palavra um convite a amá-la de vez, assim como a primeira trouxera um tom que
presumi ser de saudade. Realmente, no dia seguinte, fui ao Engenho Velho. Maria
Cora acolheu-me com a mesma boa vontade de antes. O poeta lá estava e contou-me
em verso os suspiros que a tia dera por mim. Entrei a freqüentá-las novamente e
resolvi declarar tudo.
Já acima disse que ela
provavelmente percebera ou adivinhara o que eu sentia, como todas as mulheres;
referi-me aos primeiros dias. Desta vez com certeza percebeu, nem por isso me
repeliu. Ao contrário, parecia gostar de se ver querida, muito e bem.
Pouco depois daquela noite
escrevi-lhe uma carta e fui ao Engenho Velho. Achei-a um pouco retraída; a tia
explicou-me que recebera notícias do Rio Grande que a afligiram. Não liguei
isto ao casamento e busquei alegrá-la; apenas consegui vê-la cortês. Antes de
sair, perto da varanda, entreguei-lhe a carta; ia a dizer-lhe: "Peço-lhe
que leia", mas a voz não saiu. Vi-a um pouco atrapalhada, e para evitar
dizer o que melhor ia escrito, cumprimentei-a e enfiei pelo jardim. Pode
imaginar-se a noite que passei, e o dia seguinte foi naturalmente igual à medida
que a outra noite vinha. Pois, ainda assim, não tornei à casa dela; resolvi
esperar três ou quatro dias, não que ela me escrevesse logo, mas que pensasse
nos termos da resposta. Que estes haviam de ser simpáticos, era certeza minha;
as maneiras dela, nos últimos tempos, eram mais que afáveis, pareciam-me
convidativas.
Não cheguei, porém, aos
quatro dias; mal pude esperar três. Na noite do terceiro fui ao Engenho Velho.
Se disser que entrei trêmulo da primeira comoção, não minto. Achei-a ao piano,
tocando para o poeta ouvir; a tia, na poltrona, pensava em não sei que, mas eu
quase não a vi, tal a minha primeira alucinação.
-- Entre, Sr. Correia, disse
esta; não caia em cima de mim.
-- Perdão...
Maria Cora não interrompeu a
música; ao ver-me chegar, disse:
-- Desculpe, se lhe não dou a
mão, estou aqui servindo de musa a este senhor.
Minutos depois, veio a mim, e
estendeu-me a mão com tanta galhardia, que li nela a resposta, e estive quase a
dar-lhe um agradecimento. Passaram-se alguns minutos, quinze ou vinte. Ao fim
desse tempo, ela pretextou um livro, que estava em cima das músicas, e pediu-me
para dizer se o conhecia; fomos ali ambos, e ela abriu-mo; entre as duas folhas
estava um papel.
-- Na outra noite, quando
aqui esteve, deu-me esta carta; não podia dizer-me o que tem dentro?
-- Não adivinha?
-- Posso errar na
adivinhação.
-- É isso mesmo.
-- Bem, mas eu sou uma
senhora casada, e nem por estar separada do meu marido deixo de estar casada.
O senhor ama-me, não é?
Suponha, pelo melhor, que eu também o amo; nem por isso deixo de estar casada.
Dizendo isto, entregou-me a
carta; não fora aberta. Se estivéssemos sós, é possível que eu lhe lesse, mas a
presença de estranhos impedia-me este recurso. Demais, era desnecessário; a
resposta de Maria Cora era definitiva ou me pareceu tal. Peguei na carta. e
antes de a guardar comigo:
-- Não quer então ler?
-- Não.
-- Nem para ver os termos?
-- Não.
-- Imagine que lhe proponho
ir combater contra seu marido, matá-lo e voltar, disse eu cada vez mais tonto.
-- Propõe isto?
-- Imagine.
-- Não creio que ninguém me
ame com tal força, concluiu sorrindo. Olhe, que estão reparando em nós.
Dizendo isto, separou-se de
mim, e foi ter com a tia e o poeta. Eu fiquei ainda alguns segundos com o livro
na mão, como se deveras o examinasse, e afinal deixei-o. Vim sentar-me defronte
dela. Os três conversavam de cousas do Rio Grande, de combates entre
federalistas e legalistas, e da vária sorte deles. O que eu então senti não se
escreve; pelo menos, não o escrevo eu, que não sou romancista. Foi uma espécie
de vertigem, um delírio, uma cena pavorosa e lúcida, um combate e uma glória.
Imaginei-me no campo, entre uns e outros, combatendo os federalistas, e afinal
matando João da Fonseca, voltando e casando-me com a viúva. Maria Cora
contribuía para esta visão sedutora; agora, que me recusara a carta, parecia-me
mais bela que nunca, e a isto acrescia que se não mostrava zangada nem
ofendida, tratava-me com igual carinho que antes, creio até que maior. Disto
podia sair uma impressão dupla e contrária, -- uma de aquiescência tácita,
outra de indiferença, mas eu só via a primeira, e saí de lá completamente
louco.
O que então resolvi foi
realmente de louco. As palavras de Maria Cora: "Não creio que ninguém me
ame com tal força" -- soavam-me aos ouvidos, como um desafio. Pensei nelas
toda a noite, e no dia seguinte fui ao Engenho Velho; logo que tive ocasião de
jurar-lhe a prova, fi-lo.
-- Deixo tudo o que me
interessa, a começar pela paz, com o único fim de lhe mostrar que a amo, e a
quero só e santamente para mim. Vou combater a revolta.
Maria Cora fez um gesto de
deslumbramento. Daquela vez percebi que realmente gostava de mim, verdadeira
paixão, e se fosse viúva, não casava com outro. Jurei novamente que ia para o
Sul. Ela, comovida, estendeu-me a mão. Estávamos em pleno romantismo. Quando eu
nasci, os meus não acreditavam em outras provas de amor, e minha mãe contava-me
os romances em versos de cavaleiros andantes que iam à Terra Santa libertar o
sepulcro de Cristo por amor da fé e da sua dama. Estávamos em pleno romantismo.
CAPÍTULO V
FUI PARA O SUL. OS combates
entre legalistas e revolucionários eram contínuos e sangrentos, e a notícia
deles contribuiu a animar-me. Entretanto, como nenhuma paixão política me
animava a entrar na luta, força é confessar que por um instante me senti
abatido e hesitei. Não era medo da morte, podia ser amor da vida, que é um
sinônimo; mas, uma ou outra cousa, não foi tal nem tamanha que fizesse durar por
muito tempo a hesitação. Na cidade do Rio Grande encontrei um amigo, a quem eu
por carta do Rio de Janeiro dissera muito reservadamente que ia lá por motivos
políticos. Quis saber quais.
-- Naturalmente são
reservados, respondi tentando sorrir.
-- Bem; mas uma cousa creio
que posso saber, uma só, porque não sei absolutamente o que pense a tal
respeito, nada havendo antes que me instrua. De que lado estás, legalistas ou
revoltosos?
-- É boa! Se não fosse dos
legalistas, não te mandaria dizer nada; viria às escondidas.
-- Vens com alguma comissão
secreta do marechal?
-- Não.
Não me arrancou então mais
nada, mas eu não pude deixar de lhe confiar os meus projetos, ainda que sem os
seus motivos. Quando ele soube que aqueles eram alistar-me entre os voluntários
que combatiam a revolução, não pôde crer em mim, e talvez desconfiasse que
efetivamente eu levava algum plano secreto do presidente. Nunca da minha parte
ouviu nada que pudesse explicar semelhante passo. Entretanto, não perdeu tempo
em despersuadir-me; pessoalmente era legalista e falava dos adversários com
ódio e furor. Passado o espanto, aceitou o meu ato, tanto mais nobre quanto não
era inspirado por sentimento de partido. Sobre isto disse-me muita palavra bela
e heróica, própria a levantar o ânimo de quem já tivesse tendência para a luta.
Eu não tinha nenhuma, fora das razões particulares; estas, porém, eram agora
maiores. Justamente acabava de receber uma carta da tia de Maria Cora, dando-me
notícias delas, e recomendações da sobrinha, tudo com alguma generalidade e
certa simpatia verdadeira.
Fui a Porto Alegre,
alistei-me a marchei para a campanha. Não disse a meu respeito nada que pudesse
despertar a curiosidade de ninguém, mas era difícil encobrir a minha condição,
a minha origem, a minha viagem com o plano de ir combater a revolução. Fez-se
logo uma lenda a meu respeito. Eu era um republicano antigo, riquíssimo,
entusiasta, disposto a dar pela República mil vidas, se as tivesse, e resoluto
a não poupar a única. Deixei dizer isto e o mais, e fui. Como eu indagasse das
forças revolucionárias com que estaria João da Fonseca, alguém quis ver nisto
uma razão de ódio pessoal; também não faltou quem me supusesse espião dos
rebeldes, que ia por-me em comunicação secreta com aquele. Pessoas que sabiam
das relações dele com a Prazeres, imaginavam que era um antigo amante desta que
se queria vingar dos amores dele. Todas aquelas suposições morreram, para só
ficar a do meu entusiasmo político; a da minha espionagem ia-me prejudicando;
felizmente, não passou de duas cabeças e de uma noite.
Levava comigo um retrato de
Maria Cora; alcançara-o dela mesmo, uma noite, pouco antes do meu embarque, com
uma pequena dedicatória cerimoniosa. Já disse que estava em pleno romantismo;
dado o primeiro passo, os outros vieram de si mesmos. E agora juntai a isto o
amor-próprio, e compreendereis que de simples cidadão indiferente da capital saísse
um guerreiro áspero da campanha rio-grandense.
Nem por isso conto combates,
nem escrevo para falar da revolução, que não teve nada comigo, por si mesma,
senão pela ocasião que me dava, e por algum golpe que lhe desfechei na estreita
área da minha ação. João da Fonseca era o meu rebelde. Depois de haver tomado
parte no combate de Sarandi e Cochila Negra, ouvi que o marido de Maria Cora
fora morto, não sei em que recontro; mais tarde deram-me a notícia de estar com
as forças de Gumercindo, e também que fora feito prisioneiro e seguira para
Porto Alegre; mas ainda isto não era verdade. Disperso, com dois camaradas,
encontrei um dia um regimento legal que ia em defesa da Encruzilhada, investida
ultimamente por uma força dos federalistas; apresentei-me ao comandante e
segui. Aí soube que João da Fonseca estava entre essa força; deram-me todos os
sinais dele, contaram-me a história dos amores e a separação da mulher.
A idéia de matá-lo no
turbilhão de um combate tinha algo fantástico; nem eu sabia se tais duelos eram
possíveis em semelhantes ocasiões, quando a força de cada homem tem de somar
com a de toda uma força única e obediente a uma só direção. Também me pareceu,
mais de uma vez, que ia cometer um crime pessoal, e a sensação que isto me
dava, podeis crer que não era leve nem doce; mas a figura de Maria Cora
abraçava-me e absolvia com uma bênção de felicidades. Atirei-me de vez. Não
conhecia João da Fonseca; além dos sinais que me haviam dado, tinha de memória
um retrato dele que vira no Engenho Velho; se as feições não estivessem
mudadas, era provável que eu o reconhecesse entre muitos. Mas, ainda uma vez,
seria este encontro possível? Os combates em que eu entrara, já me faziam
desconfiar que não era fácil, ao menos.
Não foi fácil nem breve. No
combate da Encruzilhada creio que me houve com a necessária intrepidez e
disciplina, e devo aqui notar que eu me ia acostumando à vida da guerra civil.
Os ódios que ouvia, eram forças reais. De um lado e outro batiam-se com ardor,
e a paixão que eu sentia nos meus ia-se pegando em mim. Já lera o meu nome em
uma ordem do dia. e de viva voz recebera louvores, que comigo não pude deixar
de achar justos, e ainda agora tais os declaro. Mas vamos ao principal, que é
acabar com isto.
Naquele combate achei-me um
tanto como o herói de Stendhal na batalha de Waterloo; a diferença é que o
espaço foi menor. Por isso, e também porque não me quero deter em cousas de
recordação fácil, direi somente que tive ocasião de matar em pessoa a João da
Fonseca. Verdade é que escapei de ser morto por ele. Ainda agora trago na testa
a cicatriz que ele me deixou. O combate entre nós foi curto. Se não parecesse
romanesco demais, eu diria que João da Fonseca adivinhara o motivo e previra o
resultado da ação.
Poucos minutos depois da luta
pessoal, a um canto da vila, João da Fonseca caiu prostrado. Quis ainda lutar,
e certamente lutou um pouco; eu é que não consenti na desforra, que podia ser a
minha derrota, se é que raciocinei; creio que não. Tudo o que fiz foi cego pelo
sangue em que o deixara banhado, e surdo pelo clamor e tumulto do combate.
Matava-se, gritava-se, vencia-se; em pouco ficamos senhores do campo.
Quando vi que João da Fonseca
morrera deveras, voltei ao combate por instantes; a minha ebriedade cessara um
pouco, e os motivos primários tornaram a dominar-me, como se fossem únicos. A
figura de Maria Cora apareceu-me como um sorriso de aprovação e perdão; tudo
foi rápido.
Haveis de ter lido que ali se
apreenderam três ou quatro mulheres. Uma destas era a Prazeres. Quando, acabado
tudo, a Prazeres viu o cadáver do amante, fez uma cena que me encheu de ódio e
de inveja. Pegou em si e deitou-se a abraçá-lo; as lágrimas que verteu, as
palavras que disse, fizeram rir a uns; a outros, se não enterneceram, deram
algum sentimento de admiração. Eu, como digo, achei-me tomado de inveja e ódio,
mas também esse duplo sentimento desapareceu para não ficar nem admiração;
acabei rindo. Prazeres, depois de honrar com dor a morte do amante, ficou sendo
a federalista que já era; não vestia farda, como dissera ao desafiar João da
Fonseca, quis ser prisioneira com os rebeldes e seguir com eles.
É claro que não deixei logo
as forças, bati-me ainda algumas vezes, mas a razão principal dominou, e abri
mão das armas. Durante o tempo em que estive alistado, só escrevi duas cartas a
Maria Cora, uma pouco depois de encetar aquela vida nova, -- outra depois do
combate da Encruzilhada; nesta não lhe contei nada do marido, nem da morte, nem
sequer que o vira. Unicamente anunciei que era provável acabasse brevemente a
guerra civil. Em nenhuma das duas fiz a menor alusão aos meus sentimentos nem
ao motivo do meu ato; entretanto, para quem soubesse deles, a carta era
significativa. Maria Cora só respondeu à primeira das cartas, com serenidade,
mas não com isenção. Percebia-se, -- ou percebia-o eu, -- que, não prometendo
nada, tudo agradecia, e, quando menos, admirava. Gratidão e admiração podiam
encaminhá-la ao amor.
Ainda não disse, -- e não sei
como diga este ponto, -- que na Encruzilhada, depois da morte de João da
Fonseca, tentei degolá-lo; mas nem queria fazê-lo, nem realmente o fiz. O meu
objeto era ainda outro e romanesco. Perdoa-me tu, realista sincero, há nisto
também um pouco de realidade, e foi o que pratiquei, de acordo com o estado da
minha alma: o que fiz foi cortar-lhe um molho de cabelos. Era o recibo da morte
que eu levaria à viúva.
CAPÍTULO VI
QUANDO VOLTEI ao Rio de
Janeiro, tinham já passado muitos meses do combate da Encruzilhada. O meu nome
figurou não só em partes oficiais como em telegramas e correspondências, por
mais que eu buscasse esquivar-me ao ruído e desaparecer na sombra. Recebi
cartas de felicitações e de indagações. Não vim logo para o Rio de Janeiro,
note-se; podia ter aqui alguma festa; preferi ficar em S. Paulo. Um dia. sem
ser esperado, meti-me na estrada de ferro e entrei na cidade. Fui para a casa
de pensão do Catete.
Não procurei logo Maria Cora.
Pareceu-me até mais acertado que a notícia da minha vinda lhe chegasse pelos
jornais. Não tinha pessoa que lhe falasse; vexava-me ir eu mesmo a alguma
redação contar o meu regresso do Rio Grande; não era passageiro de mar, cujo
nome viesse em lista nas folhas públicas. Passaram dous dias; no terceiro,
abrindo uma destas, dei com o meu nome. Dizia-se ali que viera de S. Paulo e
estivera nas lutas do Rio Grande, citavam-se os combates, tudo com adjetivos de
louvor; enfim, que voltava à mesma pensão do Catete. Como eu só contara alguma
cousa ao dono da casa, podia ser ele o autor das notas; disse-me que não.
Entrei a receber visitas pessoais. Todas queriam saber tudo; eu pouco mais
disse que nada.
Entre os cartões, recebi dous
de Maria Cora e da tia, com palavras de boas-vindas. Não era preciso mais;
restava-me ir agradecer-lhes, e dispus-me a isso; mas, no próprio dia em que
resolvi ir ao Engenho Velho, tive uma sensação de... De quê? Expliquem, se
podem, o acanhamento que me deu a lembrança do marido de Maria Cora, morto às
minha mãos. A sensação que ia ter diante dela encheu-me inteiramente. Sabendo-se
qual foi o móvel principal da minha ação militar, mal se compreende aquela
hesitação; mas, se considerares que, por mais que me defendesse do marido e o
matasse para não morrer, ele era sempre o marido, terás entendido o mal-estar
que me fez adiar a visita. Afinal, peguei em mim e fui à casa dela.
Maria Cora estava de luto.
Recebeu-me com bondade, e repetiu-me, como a tia, as felicitações escritas.
Falamos da guerra civil, dos costumes do Rio Grande, um pouco de política, e
mais nada. Não se disse de João da Fonseca. Ao sair de lá, perguntei a mim
mesmo se Maria Cora estaria disposta a casar comigo.
"Não me parece que
recuse, embora não lhe ache maneiras especiais. Creio até que está menos afável
que dantes... Terá mudado?"
Pensei assim, vagamente. Atribuí
a alteração ao estado moral da viuvez; era natural. E continuei a freqüentá-la,
disposto a deixar passar a primeira fase do luto para lhe pedir formalmente a
mão. Não tinha que fazer declarações novas; ela sabia tudo. Continuou a
receber-me bem. Nenhuma pergunta me fez sobre o marido, a tia também não, e da
própria revolução não se falou mais. Pela minha parte, tornando à situação
anterior, busquei não perder tempo, fiz-me pretendente com todas as maneiras do
ofício. Um dia. perguntei-lhe se pensava em tornar ao Rio Grande.
-- Por ora, não.
-- Mas irá?
-- É possível; não tenho
plano nem prazo marcado; é possível.
Eu, depois de algum silêncio,
durante o qual olhava interrogativamente para ela, acabei por inquirir se antes
de ir, caso fosse, não alteraria nada em sua vida.
-- A minha vida está tão
alterada.. .
Não me entendera; foi o que
supus. Tratei de me explicar melhor, e escrevi uma carta em que lhe lembrava a
entrega e a recusa da primeira e lhe pedia francamente a mão. Entreguei a
carta, dous dias depois, com estas palavras:
-- Desta vez não recusará
ler-me.
Não recusou, aceitou a carta.
Foi à saída, à porta da sala. Creio até que lhe vi certa comoção de bom agouro.
Não me respondeu por escrito, como esperei. Passados três dias, estava tão
ansioso que resolvi ir ao Engenho Velho. Em caminho imaginei tudo; que me
recusasse, que me aceitasse, que me adiasse, e já me contentava com a última
hipótese, se não houvesse de ser a segunda. Não a achei em casa; tinha ido
passar alguns dias na Tijuca. Saí de lá aborrecido. Pareceu-me que não queria
absolutamente casar; mas então era mais simples dizê-lo ou escrevê-lo. Esta
consideração trouxe-me esperanças novas.
Tinha ainda presentes as
palavras que me dissera, quando me devolveu a primeira carta, e eu lhe falei da
minha paixão: ''Suponho que eu o amo; nem por isso deixo de ser uma senhora
casada". Era claro que então gostava de mim, e agora mesmo não havia razão
decisiva para crer o contrário, embora a aparência fosse um tanto fria.
Ultimamente, entrei a crer que ainda gostava, um pouco por vaidade, um pouco
por simpatia, e não sei se por gratidão também; tive alguns vestígios disso.
Não obstante, não me deu resposta à segunda carta. Ao voltar da Tijuca, vinha
menos expansiva, acaso mais triste. Tive eu mesmo de lhe falar na matéria; a
resposta foi que por ora, estava disposta a não casar.
-- Mas um dia ...? perguntei
depois de algum silêncio.
-- Estarei velha.
-- Mas então... será muito
tarde?
-- Meu marido pode não estar
morto.
Espantou-me esta objeção.
-- Mas a senhora está de
luto.
-- Tal foi a notícia que li e
me deram; pode não ser exata. Tenho visto desmentir outras que se reputavam
certas.
-- Quer certeza absoluta?
perguntei. Eu posso dá-la.
Maria Cora empalideceu.
Certeza. Certeza de quê? Queria que lhe contasse tudo, mas tudo. A situação era
tão penosa para mim que não hesitei mais, e, depois de lhe dizer que era
intenção minha não lhe contar nada, como não contara a ninguém, ia fazê-lo,
unicamente para obedecer à intimação. E referi o combate, as suas fases todas,
os riscos, as palavras, finalmente a morte de João da Fonseca. A ânsia com que
me ouviu foi grande, e não menor o abatimento final. Ainda assim, dominou-se, e
perguntou-me:
-- Jura que me não está
enganando?
-- Para que a enganar? O que
tenho feito é bastante para provar que sou sincero. Amanhã, trago-lhe outra
prova, se é preciso mais alguma.
Levei-lhe os cabelos que
cortara ao cadáver. Contei-lhe, -- e confesso que o meu fim foi irritá-la
contra a memória do defunto, -- contei-lhe o desespero da Prazeres. Descrevi
essa mulher e as suas lágrimas. Maria Cora ouviu-me com os olhos grandes e
perdidos; estava ainda com ciúmes. Quando lhe mostrei os cabelos do marido,
atirou-se a eles, recebeu-os, beijou-os, chorando, chorando, chorando...
Entendi melhor sair e sair para sempre. Dias depois recebi a resposta à minha
carta; recusava casar.
Na resposta havia uma palavra que é a única razão de escrever esta narrativa: "Compreende que eu não podia aceitar a mão do homem que, embora lealmente, matou meu marido". Comparei-a àquela outra que me dissera antes, quando eu me propunha sair a combate, matá-lo e voltar: "Não creio que ninguém me ame com tal força". E foi essa palavra que me levou à guerra. Maria Cora vive agora reclusa; de costume manda dizer uma missa por alma do marido, no aniversário do combate da Encruzilhada. Nunca mais a vi; e, cousa menos difícil, nunca mais esqueci de dar corda ao relógio.
MARCHA FÚNEBRE
O DEPUTADO Cordovil não podia pregar olho uma noite de agosto de 186... Viera cedo do Cassino Fluminense, depois da retirada do Imperador, e durante o baile não tivera o mínimo incômodo moral nem físico. Ao contrário, a noite foi excelente, tão excelente que um inimigo seu, que padecia do coração, faleceu antes das dez horas, e a notícia chegou ao Cassino pouco depois das onze.
Naturalmente concluis que ele
ficou alegre com a morte do homem, espécie de vingança que os corações adversos
e fracos tomam em falta de outra. Digo-te que concluis mal; não foi alegria,
foi desabafo. A morte vinha de meses, era daquelas que não acabam mais, e moem,
mordem, comem, trituram a pobre criatura humana. Cordovil sabia dos padecimentos
do adversário. Alguns amigos, para o consolar de antigas injúrias, iam
contar-lhe o que viam ou sabiam do enfermo, pregado a uma cadeira de braços,
vivendo as noites horrivelmente, sem que as auroras lhe trouxessem esperanças,
nem as tardes desenganos. Cordovil pagava-lhes com alguma palavra de compaixão,
que o alvissareiro adotava, e repetia, e era mais sincera naquele que neste.
Enfim acabara de padecer; daí o desabafo.
Este sentimento pegava com a
piedade humana. Cordovil, salvo em política, não gostava do mal alheio. Quando
rezava, ao levantar da cama: "Padre Nosso, que estás no céu, santificado
seja o teu nome, venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na
terra como no céu, o pão nosso de cada dia nos dá hoje, perdoa as nossas dívidas,
como nós perdoamos aos nossos devedores"... não imitava um de seus amigos
que rezava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores, como dizia de
língua; esse chegava a cobrar além do que eles lhe deviam, isto é, se ouvia
maldizer de alguém, decorava tudo e mais alguma cousa e ia repeti-lo a outra
parte. No dia seguinte, porém, a bela oração de Jesus tornava a sair dos lábios
da véspera com a mesma caridade de ofício.
Cordovil não ia nas águas
desse amigo; perdoava deveras. Que entrasse no perdão um tantinho de preguiça,
é possível, sem aliás ser evidente. Preguiça amamenta muita virtude. Sempre é
alguma cousa minguar força à ação do mal. Não esqueça que o deputado só gostava
do mal alheio em política, e o inimigo morto era inimigo pessoal. Quanto à
causa da inimizade, não a sei eu, e o nome do homem acabou com a vida.
-- Coitado! descansou, disse
Cordovil.
Conversaram da longa doença
do finado . Também falaram das várias mortes deste mundo, dizendo Cordovil que
a todas preferia a de César, não por motivo do ferro, mas por inesperada e
rápida.
-- Tu quoque? perguntou-lhe
um colega rindo.
Ao que ele, apanhando a
alusão, replicou:
-- Eu, se tivesse um filho,
quisera morrer às mãos dele. O parricídio, estando fora do comum, faria a
tragédia mais trágica.
Tudo foi assim alegre.
Cordovil saiu do baile com sono, e foi cochilando no carro, apesar do mal
calçado das ruas. Perto de casa. sentiu parar o carro e ouviu rumor de vozes.
Era o caso de um defunto, que duas praças de polícia estavam levantando do
chão.
-- Assassinado? perguntou ele
ao lacaio, que descera da almofada para saber o que era.
-- Não sei, não, senhor.
-- Pergunta o que é.
-- Este moço sabe como foi,
disse o lacaio, indicando um desconhecido, que falava a outros.
O moço aproximou-se da
portinhola, antes que o deputado recusasse ouvi-lo. Referiu-lhe então em poucas
palavras o acidente a que assistira.
-- Vínhamos andando, ele
adiante, eu atrás. Parece que assobiava uma polca. Indo a atravessar a rua para
o lado do Mangue, vi que estacou o passo, a modo que torceu o corpo, não sei
bem, e caiu sem sentidos. Um doutor, que chegou logo, descendo de um
sobradinho, examinou o homem e disse que "morreu de repente". Foi-se
juntando gente, a patrulha levou muito tempo a chegar. Agora pegou dele. Quer
ver o defunto?
-- Não, obrigado. Já se pode
passar?
-- Pode.
-- Obrigado. Vamos, Domingos.
Domingos trepou à almofada, o
cocheiro tocou os animais, e o carro seguiu até à Rua de S. Cristóvão, onde
morava Cordovil.
Antes de chegar à casa ,
Cordovil foi pensando na morte do desconhecido. Em si mesma, era boa; comparada
à do inimigo pessoal, excelente. Ia a assobiar, cuidando sabe Deus em que
delícia passada ou em que esperança futura; revivia o que vivera, ou antevia o
que podia viver, senão quando, a morte pegou da delícia ou da esperança, e lá
se foi o homem ao eterno repouso. Morreu sem dor, ou, se alguma teve, foi acaso
brevíssima, como um relâmpago que deixa a escuridão mais escura.
Então pôs o caso em si. Se
lhe tem acontecido no Cassino a morte do Aterrado? Não seria dançando; os seus
quarenta anos não dançavam. Podia até dizer que ele só dançou até aos vinte.
Não era dado a moças, tivera um afeição única na vida, -- aos vinte e cinco
anos, casou e enviuvou ao cabo de cinco semanas para não casar mais. Não é que
lhe faltassem noivas, -- mormente depois de perder o avô, que lhe deixou duas
fazendas. Vendeu-as ambas e passou a viver consigo, fez duas viagens à Europa,
continuou a política e a sociedade. Ultimamente parecia enojado de uma e de
outra, mas não tendo em que matar o tempo, não abriu mão delas. Chegou a ser
ministro uma vez, creio que da Marinha, não passou de sete meses. Nem a pasta
lhe deu glória, nem a demissão desgosto. Não era ambicioso, e mais puxava para
a quietação que para o movimento.
Mas se lhe tivesse sucedido
morrer de repente no Cassino, ante uma valsa ou quadrilha, entre duas portas?
Podia ser muito bem. Cordovil compôs de imaginação a cena, ele caído de bruços
ou de costas, o prazer turbado, a dança interrompida... e dali podia ser que
não; um pouco de espanto apenas, outro de susto, os homens animando as damas, a
orquestra continuando por instantes a oposição do compasso e da confusão. Não
faltariam braços que o levassem para um gabinete, já morto, totalmente morto.
"Tal qual a morte de
César", ia dizendo consigo.
E logo emendou:
"Não, melhor que ela;
sem ameaça, nem armas, nem sangue, uma simples queda e o fim. Não sentiria
nada."
Cordovil deu consigo a rir ou
a sorrir, alguma cousa que afastava o terror e deixava a sensação da liberdade.
Em verdade, antes a morte assim que após longos dias ou longos meses e anos,
como o adversário que perdera algumas horas antes. Nem era morrer; era um gesto
de chapéu, que se perdia no ar com a própria mão e a alma que lhe dera
movimento. Um cochilo e o sono eterno. Achava-lhe um só defeito, -- o aparato.
Essa morte no meio de um baile defronte do Imperador, ao som de Strauss,
contada, pintada, enfeitada nas folhas públicas, essa morte pareceria de
encomenda. Paciência, uma vez que fosse repentina.
Também pensou que podia ser
na Câmara, no dia seguinte, ao começar o debate do orçamento. Tinha a palavra;
já andava cheio de algarismos e citações. Não quis imaginar o caso, não valia a
pena; mas o caso teimou e apareceu de si mesmo. O salão da Câmara, em vez do do
Cassino, sem damas ou com poucas, nas tribunas. Vasto silêncio. Cordovil em pé
começaria o discurso, depois de circular os olhos pela casa, fitar o ministro e
fitar o presidente: "Releve-me a Câmara que lhe tome algum tempo, serei
breve, buscarei ser justo..." Aqui uma nuvem lhe taparia os olhos, a
língua pararia, o coração também, e ele cairia de golpe no chão. Câmara,
galerias, tribunas ficariam assombradas. Muitos deputados correriam a erguê-lo;
um, que era médico, verificaria a morte; não diria que fora de repente, como o
do sobradinho do Aterrado, mas por outro estilo mais técnico. Os trabalhos
seriam suspensos, depois de algumas palavras do presidente e escolha da
comissão que acompanharia o finado ao cemitério ...
Cordovil quis rir da
circunstância de imaginar além da morte, o movimento e o saimento, as próprias
notícias dos jornais, que ele leu de cor e depressa. Quis rir, mas preferia
cochilar; os olhos é que, estando já perto de casa e da cama, não quiseram
desperdiçar o sono, e ficaram arregalados.
Então a morte, que ele
imaginara pudesse ter sido no baile, antes de sair, ou no dia seguinte em plena
sessão da Câmara, apareceu ali mesmo no carro. Supôs ele que, ao abrirem-lhe a
portinhola, dessem com o seu cadáver. Sairia assim de uma noite ruidosa para
outra pacífica, sem conversas, nem danças, nem encontros, sem espécie alguma de
luta ou resistência. O estremeção que teve fez-lhe ver que não era verdade. Efetivamente,
o carro entrou na chácara, estacou, e Domingos saltou da almofada para vir
abrir-lhe a portinhola. Cordovil desceu com as pernas e a alma vivas, e entrou
pela porta lateral, onde o aguardava com um castiçal e vela acesa o escravo
Florindo. Subiu a escada, e os pés sentiam que os degraus eram deste mundo; se
fossem do outro, desceriam naturalmente. Em cima, ao entrar no quarto, olhou
para a cama; era a mesma dos sonos quietos e demorados.
-- Veio alguém?
-- Não, senhor, respondeu o
escravo distraído, mas corrigiu logo: Veio, sim, senhor; veio aquele doutor que
almoçou com meu senhor domingo passado.
-- Queria alguma cousa?
-- Disse que vinha dar a meu
senhor uma boa notícia, e deixou este bilhete -- que eu botei ao pé da cama.
O bilhete referia a morte do
inimigo; era de um dos amigos que usavam contar-lhe a marcha da moléstia. Quis
ser o primeiro a anunciar o desenlace, um alegrão, com um abraço apertado.
Enfim, morrera o patife. Não disse a cousa assim por esses termos claros, mas
os que empregou vinham a dar neles, acrescendo que não atribuiu esse único
objeto à visita. Vinha passar a noite; só ali soube que Cordovil fora ao
Cassino. Ia a sair, quando lhe lembrou a morte e pediu ao Florindo que lhe
deixasse escrever duas linhas. Cordovil entendeu o significado, e ainda uma vez
lhe doeu a agonia do outro. Fez um gesto de melancolia e exclamou a meia voz:
-- Coitado! Vivam as mortes
súbitas!
Florindo, se referisse o
gesto e a frase ao doutor do bilhete, talvez o fizesse arrepender da canseira.
Nem pensou nisso; ajudou o senhor a preparar-se para dormir, ouviu as últimas
ordens e despediu-se. Cordovil deitou-se.
-- Ah! suspirou ele estirando
o corpo cansado.
Teve então uma idéia, a de
amanhecer morto. Esta hipótese, a melhor de todas, porque o apanharia meio
morto, trouxe consigo mil fantasias que lhe arredaram o sono dos olhos. Em
parte, era a repetição das outras, a participação à Câmara, as palavras do
presidente, comissão para o saimento, e o resto. Ouviu lástimas de amigos e de
fâmulos, viu notícias impressas, todas lisonjeiras ou justas. Chegou a
desconfiar que era já sonho. Não era. Chamou-se ao quarto, à cama, a si mesmo:
estava acordado.
A lamparina deu melhor corpo
à realidade. Cordovil espancou as idéias fúnebres e esperou que as alegres
tomassem conta dele e dançassem até cansá-lo. Tentou vencer uma visão com
outra. Fez até uma cousa engenhosa, convocou os cinco sentidos, porque a
memória de todos eles era aguda e fresca; foi assim evocando lances e rasgos
longamente extintos. Gestos, cenas de sociedade e de família, panoramas,
repassou muita cousa vista, com o aspecto do tempo diverso e remoto. Deixara de
comer acepipes que outra vez lhe sabiam, como se estivesse agora a mastigá-los.
Os ouvidos escutavam passos leves e pesados, cantos joviais e tristes, e
palavra de todos os feitios. O tacto, o olfato, todos fizeram o seu ofício,
durante um prazo que ele não calculou.
Cuidou de dormir e cerrou bem
os olhos. Não pôde, nem do lado direito, nem do esquerdo, de costas nem de
bruços. Ergueu-se e foi ao relógio; eram três horas. Insensivelmente levou-o à
orelha a ver se estava parado; estava andando, dera-lhe corda. Sim, tinha tempo
de dormir um bom sono; deitou-se, cobriu a cabeça para não ver a luz.
Ah! foi então que o sono
tentou entrar, calado e surdo, todo cautelas, como seria a morte, se quisesse
levá-lo de repente, para nunca mais. Cordovil cerrou os olhos com força, e fez
mal, porque a força acentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de os
afrouxar, e fez bem. O sono, que ia a recuar, tornou atrás, e veio estirar-se
ao lado deles, passando-lhe aqueles braços leves e pesados, a um tempo, que
tiram à pessoa todo movimento. Cordovil os sentia, e com os seus quis
conchegá-los ainda mais... A imagem não é boa, mas não tenho outra à mão nem
tempo de ir buscá-la. Digo só o resultado do gesto, que foi arredar o sono de
si, tão aborrecido ficou este reformador de cansados.
-- Que terá ele hoje contra
mim? perguntaria o sono, se falasse.
Tu sabes que ele é mudo por
essência. Quando parece que fala é o sonho que abre a boca à pessoa, ele não,
ele é a pedra, e ainda a pedra fala, se lhe batem, como estão fazendo agora os
calceteiros da minha rua. Cada pancada acorda na pedra um som, e a regularidade
do gesto torna aquele som tão pontual que parece a alma de um relógio. Vozes de
conversa ou de pregão, rodas de carro, passos de gente, uma janela batida pelo
vento, nada dessas cousas que ora ouço, animava então a rua e a noite de
Cordovil. Tudo era propício ao sono.
Cordovil ia finalmente
dormir, quando a idéia de amanhecer morto apareceu outra vez. O sono recuou e
fugiu. Esta alternativa durou muito tempo. Sempre que o sono ia a grudar-lhe os
olhos, a lembrança da morte os abria, até que ele sacudiu o lençol e saiu da
cama. Abriu uma janela e encostou-se ao peitoril. O céu queria clarear, alguns
vultos iam passando na rua, trabalhadores e mercadores que desciam para o
centro da cidade. Cordovil sentiu um arrepio; não sabendo se era frio ou medo,
foi vestir um camisão de chita, e voltou para a janela. Parece que era frio,
porque não sentia mais nada.
A gente continuava a passar,
o céu a clarear, um assobio da estrada de ferro deu sinal de trem que ia
partir. Homens e cousas vinham do descanso, o céu fazia economia de estrelas,
apagando-as à medida que o sol ia chegando para o seu ofício. Tudo dava idéia
de vida. Naturalmente a idéia da morte foi recuando e desapareceu de todo,
enquanto o nosso homem, que suspirou por ela no Cassino, que a desejou para o
dia seguinte na Câmara dos Deputados, que a encarou no carro, voltou-lhe as
costas quando a viu entrar com o sono, seu irmão mais velho, -- ou mais moço
não sei.
Quando veio a falecer, muitos
anos depois, pediu e teve a morte, não súbita, mas vagarosa, a morte de um
vinho filtrado, que sai impuro de uma garrafa para entrar purificado em outra;
a borra iria; para o cemitério. Agora é que lhe via a filosofia; em ambas as
garrafas era sempre o vinho que ia ficando, até passar inteiro e pingado para a
segunda. Morte súbita não acabava de entender o que era.
UM CAPITÃO DE VOLUNTÁRIOS
UM CAPITÃO DE VOLUNTÁRIOS
Indo a embarcar para a
Europa, logo depois da proclamação da República, Simão de Castro fez inventário
das cartas e apontamentos; rasgou tudo. Só lhe ficou a narração que ides ler;
entregou-a a um amigo para imprimi-la quando ele estivesse barra fora. O amigo
não cumpriu a recomendação por achar na história alguma cousa que podia ser
penosa, e assim lho disse em carta. Simão respondeu que estava por tudo o que
quisesse; não tendo vaidades literárias, pouco se lhe dava de vir ou não a
público. Agora que os dous faleceram, e não há igual escrúpulo, dá-se o
manuscrito ao prelo. Éramos dous, elas duas. Os dous íamos ali por visita,
costume, desfastio, e finalmente por amizade. Fiquei amigo do dono da casa, ele
meu amigo. As tardes, sobre o jantar, -- jantava-se cedo em 1866, -- ia ali
fumar um charuto. O sol ainda entrava pela janela, onde se via um morro com
casas em cima. A janela oposta dava para o mar. Não digo a rua nem o bairro; a
cidade posso dizer que era o Rio de Janeiro. Ocultarei o nome do meu amigo,
ponhamos uma letra, X... Ela, uma delas, chamava-se Maria.
Quando eu entrava, já ele
estava na cadeira de balanço. Os móveis da sala eram poucos, os ornatos raros,
tudo simples. X... estendia-me a mão larga e forte; eu ia sentar-me ao pé da
janela, olho na sala, olho na rua. Maria, ou já estava ou vinha de dentro.
Éramos nada um para o outro; ligava-nos unicamente a afeição de X...
Conversávamos; eu saía para casa ou ia passear, eles ficavam e iam dormir.
Algumas vezes jogávamos cartas, às noites, e, para o fim do tempo, era ali que
eu passava a maior parte destas.
Tudo em X... me dominava. A
figura primeiro. Ele robusto, eu franzino; a minha graça feminina, débil,
desaparecia ao pé do garbo varonil dele, dos seus ombros largos, cadeiras
largas, jarrete forte e o pé sólido que, andando, batia rijo no chão. Dai-me um
bigode escasso e fino; vede nele as suíças longas, espessas e encaracoladas, e
um dos seus gestos habituais, pensando ou escutando, era passar os dedos por
elas, encaracolando-as sempre. Os olhos completavam a figura, não só por serem
grandes e belos, mas porque riam mais e melhor que a boca. Depois da figura, a
idade; X... era homem de quarenta anos, eu não passava dos vinte e quatro.
Depois da idade, a vida; ele vivera muito, em outro meio, donde saíra a
encafuar-se naquela casa, com aquela senhora, eu não vivera nada nem com pessoa
alguma. Enfim, -- e este rasgo é capital, -- havia nele uma fibra castelhana,
uma gota do sangue que circula nas páginas de Calderón, uma atitude moral que
posso comparar, sem depressão nem riso, à do herói de Cervantes.
Como se tinham amado? Datava
de longe. Maria contava já vinte e sete anos, e parecia haver recebido alguma
educação. Ouvi que o primeiro encontro fora em um baile de máscaras, no antigo
Teatro Provisório. Ela trajava uma saia curta, e dançava ao som de um pandeiro.
Tinha os pés admiráveis, e foram eles ou o seu destino a causa do amor de X...
Nunca lhe perguntei a origem da aliança; sei só que ela tinha uma filha, que
estava no colégio e não vinha à casa; a mãe é que ia vê-la. Verdadeiramente as
nossas relações eram respeitosas, e o respeito ia ao ponto de aceitar a
situação sem a examinar.
Quando comecei a ir ali, não
tinha ainda o emprego no banco. Só dous ou três meses depois é que entrei para
este, e não interrompi as relações. Maria tocava piano; às vezes, ela e a amiga
Raimunda conseguiam arrastar X... ao teatro; eu ia com eles. No fim, tomávamos
chá em sala particular, e, uma ou outra vez, se havia lua, acabávamos a noite
indo de carro a Botafogo.
A estas festas não ia
Barreto, que só mais tarde começou a freqüentar a casa. Entretanto, era bom
companheiro, alegre e rumoroso. Uma noite, como saíssemos de lá, encaminhou a
conversa para as duas mulheres, e convidou-me a namorá-las.
-- Tu escolhes uma, Simão, eu
outra.
Estremeci e parei.
-- Ou antes, eu já escolhi,
continuou ele, escolhi a Raimunda. Gosto muito da Raimunda. Tu, escolhe a
outra.
-- A Maria?
-- Pois que outra há de ser?
O alvoroço que me deu este
tentador foi tal que não achei palavra de recusa, nem palavra nem gesto. Tudo
me pareceu natural e necessário. Sim, concordei em escolher Maria; era mais
velha que eu três anos, mas tinha a idade conveniente para ensinar-me a amar.
Está dito, Maria. Deitamo-nos às duas conquistas com ardor e tenacidade.
Barreto não tinha que vencer muito; a eleita dele não trazia amores, mas até
pouco antes padecera de uns que rompera contra a vontade, indo o amante casar
com uma moça de Minas. Depressa se deixou consolar. Barreto um dia, estando eu
a almoçar, veio anunciar-me que recebera uma carta dela, e mostrou-ma.
-- Estão entendidos?
-- Estamos. E vocês?
-- Eu não.
-- Então quando?
-- Deixa ver, eu te digo.
Naquele dia fiquei meio
vexado. Com efeito, apesar da melhor vontade deste mundo, não me atrevia a
dizer a Maria os meus sentimentos. Não suponhas que era nenhuma paixão. Não
tinha paixão, mas curiosidade. Quando a via esbelta e fresca, toda calor e vida,
sentia-me tomado de uma força nova e misteriosa; mas, por um lado, não amara
nunca, e, por outro, Maria era a companheira de meu amigo. Digo isto, não para
explicar escrúpulos, mas unicamente para fazer compreender o meu acanhamento.
Viviam juntos desde alguns anos, um para o outro. X... tinha confiança em mim,
confiança absoluta, comunicava-me os seus negócios, contava-me cousas da vida
passada. Apesar da desproporção da idade, éramos como estudantes do mesmo ano.
Como entrasse a pensar mais
constantemente em Maria, é provável que por algum gesto lhe houvesse descoberto
o meu recente estado, certo é que, um dia, ao apertar-lhe a mão, senti que os
dedos dela se demoravam mais entre os meus. Dous dias depois, indo ao correio,
encontrei-a selando uma carta para a Bahia. Ainda não disse que era baiana? Era
baiana. Ela é que me viu primeiro e me falou. Ajudei-lhe a pôr o selo e
despedimo-nos. À porta ia a dizer alguma cousa, quando vi ante nós, parada, a
figura de X...
-- Vim trazer a carta para
mamãe, apressou-se ela em dizer.
Despediu-se de nós e foi para
casa; ele e eu tomamos outro rumo. X... aproveitou a ocasião para fazer muitos
elogios de Maria. Sem entrar em minudências acerca da origem das relações,
assegurou-me que fora uma grande paixão igual em ambos, e concluiu que tinha a
vida feita.
-- Já agora não me caso; vivo
maritalmente com ela, morrerei com ela. Tenho uma só pena, é ser obrigado a
viver separado de minha mãe. Minha mãe sabe, disse-me ele parando. E continuou
andando: sabe, e até já me fez uma alusão muito vaga e remota, mas que eu
percebi. Consta-me que não desaprova; sabe que Maria é séria e boa, e uma vez
que eu seja feliz, não exige mais nada. O casamento não me daria mais que
isto...
Disse muitas outras cousas,
que eu fui ouvindo sem saber de mim; o coração batia-me rijo, e as pernas
andavam frouxas. Não atinava com resposta idônea; alguma palavra que soltava,
saía-me engasgada. Ao cabo de algum tempo, ele notou o meu estado e
interpretou-o erradamente; supôs que as suas confidências me aborreciam, e
disse-mo rindo. Contestei sério:
-- Ao contrário, ouço com
interesse, e trata-se de pessoas de toda a consideração e respeito.
Penso agora que cedia
inconscientemente a uma necessidade de hipocrisia. A idade das paixões é
confusa, e naquela situação não posso discernir bem os sentimentos e suas
causas. Entretanto, não é fora de propósito que buscasse dissipar no ânimo de
X... qualquer possível desconfiança. A verdade é que ele me ouviu agradecido.
Os seus grandes olhos de criança envolveram-me todo, e quando nos despedimos,
apertou-me a mão com energia. Creio até que lhe ouvi dizer:
"Obrigado!"
Não me separei dele aterrado,
nem ferido de remorsos prévios. A primeira impressão da confidência esvaiu-se,
ficou só a confidência, e senti crescer-me o alvoroço da curiosidade. X...
falara-me de Maria como de pessoa casta e conjugal; nenhuma alusão às suas
prendas físicas, mas a minha idade dispensava qualquer referência direta.
Agora, na rua, via de cor a figura da moça, os seus gestos igualmente lânguidos
e robustos, e cada vez me sentia mais fora de mim. Em casa escrevi-lhe uma
carta longa e difusa, que rasguei meia hora depois, e fui jantar. Sobre o
jantar fui à casa de X...
Eram ave-marias. Ele estava
na cadeira de balanço, eu sentei-me no lugar do costume, olho na sala, olho no
morro. Maria apareceu tarde, depois das horas, e tão anojada que não tomou
parte na conversação. Sentou-se e cochilou; depois tocou um pouco de piano e
saiu da sala.
-- Maria acordou hoje com a
mania de colher donativos para a guerra, disse-me ele. Já lhe fiz notar que nem
todos quererão parecer que... Você sabe... A posição dela... Felizmente, a
idéia há de passar; tem dessas fantasias...
-- E por que não?
-- Ora, porque não! E depois,
a guerra do Paraguai, não digo que não seja como todas as guerras, mas,
palavra, não me entusiasma. A princípio, sim, quando o López tomou o Marquês de
Olinda, fiquei indignado; logo depois perdi a impressão, e agora, francamente,
acho que tínhamos feito muito melhor se nos aliássemos ao López contra os
argentinos.
-- Eu não. Prefiro os
argentinos.
-- Também gosto deles, mas,
no interesse da nossa gente, era melhor ficar com o López.
-- Não; olhe, eu estive quase
a alistar-me como voluntário da pátria.
-- Eu, nem que me fizessem
coronel, não me alistava.
Ele disse não sei que mais.
Eu, como tinha a orelha afiada, à escuta dos pés de Maria, não respondi logo,
nem claro, nem seguido; fui engrolando alguma palavra e sempre à escuta. Mas o
diabo da moça não vinha; imaginei que estariam arrufados. Enfim, propus cartas,
podíamos jogar uma partida de voltarete.
-- Podemos, disse ele.
Passamos ao gabinete. X...
pôs as cartas na mesa e foi chamar a amiga. Dali ouvi algumas frases
sussurradas, mas só estas me chegaram claras:
-- Vem! é só meia hora.
-- Que maçada! Estou doente.
Maria apareceu no gabinete,
bocejando. Disse-me que era só meia hora; tinha dormido mal, doía-lhe a cabeça
e contava deitar-se cedo. Sentou-se enfastiada, e começamos a partida. Eu
arrependia-me de haver rasgado a carta; lembrava-me alguns trechos dela, que
diriam bem o meu estado, com o calor necessário a persuadi-la. Se a tenho
conservado, entregava-lhe agora; ela ia muita vez ao patamar da escada
despedir-se de mim e fechar a cancela. Nessa ocasião podia dar-lha; era uma
solução da minha crise.
Ao cabo de alguns minutos,
X... levantou-se para ir buscar tabaco de uma caixa de folha-de-flandres, posta
sobre a secretária. Maria fez então um gesto que não sei como diga nem pinte.
Ergueu as cartas à altura dos olhos para os tapar, voltou-os para mim que lhe
ficava à esquerda, e arregalou-os tanto e com tal fogo e atração, que não sei
como não entrei por eles. Tudo foi rápido. Quando ele voltou fazendo um
cigarro, Maria tinha as cartas embaixo dos olhos, abertas em leque, fitando-as
como se calculasse. Eu devia estar trêmulo; não obstante, calculava também, com
a diferença de não poder falar. Ela disse então com placidez uma das palavras
do jogo, passo ou licença.
Jogamos cerca de uma hora.
Maria, para o fim, cochilava literalmente, e foi o próprio X... que lhe disse
que era melhor ir descansar. Despedi-me e passei ao corredor, onde tinha o
chapéu e a bengala. Maria, à porta da sala, esperava que eu saísse e
acompanhou-me até à cancela, para fechá-la. Antes que eu descesse, lançou-me um
dos braços ao pescoço, chegou-me a si, colou-me os lábios nos lábios, onde eles
me depositaram um beijo grande, rápido e surdo. Na mão senti alguma coisa.
-- Boa noite, disse Maria
fechando a cancela.
Não sei como não caí. Desci
atordoado, com o beijo na boca, os olhos nos dela, e a mão apertando
instintivamente um objeto. Cuidei de me pôr longe. Na primeira rua, corri a um
lampião, para ver o que trazia. Era um cartão de loja de fazendas, um anúncio,
com isto escrito nas costas, a lápis: "Espere-me amanhã, na ponte das
barcas de Niterói, a uma hora da tarde".
O meu alvoroço foi tamanho
que durante os primeiros minutos não soube absolutamente o que fiz. Em verdade,
as emoções eram demasiado grandes e numerosas, e tão de perto seguidas que eu
mal podia saber de mim. Andei até ao Largo de S. Francisco de Paula. Tornei a
ler o cartão; arrepiei caminho, novamente parei, e uma patrulha que estava
perto talvez desconfiou dos meus gestos. Felizmente, a respeito da comoção,
tinha fome e fui cear ao Hotel dos Príncipes. Não dormi antes da madrugada; às
seis horas estava em pé. A manhã foi lenta como as agonias lentas. Dez minutos
antes de uma hora cheguei à ponte; já lá achei Maria, envolvida numa capa, e
com um véu azul no rosto. Ia sair uma barca, entramos nela.
O mar acolheu-nos bem. A hora
era de poucos passageiros. Havia movimento de lanchas, de aves, e o céu
luminoso parecia cantar a nossa primeira entrevista. O que dissemos foi tão de
atropelo e confusão que não me ficou mais de meia dúzia de palavras, e delas
nenhuma foi o nome de X... ou qualquer referência a ele. Sentíamos ambos que
traíamos eu o meu amigo, ela o seu amigo e protetor. Mas, ainda que o não
sentíssemos, não é provável que falássemos dele, tão pouco era o tempo para o
nosso infinito. Maria apareceu-me então como nunca a vi nem suspeitara falando
de mim e de si, com a ternura possível naquele lugar público, mas toda a
possível, não menos. As nossas mãos colavam-se, os nossos olhos comiam-se e os
corações batiam provavelmente ao mesmo compasso rápido e rápido. Pelo menos foi
a sensação com que me separei dela, após a viagem redonda a Niterói e S.
Domingos. Convidei-a a desembarcar em ambos os pontos, mas recusou; na volta,
lembrei-lhe que nos metêssemos numa caleça fechada: "Que idéia faria de
mim?" perguntou-me com gesto de pudor que a transfigurou. E despedimo-nos
com prazo dado, jurando-lhe que eu não deixaria de ir vê-los, à noite, como de
costume.
Como eu não tomei da pena
para narrar a minha felicidade, deixo a parte deliciosa da aventura, com as
suas entrevistas, cartas e palavras, e mais os sonhos e esperanças, as
infinitas saudades e os renascentes desejos. Tais aventuras são como os
almanaques, que, com todas as suas mudanças, hão de trazer os mesmos dias e meses,
com os seus eternos nomes e santos. O nosso almanaque apenas durou um
trimestre, sem quartos minguantes nem ocasos de sol. Maria era um modelo de
graças finas, toda vida, toda movimento. Era baiana, como disse, fora educada
no Rio Grande do Sul, na campanha, perto da fronteira. Quando lhe falei do seu
primeiro encontro com X... no Teatro Provisório, dançando ao som de um
pandeiro, disse-me que era verdade, fora ali vestida à castelhana e de máscara;
e, como eu lhe pedisse a mesma cousa, menos a máscara, ou um simples lundu
nosso, respondeu-me como quem recusa um perigo:
-- Você poderia ficar doudo.
-- Mas X... não ficou doudo.
-- Ainda hoje não está no seu
juízo, replicou Maria rindo. Imagina que eu fazia isto só...
E em pé, num maneio rápido,
deu uma volta ao corpo, que me fez ferver o sangue.
O trimestre acabou depressa,
como os trimestres daquela casta. Maria faltou um dia à entrevista. Era tão
pontual que fiquei tonto quando vi passar a hora. Cinco, dez, quinze minutos;
depois vinte, depois trinta, depois quarenta... Não digo as vezes que andei de
um lado para outro, na sala, no corredor, à espreita e à escuta, até que de
todo passou a possibilidade de vir. Poupo a notícia do meu desespero, o tempo
que rolei no chão, falando, gritando ou chorando. Quando cansei, escrevi-lhe
uma longa carta; esperei que me escrevesse também, explicando a falta. Não
mandei a carta, e à noite fui à casa deles.
Maria pôde explicar-me a
falta pelo receio de ser vista e acompanhada por alguém que a perseguia desde
algum tempo. Com efeito, haviam-me já falado em não sei que vizinho que a
cortejava com instância; uma vez disse-me que ele a seguira até à porta da
minha casa. Acreditei na razão, e propus-lhe outro lugar de encontro, mas não
lhe pareceu conveniente. Desta vez achou melhor suspendermos as nossas
entrevistas, até fazer calar as suspeitas. Não sairia de casa. Não compreendi
então que a principal verdade era ter cessado nela o ardor dos primeiros dias.
Maria era outra, principalmente outra. E não podes imaginar o que vinha a ser
essa bela criatura, que tinha em si o fogo e o gelo, e era mais quente e mais
fria que ninguém.
Quando me entrou a convicção
de que tudo estava acabado, resolvi não voltar lá, mas nem por isso perdia a
esperança; era para mim questão de esforço. A imaginação, que torna presentes
os dias passados, fazia-me crer facilmente na possibilidade de restaurar as
primeiras semanas. Ao cabo de cinco dias, voltei; não podia viver sem ela.
X... recebeu-me com o seu
grande riso infante, os olhos puros, a mão forte e sincera; perguntou a razão
da minha ausência. Aleguei uma febrezinha, e, para explicar o enfadamento que
eu não podia vencer, disse que ainda me doía a cabeça. Maria compreendeu tudo;
nem por isso se mostrou meiga ou compassiva, e, à minha saída, não foi até ao
corredor, como de costume.
Tudo isto dobrou a minha
angústia. A idéia de morrer entrou a passar-me pela cabeça; e, por uma simetria
romântica, pensei em meter-me na barca de Niterói, que primeiro acolheu os
nossos amores, e, no meio da baía, atirar-me ao mar. Não iniciei tal plano nem
outro. Tendo encontrado casualmente o meu amigo Barreto, não vacilei em lhe
dizer tudo; precisava de alguém para falar comigo mesmo. No fim pedi-lhe
segredo; devia pedir-lhe especialmente que não contasse nada a Raimunda. Nessa
mesma noite ela soube tudo. Raimunda era um espírito aventureiro, amigo de
entrepresas e novidades. Não se lhe dava, talvez, de mim nem da outra, mas viu
naquilo um lance, uma ocupação, e cuidou em reconciliar-nos; foi o que eu soube
depois, e é o que dá lugar a este papel.
Falou-lhe uma e mais vezes.
Maria quis negar a princípio, acabou confessando tudo, dizendo-se arrependida
da cabeçada que dera. Usaria provavelmente de circunlóquios e sinônimos, frases
vagas e truncadas, alguma vez empregaria só gestos. O texto que aí fica é o da
própria Raimunda, que me mandou chamar à casa dela e me referiu todos os seus
esforços, contente de si mesma.
-- Mas não perca as
esperanças, concluiu; eu disse-lhe que o senhor era capaz de matar-se.
-- E sou.
-- Pois não se mate por ora;
espere.
No dia seguinte vi nos
jornais uma lista de cidadãos que, na véspera tinham ido ao quartel-general
apresentar-se como voluntários da pátria, e nela o nome de X..., com o posto de
capitão. Não acreditei logo; mas eram os mesmos, na mesma ordem, e uma das
folhas fazia referências à família de X..., ao pai, que fora oficial de
marinha, e à figura esbelta e varonil do novo capitão; era ele mesmo.
A minha primeira impressão
foi de prazer; íamos ficar sós. Ela não iria de vivandeira para o Sul. Depois,
lembrou-me o que ele me disse acerca da guerra, e achei estranho o seu
alistamento de voluntário, ainda que o amor dos atos generosos e a nota
cavalheiresca do espírito de X... pudessem explicá-lo. Nem de coronel iria,
disse-me, e agora aceitava o posto de capitão. Enfim, Maria; como é que ele,
que tanto lhe queria, ia separar-se dela repentinamente, sem paixão forte que o
levasse à guerra?
Havia três semanas que eu não
ia à casa deles. A notícia do alistamento justificava a minha visita imediata e
dispensava-me de explicações. Almocei e fui. Compus um rosto ajustado à
situação e entrei. X... veio à sala, depois de alguns minutos de espera. A cara
desdizia das palavras; estas queriam ser alegres e leves, aquela era fechada e
torva, além de pálida. Estendeu-me a mão, dizendo:
-- Então, vem ver o capitão
de voluntários?
-- Venho ouvir o desmentido.
-- Que desmentido? É pura
verdade. Não sei como isto foi, creio que as últimas notícias... Você por que
não vem comigo?
-- Mas então é verdade?
-- É.
Após alguns instantes de
silêncio, meio sincero, por não saber realmente que dissesse, meio calculado,
para persuadi-lo da minha consternação, murmurei que era melhor não ir, e
falei-lhe na mãe. X... respondeu-me que a mãe aprovava; era viúva de militar.
Fazia esforços para sorrir, mas a cara continuava a ser de pedra. Os olhos
buscavam desviar-se, e geralmente não fitavam bem nem longo. Não conversamos
muito; ele ergueu-se, alegando que ia liquidar um negócio, e pediu-me que
voltasse a vê-lo. À porta, disse-me com algum esforço:
-- Venha jantar um dia
destes, antes da minha partida.
-- Sim.
-- Olhe, venha jantar amanhã.
-- Amanhã?
-- Ou hoje, se quiser
-- Amanhã.
Quis deixar lembranças a
Maria; era natural e necessário, mas faltou-me o ânimo. Embaixo arrependi-me de
o não ter feito. Recapitulei a conversação, achei-me atado e incerto; ele
pareceu-me, além de frio, sobranceiro. Vagamente, senti alguma cousa mais. O
seu aperto de mão tanto à entrada, como à saída, não me dera a sensação do
costume.
Na noite desse dia. Barreto
veio ter comigo, atordoado com a notícia da manhã, e perguntando-me o que
sabia; disse-lhe que nada. Contei-lhe a minha visita da manhã, a nossa
conversação, sem as minhas suspeitas.
-- Pode ser engano, disse
ele, depois de um instante
-- Engano?
-- Raimunda contou-me hoje
que falara a Maria, que esta negara tudo a princípio, depois confessara, e
recusara reatar as relações com você.
-- Já sei.
-- Sim, mas parece que da
terceira vez foram pressentidas e ouvidas por ele, que estava na saleta ao pé.
Maria correu a contar a Raimunda que ele mudara inteiramente; esta dispôs-se a
sondá-lo, eu opus-me, até que li a notícia nos jornais. Vi-o na rua, andando:
não tinha aquele gesto sereno de costume, mas o passo era forte.
Fiquei aturdido com a
notícia, que confirmava a minha impressão. Nem por isso deixei de ir lá jantar
no dia seguinte. Barreto quis ir também; percebi que era com o fim único de
estar comigo, e recusei.
X... não dissera nada a
Maria; achei-os na sala, e não me lembro de outra situação na vida em que me
sentisse mais estranho a mim mesmo. Apertei-lhes a mão, sem olhar para ela.
Creio que ela também desviou os olhos. Ele é que, com certeza, não nos
observou; riscava um fósforo e acendia um cigarro. Ao jantar falou o mais
naturalmente que pôde, ainda que frio. O rosto exprimia maior esforço que na
véspera. Para explicar a possível alteração, disse-me que embarcaria no fim da
semana, e que, à proporção que a hora ia chegando, sentia dificuldade em sair.
--Mas é só até fora da barra;
lá fora torno a ser o que sou, e na campanha, serei o que devo ser.
Usava dessas palavras
rígidas, alguma vez enfáticas. Notei que Maria trazia os olhos pisados, soube
depois que chorara muito e tivera grande luta com ele, na véspera, para que não
embarcasse. Só conhecera a resolução pelos jornais, prova de alguma cousa mais
particular que o patriotismo. Não falou à mesa, e a dor podia explicar o
silêncio, sem nenhuma outra causa de constrangimento pessoal. Ao contrário,
X... procurava falar muito, contava os batalhões, os oficiais novos, as
probabilidades de vitória, e referia anedotas e boatos, sem curar de ligação.
Às vezes, queria rir; para o fim, disse que naturalmente voltaria general, mas
ficou tão carrancudo depois deste gracejo, que não tentou outro. O jantar
acabou frio; fumamos, ele ainda quis falar da guerra, mas o assunto estava
exausto. Antes de sair, convidei-o a ir jantar comigo.
--Não posso; todos os meus
dias estão tomados.
--Venha almoçar.
--Também não posso. Faço uma
cousa; na volta do Paraguai, o terceiro dia é seu.
Creio ainda hoje que o fim
desta última frase era indicar que os dous primeiros dias seriam da mãe e de
Maria; assim, qualquer suspeita que eu tivesse dos motivos secretos da
resolução, devia dissipar-se. Nem bastou isso; disse-me que escolhesse uma
prenda em lembrança, um livro, por exemplo. Preferi o seu último retrato,
fotografado a pedido da mãe, com a farda de capitão de voluntários. Por
dissimulação, quis que assinasse; ele prontamente escreveu: "Ao seu leal
amigo Simão de Castro oferece o capitão de voluntários da pátria X..." O
mármore do rosto era mais duro, o olhar mais torvo; passou os dedos pelo
bigode, com um gesto convulso, e despedimo-nos.
No sábado embarcou. Deixou a
Maria os recursos necessários para viver aqui, na Bahia, ou no Rio Grande do
Sul; ela preferiu o Rio Grande, e partiu para lá, três semanas depois, a
esperar que ele voltasse da guerra. Não a pude ver antes; fechara-me a porta,
como já me havia fechado o rosto e o coração.
Antes de um ano, soube-se que
ele morrera em combate, no qual se houve com mais denodo que perícia. Ouvi
contar que primeiro perdera um braço, e que provavelmente a vergonha de ficar aleijado
o fez atirar-se contra as armas inimigas, como quem queria acabar de vez. Esta
versão podia ser exata, porque ele tinha desvanecimentos das belas formas; mas
a causa foi complexa. Também me contaram que Maria, voltando do Rio Grande,
morreu em Curitiba; outros dizem que foi acabar em Montevidéu. A filha não
passou dos quinze anos.
Eu cá fiquei entre os meus remorsos e saudades; depois, só remorsos; agora admiração apenas, uma admiração particular, que não é grande senão por me fazer sentir pequeno. Sim, eu não era capaz de praticar o que ele praticou. Nem efetivamente conheci ninguém que se parecesse com X... E por que teimar nesta letra? Chamemo-lo pelo nome que lhe deram na pia, Emílio, o meigo, o forte, o simples Emílio.
SUJE-SE, GORDO!
UMA NOITE, há muitos anos, passeava eu com um amigo no terraço do Teatro de S. Pedro de Alcântara. Era entre o segundo e o terceiro ato da peça A Sentença ou o Tribunal do Júri. Só me ficou o título, e foi justamente o título que nos levou a falar da instituição e de um fato que nunca mais me esqueceu.
-- Fui sempre contrário ao
júri,-- disse-me aquele amigo, não pela instituição em si, que é liberal, mas
porque me repugna condenar alguém, e por aquele preceito do Evangelho;
"Não queirais julgar para que não sejais julgados". Não obstante,
servi duas vezes. O tribunal era então no antigo Aljube, fim da Rua dos
Ourives, princípio da Ladeira da Conceição.
Tal era o meu escrúpulo que,
salvo dous, absolvi todos os réus. Com efeito, os crimes não me pareceram provados;
um ou dous processos eram mal feitos. O primeiro réu que condenei, era um moço
limpo, acusado de haver furtado certa quantia, não grande, antes pequena, com
falsificação de um papel. Não negou o fato, nem podia fazê-lo, contestou que
lhe coubesse a iniciativa ou inspiração do crime. Alguém, que não citava, foi
que lhe lembrou esse modo de acudir a uma necessidade urgente; mas Deus, que
via os corações, daria ao criminoso verdadeiro o merecido castigo. Disse isso
sem ênfase, triste, a palavra surda. os olhos mortos, com tal palidez que metia
pena; o promotor público achou nessa mesma cor do gesto a confissão do crime.
Ao contrário, o defensor mostrou que o abatimento e a palidez significavam a
lástima da inocência caluniada.
Poucas vezes terei assistido
a debate tão brilhante. O discurso do promotor foi curto, mas forte, indignado,
com um tom que parecia ódio, e não era. A defesa, além do talento do advogado,
tinha a circunstância de ser a estréia dele na tribuna. Parentes, colegas e
amigos esperavam o primeiro discurso do rapaz, e não perderam na espera. O
discurso foi admirável, e teria salvo o réu, se ele pudesse ser salvo, mas o
crime metia-se pelos olhos dentro. O advogado morreu dous anos depois, em 1865.
Quem sabe o que se perdeu nele! Eu, acredite, quando vejo morrer um moço de
talento, sinto mais que quando morre um velho... Mas vamos ao que ia contando.
Houve réplica do promotor e tréplica do defensor. O presidente do tribunal
resumiu os debates, e, lidos os quesitos, foram entregues ao presidente do
Conselho, que era eu.
Um dos jurados do Conselho,
cheio de corpo e ruivo, parecia mais que lá se passou, não interessa ao caso
particular, que era melhor ficasse também calado, confesso. Cantarei depressa;
o terceiro ato não tarda.
Um dos jurados do Conselho,
cheio de corpo e ruivo, parecia mais que ninguém convencido do delito e do
delinqüente. O processo foi examinado, os quesitos lidos' e as respostas dadas
(onze votos contra um); só o jurado ruivo estava inquieto. No fim' como os
votos assegurassem a condenação, ficou satisfeito, disse que seria um ato de
fraqueza, ou cousa pior, a absolvição que lhe déssemos. Um dos jurados,
certamente o que votara pela negativa,-- proferiu algumas palavras de defesa do
moço. O ruivo,-- chamava-se Lopes,-- replicou com aborrecimento:
-- Como, senhor? Mas o crime
do réu está mais que provado.
-- Deixemos de debate, disse
eu, e todos concordaram comigo.
-- Não estou debatendo, estou
defendendo o meu voto' continuou Lopes. O crime está mais que provado.
O sujeito nega, porque todo o
réu nega, mas o certo é que ele cometeu a falsidade, e que falsidade! Tudo por
uma miséria' duzentos mil-réis! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se gordo!
"Suje-se gordo!"
Confesso-lhe que fiquei de boca aberta, não que entendesse a frase, ao
contrário, nem a entendi nem a achei limpa, e foi por isso mesmo que fiquei de
boca aberta. Afinal caminhei e bati à porta, abriram-nos, fui à mesa do juiz,
dei as respostas do Conselho e o réu saiu condenado. O advogado apelou; se a
sentença foi confirmada ou a apelação aceita, não sei; perdi o negócio de
vista.
Quando saí do tribunal, vim
pensando na frase do Lopes, e pareceu-me entendê-la. "Suje-se gordo!"
era como se dissesse que o condenado era mais que ladrão, era um ladrão reles,
um ladrão de nada. Achei esta explicação na esquina da Rua de S. Pedro- vinha
ainda pela dos Ourives. Cheguei a desandar um pouco, a ver se descobria o Lopes
para lhe apertar a mão; nem sombra de Lopes. No dia seguinte, lendo nos jornais
os nossos nomes, dei com o nome todo dele, não valia a pena procurá-lo, nem me
ficou de cor. Assim são as páginas da vida, como dizia meu filho quando fazia
versos, e acrescentava que as páginas vão passando umas sobre outras,
esquecidas apenas lidas. Rimava assim, mas não me lembra a forma dos versos.
Em prosa disse-me ele, muito
tempo depois, que eu não devia faltar ao júri, para o qual acabava de ser
designado. Respondi-lhe que não compareceria, e citei o preceito evangélico;
ele teimou, dizendo ser um dever de cidadão, um serviço gratuito, que ninguém
que se prezasse podia negar ao seu país. Fui e julguei três processos.
Um destes era de um empregado
do Banco do Trabalho Honrado, o caixa, acusado de um desvio de dinheiro. Ouvira
falar no caso, que os jornais deram sem grande minúcia, e aliás eu lia pouco as
notícias de crimes. O acusado apareceu e foi sentar-se no famoso banco dos
réus. Era um homem magro e ruivo. Fitei-o bem, e estremeci, pareceu-me ver o
meu colega daquele julgamento de anos antes. Não poderia reconhecê-lo logo por
estar agora magro, mas era a mesma cor dos cabelos e das barbas, o mesmo ar, e
por fim a mesma voz e o mesmo nome: Lopes.
-- Como se chama? perguntou o
presidente.
-- Antônio do Carmo Ribeiro
Lopes.
Já me não lembravam os três
primeiros nomes, o quarto era o mesmo, e os outros sinais vieram confirmando as
reminiscências; não me tardou reconhecer a pessoa exata daquele dia remoto.
Digo-lhe aqui com verdade que todas essas circunstâncias me impediram de
acompanhar atentamente o interrogatório, e muitas cousas me escaparam. Quando
me dispus a ouvi-lo bem, estava quase no fim. Lopes negava com firmeza tudo o
que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma complicação ao
processo. Circulava os olhos sem medo nem ansiedade; não sei até se com uma
pontinha de riso nos cantos da boca.
Seguiu-se a leitura do
processo. Era uma falsidade e um desvio de cento e dez contos de réis. Não lhe
digo como se descobriu o crime nem o criminoso, por já ser tarde; a orquestra
está afinando os instrumentos. O que lhe digo com certeza é que a leitura dos
autos me impressionou muito, o inquérito, os documentos, a tentativa de fuga do
caixa e uma série de circunstancias agravantes, por fim o depoimento das
testemunhas. Eu ouvia ler ou falar e olhava para o Lopes. Também ele ouvia, mas
com o rosto alto, mirando o escrivão o presidente. o tecto e as pessoas que o
iam julgar; entre elas eu.
Quando olhou para mim não me
reconheceu; fitou-me algum tempo e sorriu, como fazia aos outros.
Todos esses gestos do homem
serviram à acusação e à defesa, tal como serviram, tempos antes, os gestos
contrários do outro acusado. O promotor achou neles a revelação clara do
cinismo, o advogado mostrou que só a inocência e a certeza da absolvição podiam
trazer aquela paz de espírito.
Enquanto os dous oradores
falavam, vim pensando na fatalidade de estar ali, no mesmo banco do outro, este
homem que votara a condenação dele, e naturalmente repeti comigo o texto
evangélico: “Não queirais julgar, para que não sejais julgados".
Confesso-lhe que mais de uma vez me senti frio. Não é que eu mesmo viesse a
cometer algum desvio de dinheiro, mas podia, em ocasião de raiva, matar alguém
ou ser caluniado de desfalque. Aquele que julgava outrora, era agora julgado
também.
Ao pé da palavra bíblica
lembrou-me de repente a do mesmo Lopes: "Suje-se gordo!" Não imagina
o sacudimento que me deu esta lembrança. Evoquei tudo o que contei agora, o
discursinho que lhe ouvi na sala secreta, até àquelas palavras: "Suje-se
gordo!" Vi que não era um ladrão reles, um ladrão de nada, sim de grande
valor. O verbo é que definia duramente a ação. "Suje-se gordo!"
Queria dizer que o homem não se devia levar a um ato daquela espécie sem a
grossura da soma. A ninguém cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se?
Suje-se gordo!
Idéias e palavras iam assim
rolando na minha cabeça, sem eu dar pelo resumo dos debates que o presidente do
tribunal fazia. Tinha acabado, leu os quesitos e recolhemo-nos à sala secreta.
Posso dizer-lhe aqui em particular que votei afirmativamente, tão certo me
pareceu o desvio dos cento e dez contos. Havia, entre outros documentos, uma carta
de Lopes que fazia evidente o crime. Mas parece que nem todos leram com os
mesmos olhos que eu. Votaram comigo dous jurados. Nove negaram a criminalidade
do Lopes, a sentença de absolvição foi lavrada e lida, e o acusado saiu para a
rua. A diferença da votação era tamanha que cheguei a duvidar comigo se teria
acertado. Podia ser que não. Agora mesmo sinto uns repelões de consciência.
Felizmente, se o Lopes não cometeu deveras o crime não recebeu a pena do meu
voto, e esta consideração acaba por me consolar do erro, mas os repelões
voltam. O melhor de tudo é não julgar ninguém para não vir a ser julgado.
Suje-se gordo! suje-se magro! suje-se como lhe parecer! o mais seguro é não
julgar ninguém... Acabou a música, vamos para as nossas cadeiras.
UMAS FÉRIAS
VIERAM DIZER ao mestre-escola que alguém lhe queria falar.
-- Quem é?
-- Diz que meu senhor não o
conhece, respondeu o preto.
-- Que entre.
Houve um movimento geral de
cabeças na direção da porta do corredor, por onde devia entrar a pessoa
desconhecida. Éramos não sei quantos meninos na escola. Não tardou que
aparecesse uma figura rude, tez queimada, cabelos compridos, sem sinal de
pente, a roupa amarrotada, não me lembra bem a cor nem a fazenda, mas
provavelmente era brim pardo. Todos ficaram esperando o que vinha dizer o
homem, eu mais que ninguém, porque ele era meu tio, roceiro, morador em
Guaratiba. Chamava-se tio Zeca.
Tio Zeca foi ao mestre e
falou-lhe baixo. O mestre fê-lo sentar, olhou para mim, e creio que lhe
perguntou alguma cousa, porque tio Zeca entrou a falar demorado, muito
explicativo. O mestre insistiu, ele respondeu, até que o mestre, voltando-se
para mim, disse alto:
-- Sr. José Martins, pode
sair.
A minha sensação de prazer
foi tal que venceu a de espanto. Tinha dez anos apenas, gostava de folgar, não
gostava de aprender. Um chamado de casa, o próprio tio, irmão de meu pai, que
chegara na véspera de Guaratiba, era naturalmente alguma festa, passeio,
qualquer cousa. Corri a buscar o chapéu, meti o livro de leitura no bolso e
desci as escadas da escola, um sobradinho da Rua do Senado. No corredor beijei
a mão a tio Zeca. Na rua fui andando ao pé dele, amiudando os passos, e
levantando a cara. Ele não me dizia nada, eu não me atrevia a nenhuma pergunta.
Pouco depois chegávamos ao colégio de minha irmã Felícia; disse-me que
esperasse, entrou, subiu, desceram, e fomos os três caminho de casa. A minha
alegria agora era maior. Certamente havia festa em casa, pois que íamos os
dous, ela e eu; íamos na frente, trocando as nossas perguntas e conjeturas.
Talvez anos de tio Zeca. Voltei a cara para ele; vinha com os olhos no chão,
provavelmente para não cair.
Fomos andando. Felícia era
mais velha que eu um ano. Calçava sapato raso, atado ao peito do pé por duas
fitas cruzadas, vindo acabar acima do tornozelo com laço. Eu, botins de
cordovão, já gastos. As calcinhas dela pegavam com a fita dos sapatos, as
minhas calças, largas, caíam sobre o peito do pé; eram de chita. Uma ou outra
vez parávamos, ela para admirar as bonecas à porta dos armarinhos, eu para ver,
à porta das vendas, algum papagaio que descia e subia pela corrente de ferro
atada ao pé. Geralmente, era meu conhecido, mas papagaio não cansa em tal
idade. Tio Zeca é que nos tirava do espetáculo industrial ou natural. -- Andem,
dizia ele em voz sumida. E nós andávamos, até que outra curiosidade nos fazia
deter o passo. Entretanto, o principal era a festa que nos esperava em casa.
-- Não creio que sejam anos
de tio Zeca, disse-me Felícia.
-- Por quê?
-- Parece meio triste.
-- Triste, não, parece
carrancudo.
-- Ou carrancudo. Quem faz
anos tem a cara alegre. -- Então serão anos de meu padrinho...
-- Ou de minha madrinha...
-- Mas por que é que mamãe
nos mandou para a escola? -- Talvez não soubesse.
-- Há de haver jantar
grande...
-- Com doce...
-- Talvez dancemos.
Fizemos um acordo: podia ser
festa, sem aniversário de ninguém. A sorte grande, por exemplo. Ocorreu-me
também que podiam ser eleições. Meu padrinho era candidato a vereador; embora
eu não soubesse bem o que era candidatura nem vereação, tanto ouvira falar em
vitória próxima que a achei certa e ganha. Não sabia que a eleição era ao
domingo, e o dia era sexta-feira. Imaginei bandas de música, vivas e palmas, e
nós, meninos, pulando, rindo, comendo cocadas. Talvez houvesse espetáculo à
noite; fiquei meio tonto. Tinha ido uma vez ao teatro, e voltei dormindo, mas
no dia seguinte estava tão contente que morria por lá tornar, posto não houvesse
entendido nada do que ouvira. Vira muita cousa, isto sim, cadeiras ricas,
tronos, lanças compridas, cenas que mudavam à vista, passando de uma sala a um
bosque, e do bosque a uma rua. Depois, os personagens, todos príncipes. Era
assim que chamávamos aos que vestiam calção de seda, sapato de fivela ou botas,
espada, capa de veludo, gorra com pluma. Também houve bailado. As bailarinas e
os bailarinos falavam com os pés e as mãos, trocando de posição e um sorriso
constante na boca. Depois os gritos do público e as palmas...
Já duas vezes escrevi palmas;
é que as conhecia bem. Felícia, a quem comuniquei a possibilidade do
espetáculo, não me pareceu gostar muito, mas também não recusou nada. Iria ao
teatro. E quem sabe se não seria em casa, teatrinho de bonecos? Íamos nessas
conjeturas, quando tio Zeca nos disse que esperássemos; tinha parado a
conversar com um sujeito.
Paramos, à espera. A idéia da
festa, qualquer que fosse, continuou a agitar-nos, mais a mim que a ela.
Imaginei trinta mil cousas, sem acabar nenhuma, tão precipitadas vinham, e tão
confusas que não as distinguia, pode ser até que se repetissem. Felícia chamou
a minha atenção para dous moleques de carapuça encarnada, que passavam
carregando canas, -- o que nos lembrou as noites de Santo Antônio e S. João, já
lá idas. Então falei-lhe das fogueiras do nosso quintal, das bichas que
queimamos, das rodinhas, das pistolas e das danças com outros meninos. Se
houvesse agora a mesma cousa... Ah! lembrou-me que era ocasião de deitar à
fogueira o livro da escola, e o dela também, com os pontos de costura que
estava aprendendo. -- Isso não, acudiu Felícia.
-- Eu queimava o meu livro.
-- Papai comprava outro.
-- Enquanto comprasse, eu
ficava brincando em casa; aprender é muito aborrecido.
Nisto estávamos, quando vimos
tio Zeca e o desconhecido ao pé de nós. O desconhecido pegou-nos nos queixos e
levantou-nos a cara para ele, fitou-nos com seriedade, deixou-nos e
despediu-se.
-- Nove horas? Lá estarei,
disse ele. -- Vamos, disse-nos tio Zeca.
Quis perguntar-lhe quem era
aquele homem, e até me pareceu conhecê-lo vagamente. Felícia também. Nenhum de
nós acertava com a pessoa; mas a promessa de lá estar às nove horas dominou o
resto. Era festa, algum baile, conquanto às nove horas, costumássemos ir para a
cama. Naturalmente, por exceção, estaríamos acordados. Como chegássemos a um
rego de lama, peguei da mão de Felícia, e transpusemo-lo de um salto, tão
violento que quase me caiu o livro. Olhei para tio Zeca, a ver o efeito do
gesto; vi-o abanar a cabeça com reprovação. Ri, ela sorriu, e fomos pela
calçada adiante.
Era o dia dos desconhecidos.
Desta vez estavam em burros, e um dos dous era mulher. Vinham da roça. Tio Zeca
foi ter com eles ao meio da rua, depois de dizer que esperássemos. Os animais
pararam, creio que de si mesmos, por também conhecerem a tio Zeca, idéia que
Felícia reprovou com o gesto, e que eu defendi rindo. Teria apenas meia
convicção; tudo era folgar. Fosse como fosse, esperamos os dous, examinando o
casal de roceiros. Eram ambos magros, a mulher mais que o marido, e também mais
moça; ele tinha os cabelos grisalhos. Não ouvimos o que disseram, ele e tio
Zeca; vimo-lo, sim, o marido olhar para nós com ar de curiosidade, e falar à
mulher, que também nos deitou os olhos, agora com pena ou cousa parecida. Enfim
apartaram-se, tio Zeca veio ter conosco e enfiamos para casa.
A casa ficava na rua próxima,
perto da esquina. Ao dobrarmos esta, vimos os portais da casa forrados de
preto,-- o que nos encheu de espanto. Instintivamente paramos e voltamos a
cabeça para tio Zeca. Este veio a nós, deu a mão a cada um e ia a dizer alguma
palavra que lhe ficou na garganta; andou, levando-nos consigo. Quando chegamos,
as portas estavam meio cerradas. Não sei se lhes disse que era um armarinho. Na
rua, curiosos. Nas janelas fronteiras e laterais, cabeças aglomeradas. Houve
certo rebuliço quando chegamos. É natural que eu tivesse a boca aberta, como
Felícia. Tio Zeca empurrou uma das meias portas, entramos os três, ele tornou a
cerrá-la, meteu-se pelo corredor e fomos à sala de jantar e à alcova.
Dentro, ao pé da cama, estava
minha mãe com a cabeça entre as mãos. Sabendo da nossa chegada, ergueu-se de
salto, veio abraçar-nos entre lágrimas, bradando:
-- Meus filhos, vosso pai
morreu!
A comoção foi grande, por
mais que o confuso e o vago entorpecessem a consciência da notícia. Não tive
forças para andar, e teria medo de o fazer. Morto como? morto por quê? Estas
duas perguntas, se as meto aqui, é para dar seguimento à ação; naquele momento
não perguntei nada a mim nem a ninguém. Ouvi as palavras de minha mãe, se
repetiam em mim, e os seus soluços que eram grandes. Ela pegou em nós e
arrastou-nos para a cama, onde jazia o cadáver do marido; e fez-nos beijar-lhe
a mão. Tão longe estava eu daquilo que, apesar de tudo, não entendera nada a
princípio; a tristeza e o silêncio das pessoas que rodeavam a cama ajudaram a
explicar que meu pai morrera deveras. Não se tratava de um dia santo, com a sua
folga e recreio, não era festa, não eram as horas breves ou longas, para a
gente desfiar em casa, arredada dos castigos da escola. Que essa queda de um
sonho tão bonito fizesse crescer a minha dor de filho não é cousa que possa
afirmar ou negar; melhor é calar. O pai ali estava defunto, sem pulos, nem
danças, nem risadas, nem bandas de música, cousas todas também defuntas. Se me
houvessem dito à saída da escola por que é que me iam lá buscar, é claro que a
alegria não houvera penetrado o coração, donde era agora expelida a punhadas.
O enterro foi no dia seguinte
às nove horas da manhã, e provavelmente lá estava aquele amigo de tio Zeca que
se despediu na rua, com a promessa de ir às nove horas. Não vi as cerimônias;
alguns vultos, poucos, vestidos de preto, lembra-me que vi. Meu padrinho, dono
de um trapiche, lá estava, e a mulher também, que me levou a uma alcova dos
fundos para me mostrar gravuras. Na ocasião da saída, ouvi os gritos de minha
mãe, o rumor dos passos, algumas palavras abafadas de pessoas que pegavam nas
alças do caixão, creio eu:-- "vire de lado,-- mais à esquerda,-- assim,
segure bem..." Depois, ao longe, o coche andando e as seges atrás dele...
Lá iam meu pai e as férias!
Um dia de folga sem folguedo! Não, não foi um dia, mas oito, oito dias de nojo,
durante os quais alguma vez me lembrei do colégio. Minha mãe chorava, cosendo o
luto, entre duas visitas de pêsames. Eu também chorava; não via meu pai às
horas do costume, não lhe ouvia as palavras à mesa ou ao balcão, nem as
carícias que dizia aos pássaros. Que ele era muito amigo de pássaros, e tinha
três ou quatro, em gaiolas. Minha mãe vivia calada. Quase que só falava às
pessoas de fora. Foi assim que eu soube que meu pai morrera de apoplexia. Ouvi
esta notícia muitas vezes; as visitas perguntavam pela causa da morte, e ela
referia tudo, a hora, o gesto, a ocasião: tinha ido beber água, e enchia um
copo, à janela da área. Tudo decorei, à força de ouvi-lo contar.
Nem por isso os meninos do
colégio deixavam de vir espiar para dentro da minha memória. Um deles chegou a
perguntar-me quando é que eu voltaria.
-- Sábado, meu filho, disse
minha mãe, quando lhe repeti a pergunta imaginada; a missa é sexta-feira.
Talvez seja melhor voltar na
segunda.
-- Antes sábado, emendei.
-- Pois sim, concordou.
Não sorria; se pudesse,
sorriria de gosto ao ver que eu queria voltar mais cedo à escola. Mas, sabendo
que eu não gostava de aprender, como entenderia a emenda? Provavelmente,
deu-lhe algum sentido superior, conselho do céu ou do marido. Em verdade, eu
não folgava, se lerdes isto com o sentido de rir. Com o de descansar também não
cabe, porque minha mãe fazia-me estudar, e, tanto como o estudo, aborrecia-me a
atitude. Obrigado a estar sentado, com o livro nas mãos, a um canto ou à mesa,
dava ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava um recurso que recomendo aos
preguiçosos: deixava os olhos na página e abria a porta à imaginação. Corria a
apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os realejos, a bailar com meninas, a
cantar, a rir, a espancar de mentira ou de brincadeira, como for mais claro.
Uma vez, como desse por mim a
andar na sala sem ler, minha mãe repreendeu-me, e eu respondi que estava
pensando em meu pai. A explicação fê-la chorar, e, para dizer tudo, não era
totalmente mentira; tinha-me lembrado o último presentinho que ele me dera, e
entrei a vê-lo com o mimo na mão.
Felícia vivia tão triste como
eu, mas confesso a minha verdade, a causa principal não era a mesma. Gostava de
brincar, mas não sentia a ausência do brinco, não se lhe dava de acompanhar a
mãe, coser com ela e uma vez fui achá-la a enxugar-lhe os olhos. Meio vexado,
pensei em imitá-la, e meti a mão no bolso para tirar o lenço. A mão entrou sem
ternura, e, não achando o lenço, saiu sem pesar. Creio que ao gesto não faltava
só originalidade, mas sinceridade também.
Não me censurem. Sincero fui
longos dias calados e reclusos. Quis uma vez ir para o armarinho, que se abriu
depois do enterro, onde o caixeiro continuou a servir. Conversaria com este,
assistiria à venda de linhas e agulhas, à medição de fitas, iria à porta, à
calçada, à esquina da rua... Minha mãe sufocou este sonho pouco depois dele
nascer. Mal chegara ao balcão, mandou-me buscar pela escrava; lá fui para o
interior da casa e para o estudo. Arrepelei-me, apertei os dedos à guisa de
quem quer dar murro; não me lembra se chorei de raiva.
O livro lembrou-me a escola,
e a imagem da escola consolou-me. Já então lhe tinha grandes saudades. Via de
longe as caras dos meninos, os nossos gestos de troça nos bancos, e os saltos à
saída. Senti cair-me na cara uma daquelas bolinhas de papel com que nos espertávamos
uns aos outros, e fiz a minha e atirei-a ao meu suposto espertador. A bolinha,
como acontecia às vezes, foi cair na cabeça de terceiro, que se desforrou
depressa. Alguns, mais tímidos, limitavam-se a fazer caretas. Não era folguedo
franco, mas já me valia por ele. Aquele degredo que eu deixei tão alegremente
com tio Zeca parecia-me agora um céu remoto, e tinha medo de o perder. Nenhuma
festa em casa, poucas palavras, raro movimento. Foi por esse tempo que eu
desenhei a lápis maior número de gatos nas margens do livro de leitura; gatos e
porcos. Não alegrava, mas distraía.
A missa do sétimo dia
restituiu-me à rua; no sábado não fui a escola, fui à casa de meu padrinho,
onde pude falar um pouco mais, e no domingo estive à porta da loja. Não era alegria
completa. A total alegria foi segunda-feira, na escola. Entrei vestido de
preto, fui mirado com curiosidade, mas tão outro ao pé dos meus condiscípulos,
que me esqueceram as férias sem gosto, e achei uma grande alegria sem férias.
EVOLUÇÃO
CHAMO-ME INÁCIO; ele, Benedito. Não digo o resto dos nossos nomes por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará. Inácio basta. Contentem-se com Benedito. Não é muito, mas é alguma cousa, e está com a filosofia de Julieta: "Que valem nomes, perguntava ela ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, terá sempre o mesmo cheiro." Vamos ao cheiro do Benedito.
E desde logo assentemos que
ele era o menos Romeu deste mundo. Tinha quarenta e cinco anos, quando o
conheci; não declaro em que tempo, porque tudo neste conto há de ser misterioso
e truncado. Quarenta e cinco anos, e muitos cabelos pretos; para os que o não
eram usava um processo químico, tão eficaz que não se lhe distinguiam os pretos
dos outros-- salvo ao levantar da cama; mas ao levantar da cama não aparecia a
ninguém. Tudo mais era natural, pernas, braços, cabeça, olhos, roupa, sapatos,
corrente do relógio e bengala. O próprio alfinete de diamante, que trazia na
gravata, um dos mais lindos que tenho visto, era natural e legítimo, custou-lhe
bom dinheiro; eu mesmo o vi comprar na casa do... Já me ia escapando o nome do
joalheiro;-- fiquemos na Rua do Ouvidor.
Moralmente, era ele mesmo.
Ninguém muda de caráter, e o do Benedito era bom,-- ou para melhor dizer,
pacato. Mas, intelectualmente, é que ele era menos original. Podemos compará-lo
a uma hospedaria bem afreguesada, aonde iam ter idéias de toda parte e de toda
sorte, que se sentavam à mesa com a família da casa. Às vezes, acontecia
acharem-se ali duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipáticas, ninguém
brigava, o dono da casa impunha aos hóspedes a indulgência recíproca. Era assim
que ele conseguia ajustar uma espécie de ateísmo vago com duas irmandades que
fundou, não sei se na Gávea, na Tijuca ou no Engenho Velho. Usava assim,
promiscuamente, a devoção, a irreligião e as meias de seda. Nunca lhe vi as
meias, note-se; mas ele não tinha segredos para os amigos.
Conhecemo-nos em viagem para
Vassouras. Tínhamos deixado o trem e entrado na diligência que nos ia levar da
estação à cidade. Trocamos algumas palavras, e não tardou conversarmos
francamente, ao sabor das circunstâncias que nos impunham a convivência, antes
mesmo de saber quem éramos.
Naturalmente, o primeiro
objeto foi o progresso que nos traziam as estradas de ferro. Benedito
lembrava-se do tempo em que toda a jornada era feita às costas de burro.
Contamos então algumas anedotas, falamos de alguns nomes, e ficamos de acordo
em que as estradas de ferro eram uma condição de progresso do país. Quem nunca
viajou não sabe o valor que tem uma dessas banalidades graves e sólidas para
dissipar os tédios do caminho. O espírito areja-se, os próprios músculos
recebem uma comunicação agradável, o sangue não salta, fica-se em paz com Deus
e os homens.
-- Não serão os nossos filhos
que verão todo este país cortado de estradas, disse ele.
-- Não, decerto. O senhor tem
filhos?
-- Nenhum.
-- Nem eu. Não será ainda em
cinqüenta anos; e, entretanto, é a nossa primeira necessidade. Eu comparo o
Brasil a uma criança que está
engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro
-- Bonita idéia! exclamou
Benedito faiscando-lhe os olhos.
-- Importa-me pouco que seja
bonita, contanto que seja justa.
-- Bonita e justa, redargüiu
ele com amabilidade. Sim, senhor tem razão: -- o Brasil está engatinhando; só
começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro.
Chegamos a Vassouras; eu fui
para a casa do juiz municipal, camarada antigo; ele demorou-se um dia e seguiu
para o interior. Oito dias depois voltei ao Rio de Janeiro, mas sozinho. Uma
semana mais tarde, voltou ele; encontramo-nos no teatro, conversamos muito e
trocamos notícias; Benedito acabou convidando-me a ir almoçar com ele no dia
seguinte. Fui; deu-me um almoço de príncipe, bons charutos e palestra animada.
Notei que a conversa dele fazia mais efeito no meio da viagem-- arejando o
espírito e deixando a gente em paz com Deus e os homens; mas devo dizer que o
almoço pode ter prejudicado o resto. Realmente era magnífico; e seria
impertinência histórica pôr a mesa de Luculo na casa de Platão. Entre o café e
o cognac, disse-me ele, apoiando o cotovelo na borda da mesa, e olhando para o
charuto que ardia:
-- Na minha viagem agora,
achei ocasião de ver como o senhor tem razão com aquela idéia do Brasil
engatinhando.
-- Ah!
-- Sim, senhor; é justamente
o que o senhor dizia na diligência de Vassouras. Só começaremos a andar quando
tivermos muitas estradas de ferro. Não imagina como isso é verdade.
E referiu muita cousa,
observações relativas aos costumes do interior, dificuldades da vida, atraso,
concordando, porém, nos bons sentimentos da população e nas aspirações de
progresso. Infelizmente, o governo não correspondia às necessidades da pátria;
parecia até interessado em mantê-la atrás das outras nações americanas. Mas era
indispensável que nos persuadíssemos de que os princípios são tudo e os homens
nada. Não se fazem os povos para os governos, mas os governos para os povos; e
abyssus abyssum invocat. Depois foi mostrar-me outras salas. Eram todas
alfaiadas com apuro. Mostrou-me as coleções de quadros, de moedas, de livros
antigos, de selos, de armas; tinha espadas e floretes, mas confessou que não
sabia esgrimir. Entre os quadros vi um lindo retrato de mulher; perguntei-lhe
quem era. Benedito sorriu.
-- Não irei adiante, disse eu
sorrindo também.
-- Não, não há que negar,
acudiu ele; foi uma moça de quem gostei muito. Bonita, não? Não imagina a
beleza que era. Os lábios eram mesmo de carmim e as faces de rosa; tinha os
olhos negros, cor da noite. E que dentes! verdadeiras pérolas. Um mimo da
natureza.
Em seguida, passamos ao
gabinete. Era vasto, elegante, um pouco trivial, mas não lhe faltava nada. Tinha
duas estantes, cheias de livros muito bem encadernados, um mapa-múndi, dous
mapas do Brasil. A secretária era de ébano, obra fina; sobre ela, casualmente
aberto, um almanaque de Laemmert. O tinteiro era de cristal,-- "cristal de
rocha", disse-me ele, explicando o tinteiro, como explicava as outras
cousas. Na sala contígua havia um órgão. Tocava órgão, e gostava muito de
música, falou dela com entusiasmo, citando as óperas, os trechos melhores, e
noticiou-me que, em pequeno, começara a aprender flauta; abandonou-a logo, -- o
que foi pena, concluiu, porque é, na verdade, um instrumento muito saudoso.
Mostrou-me ainda outras salas, fomos ao jardim, que era esplêndido, tanto
ajudava a arte à natureza, e tanto a natureza coroava a arte. Em rosas, por
exemplo, (não há negar, disse-me ele, que é a rainha das flores) em rosas,
tinha-as de toda casta e de todas as regiões.
Saí encantado. Encontramo-nos
algumas vezes, na rua, no teatro, em casa de amigos comuns, tive ocasião de
apreciá-lo. Quatro meses depois fui à Europa, negócio que me obrigava a
ausência de um ano; ele ficou cuidando da eleição; queria ser deputado. Fui eu
mesmo que o induzi a isso, sem a menor intenção política, mas com o único fim
de lhe ser agradável; mal comparando, era como se lhe elogiasse o corte do
colete. Ele pegou da idéia, e apresentou-se. Um dia. atravessando uma rua de
Paris, dei subitamente com o Benedito.
-- Que é isto? exclamei.
-- Perdi a eleição, disse
ele, e vim passear à Europa.
Não me deixou mais; viajamos
juntos o resto do tempo. Confessou-me que a perda da eleição não lhe tirara a
idéia de entrar no parlamento. Ao contrário, incitara-o mais. Falou-me de um
grande plano.
-- Quero vê-lo ministro,
disse-lhe.
Benedito não contava com esta
palavra, o rosto iluminou-se-lhe; mas disfarçou depressa.
-- Não digo isso, respondeu.
Quando, porém, seja ministro, creia que serei tão-somente ministro industrial.
Estamos fartos de partidos: precisamos desenvolver as forças vivas do país, os
seus grandes recursos. Lembra-se do que nós dizíamos na diligência de
Vassouras? O Brasil está engatinhando; só andará com estradas de ferro...
-- Tem razão, concordei um
pouco espantado. E por que é que eu mesmo vim à Europa? Vim cuidar de uma
estrada de ferro. Deixo as cousas arranjadas em Londres.
-- Sim?
-- Perfeitamente.
Mostrei-lhe os papéis, ele
viu-os deslumbrado. Como eu tivesse então recolhido alguns apontamentos, dados
estatísticos, folhetos, relatórios, cópias de contratos, tudo referente a
matérias industriais, e lhos mostrasse, Benedito declarou-me que ia também
coligir algumas cousas daquelas. E, na verdade, vi-o andar por ministérios,
bancos, associações, pedindo muitas notas e opúsculos, que amontoava nas malas;
mas o ardor com que o fez, se foi intenso, foi curto; era de empréstimo.
Benedito recolheu com muito mais gosto os anexins políticos e fórmulas
parlamentares. Tinha na cabeça um vasto arsenal deles. Nas conversas comigo
repetia-os muita vez, à laia de experiência; achava neles grande prestígio e
valor inestimável. Muitos eram de tradição inglesa, e ele os preferia aos
outros, como trazendo em si um pouco da Câmara dos Comuns. Saboreava-os tanto
que eu não sei se ele aceitaria jamais a liberdade real sem aquele aparelho
verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar, optaria por essas
formas curtas, tão cômodas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiomáticas,
que não forçam a reflexão, preenchem os vazios, e deixam a gente em paz com
Deus e os homens.
Regressamos juntos; mas eu
fiquei em Pernambuco, e tornei mais tarde a Londres, donde vim ao Rio de
Janeiro, um ano depois. Já então Benedito era deputado. Fui visitá-lo, achei-o
preparando o discurso de estréia. Mostrou-me alguns apontamentos, trechos de
relatórios, livros de economia política, alguns com páginas marcadas. por meio
de tiras de papel rubricadas assim: -- Câmbio, Taxa das terras, Questão dos
cereais em Inglaterra, Opinião de Stuart Mill, Erro de Thiers sobre caminhos de
ferro, etc. Era sincero, minucioso e cálido. Falava-me daquelas cousas, como se
acabasse de as descobrir, expondo-me tudo, ab ovo; tinha a peito mostrar aos
homens práticos da Câmara que também ele era prático. Em seguida, perguntou-me
pela empresa; disse-lhe o que havia.
-- Dentro de dous anos conto
inaugurar o primeiro trecho da estrada.
-- E os capitalistas
ingleses?
-- Que tem?
-- Estão contentes,
esperançados?
-- Muito; não imagina.
Contei-lhe algumas
particularidades técnicas, que ele ouviu distraidamente, -- ou porque a minha
narração fosse em extremo complicada, ou por outro motivo. Quando acabei,
disse-me que estimava ver-me entregue ao movimento industrial; era dele que
precisávamos, e a este propósito fez-me o favor de ler o exórdio do discurso
que devia proferir dali a dias.
-- Está ainda em borrão,
explicou-me; mas as idéias capitais ficam. E começou:
No meio da agitação crescente dos espíritos, do alarido partidário que encobre as vozes dos legítimos interesses, permiti que alguém faça ouvir uma súplica da nação. Senhores, é tempo de cuidar exclusivamente, -- notai que digo exclusivamente, -- dos melhoramentos materiais do país. Não desconheço o que se me pode replicar; dir-me-eis que uma nação não se compõe só de estômago para digerir, mas de cabeça para pensar e de coração para sentir. Respondo-vos que tudo isso não valerá nada ou pouco, se ela não tiver pernas para caminhar; e aqui repetirei o que, há alguns anos, dizia eu a um amigo, em viagem pelo interior: o Brasil é uma criança que engatinha; só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro...
Não pude ouvir mais nada e
fiquei pensativo. Mais que pensativo, fiquei assombrado, desvairado diante do
abismo que a psicologia rasgava aos meus pés. Este homem é sincero, pensei
comigo, está persuadido do que escreveu. E fui por aí abaixo até ver se achava
a explicação dos trâmites por que passou aquela recordação da diligência de
Vassouras. Achei (perdoem-me se há nisto enfatuação) achei ali mais um efeito
da lei da evolução, tal como a definiu Spencer,-- Spencer ou Benedito, um
deles.
PÍLADES E ORESTES
QUINTANILHA engendrou Gonçalves. Tal era a impressão que davam os dous juntos, não que se parecessem. Ao contrário, Quintanilha tinha o rosto redondo, Gonçalves comprido, o primeiro era baixo e moreno, o segundo alto e claro, e a expressão total divergia inteiramente. Acresce que eram quase da mesma idade. A idéia da paternidade nascia das maneiras com que o primeiro tratava o segundo; um pai não se desfaria mais em carinhos, cautelas e pensamentos.
Tinham estudado juntos,
morado juntos, e eram bacharéis do mesmo ano. Quintanilha não seguiu advocacia
nem magistratura, meteu-se na política; mas, eleito deputado provincial em
187... cumpriu o prazo da legislatura e abandonou a carreira. Herdara os bens
de um tio, que lhe davam de renda cerca de trinta contos de réis. Veio para o
seu Gonçalves, que advogava no Rio de Janeiro.
Posto que abastado, moço,
amigo do seu único amigo, não se pode dizer que Quintanilha fosse inteiramente
feliz, como vais ver. Ponho de lado o desgosto que lhe trouxe a herança com o
ódio dos parentes; tal ódio foi que ele esteve prestes a abrir mão dela, e não
o fez porque o amigo Gonçalves, que lhe dava idéias e conselhos, o convenceu de
que semelhante ato seria rematada loucura.
-- Que culpa tem você que
merecesse mais a seu tio que os outros parentes? Não foi você que fez o
testamento nem andou a bajular o defunto, como os outros. Se ele deixou tudo a
você, é que o achou melhor que eles; fique-se com a fortuna, que é a vontade do
morto, e não seja tolo.
Quintanilha acabou
concordando. Dos parentes alguns buscaram reconciliar-se com ele, mas o amigo
mostrou-lhe a intenção recôndita dos tais, e Quintanilha não lhes abriu a
porta. Um desses, ao vê-lo ligado com o antigo companheiro de estudos, bradava
por toda a parte:
-- Aí está, deixa os parentes
para se meter com estranhos; há de se ver o fim que leva.
Ao saber disto, Quintanilha
correu a contá-lo a Gonçalves, indignado. Gonçalves sorriu, chamou-lhe tolo e
aquietou-lhe o ânimo; não valia a pena irritar-se por ditinhos.
-- Uma só cousa desejo,
continuou, é que nos separemos, para que se não diga...
-- Que se não diga o quê? É
boa! Tinha que ver, se eu passava a escolher as minhas amizades conforme o
capricho de alguns peraltas sem-vergonha!
-- Não fale assim,
Quintanilha. Você é grosseiro com seus parentes.
-- Parentes do diabo que os
leve! Pois eu hei de viver com as pessoas que me forem designadas por meia
dúzia de velhacos que o que querem é comer-me o dinheiro? Não, Gonçalves; tudo
o que você quiser, menos isso. Quem escolhe os meus amigos sou eu, é o meu
coração. Ou você está... está aborrecido de mim?
-- Eu? Tinha graça.
-- Pois então?
-- Mas é ...
-- Não é tal!
A vida que viviam os dous era
a mais unida deste mundo. Quintanilha acordava, pensava no outro, almoçava e ia
ter com ele. Jantavam juntos, faziam alguma visita, passeavam ou acabavam a
noite no teatro. Se Gonçalves tinha algum trabalho que fazer à noite, Quintanilha
ia ajudá-lo como obrigação; dava busca aos textos de lei, marcava-os,
copiava-os, carregava os livros. Gonçalves esquecia com facilidade, ora um
recado, ora uma carta, sapatos, charutos, papéis. Quintanilha supria-lhe a
memória. Às vezes, na Rua do Ouvidor, vendo passar as moças , Gonçalves
lembrava-se de uns autos que deixara no escritório. Quintanilha voava a
buscá-los e tornava com eles, tão contente que não se podia saber se eram
autos, se a sorte grande; procurava-o ansiosamente com os olhos, corria,
sorria, morria de fadiga.
-- São estes?
-- São; deixa ver, são estes
mesmos. Dá cá.
-- Deixa, eu 1evo.
A princípio, Gonçalves
suspirava:
-- Que maçada que dei a você!
Quintanilha ria do suspiro
com tão bom humor que o outro, para não o molestar, não se acusou de mais nada;
concordou em receber os obséquios. Com o tempo, os obséquios ficaram sendo puro
ofício. Gonçalves dizia ao outro: "Você hoje há de lembrar-me isto e
aquilo". E o outro decorava as recomendações, ou escrevia-as, se eram muitas.
Algumas dependiam de horas; era de ver como o bom Quintanilha suspirava aflito,
à espera que chegasse tal ou tal hora para ter o gosto de lembrar os negócios
ao amigo. E levava-lhe as cartas e papéis, ia buscar as respostas, procurar as
pessoas, esperá-las na estrada de ferro, fazia viagens ao interior. De si mesmo
descobria-lhe bons charutos, bons jantares, bons espetáculos. Gonçalves já não
tinha liberdade de falar de um livro novo, ou somente caro, que não achasse um
exemplar em casa.
-- Você é um perdulário,
dizia-lhe em tom repreensivo.
-- Então gastar com letras e
ciências é botar fora? É boa! concluía o outro.
No fim do ano quis obrigá-lo
a passar fora as férias. Gonçalves acabou aceitando, e o prazer que lhe deu com
isto foi enorme. Subiram a Petrópolis. Na volta, serra abaixo, como falassem de
pintura, Quintanilha advertiu que não tinham ainda uma tela com o retrato dos
dous, e mandou fazê-la. Quando a levou ao amigo, este não pôde deixar de lhe
dizer que não prestava para nada. Quintanilha ficou sem voz.
-- É uma porcaria, insistiu
Gonçalves.
-- Pois o pintor disse-me...
-- Você não entende de
pintura, Quintanilha, e o pintor aproveitou a ocasião para meter a espiga. Pois
isto é cara decente? Eu tenho este braço torto?
-- Que ladrão !
-- Não, ele não tem culpa,
fez o seu negócio; você é que não tem o sentimento da arte, nem prática, e
espichou-se redondamente. A intenção foi boa, creio...
-- Sim, a intenção foi boa.
-- E aposto que já pagou?
-- Já.
Gonçalves abanou a cabeça,
chamou-lhe ignorante e acabou rindo. Quintanilha, vexado e aborrecido, olhava
para a tela, até que sacou de um canivete e rasgou-a de alto a baixo. Como se
não bastasse esse gesto de vingança, devolveu a pintura ao artista com um
bilhete em que lhe transmitiu alguns dos nomes recebidos e mais o de asno. A
vida tem muitas de tais pagas. Demais, uma letra de Gonçalves que se venceu
dali a dias e que este não pôde pagar, veio trazer ao espírito de Quintanilha
uma diversão. Quase brigaram, a idéia de Gonçalves era reformar a letra;
Quintanilha, que era o endossante, entendia não valer a pena pedir o favor por
tão escassa quantia (um conto e quinhentos), ele emprestaria o valor da letra,
e o outro que lhe pagasse, quando pudesse. Gonçalves não consentiu e fez-se a
reforma. Quando, ao fim dela, a situação se repetiu, o mais que este admitiu
foi aceitar uma letra de Quintanilha, com o mesmo juro.
-- Você não vê que me
envergonha, Gonçalves? Pois eu hei de receber juro de você...?
-- Ou recebe, ou não fazemos
nada.
-- Mas, meu querido...
Teve que concordar. A união
dos dous era tal que uma senhora chamava-lhes os "casadinhos de
fresco", e um letrado, Pílades e Orestes. Eles riam, naturalmente, mas o
riso de Quintanilha trazia alguma cousa parecida com lágrimas: era, nos olhos,
uma ternura úmida. Outra diferença é que o sentimento de Quintanilha tinha uma
nota de entusiasmo, que absolutamente faltava ao de Gonçalves; mas, entusiasmo
não se inventa. É claro que o segundo era mais capaz de inspirá-lo ao primeiro
do que este a ele. Em verdade, Quintanilha era mui sensível a qualquer
distinção; uma palavra, um olhar bastava a acender-lhe o cérebro. Uma
pancadinha no ombro ou no ventre, com o fim de aprová-lo ou só acentuar a
intimidade, era para derretê-lo de prazer. Contava o gesto e as circunstâncias
durante dous e três dias.
Não era raro vê-lo
irritar-se, teimar, descompor os outros. Também era comum vê-lo rir-se; alguma
vez o riso era universal, entornava-se-lhe da boca, dos olhos, da testa, dos
braços, das pernas, todo ele era um riso único. Sem ter paixões, estava longe
de ser apático.
A letra sacada contra
Gonçalves tinha o prazo de seis meses. No dia do vencimento , não só não pensou
em cobrá-la , mas resolveu ir jantar a algum arrabalde para não ver o amigo, se
fosse convidado à reforma. Gonçalves destruiu todo esse plano; logo cedo, foi
levar-lhe o dinheiro. O primeiro gesto de Quintanilha foi recusá-lo,
dizendo-lhe que o guardasse, podia precisar dele; o devedor teimou em pagar e
pagou.
Quintanilha acompanhava os atos
de Gonçalves; via a constância do seu trabalho, o zelo que ele punha na defesa
das demandas, e vivia cheio de admiração. Realmente, não era grande advogado,
mas na medida das suas habilitações, era distinto.
-- Você por que não se casa?
perguntou-lhe um dia; um advogado precisa casar.
Gonçalves respondia rindo.
Tinha uma tia, única parenta, a quem ele queria muito, e que lhe morreu, quando
eles iam em trinta anos. Dias depois, dizia ao amigo:
-- Agora só me resta você.
Quintanilha sentiu os olhos
molhados, e não achou que lhe respondesse. Quando se lembrou de dizer que
"iria até à morte" era tarde. Redobrou então de carinhos, e um dia
acordou com a idéia de fazer testamento. Sem revelar nada ao outro, nomeou-o
testamenteiro e herdeiro universal.
-- Guarde-me este papel,
Gonçalves, disse-lhe entregando o testamento. Sinto-me forte, mas a morte é
fácil, e não quero confiar a qualquer pessoa as minhas últimas vontades.
Foi por esse tempo que
sucedeu um caso que vou contar.
Quintanilha tinha uma prima
segunda, Camila, moça de vinte e dous anos, modesta, educada e bonita. Não era
rica; o pai, João Bastos, era guarda-livros de uma casa de café. Haviam brigado
por ocasião da herança; mas, Quintanilha foi ao enterro da mulher de João
Bastos, e este ato de piedade novamente os ligou. João Bastos esqueceu
facilmente alguns nomes crus que dissera do primo, chamou-lhe outros nomes
doces, e pediu-lhe que fosse jantar com ele. Quintanilha foi e tornou a ir.
Ouviu ao primo o elogio da finada mulher; numa ocasião em que Camila os deixou
sós, João Bastos louvou as raras prendas da filha, que afirmava haver recebido
integralmente a herança moral da mãe.
-- Não direi isto nunca à
pequena, nem você lhe diga nada. É modesta, e, se começarmos a elogiá-la, pode
perder-se. Assim, por exemplo, nunca lhe direi que é tão bonita como foi a mãe,
quando tinha a idade dela; pode ficar vaidosa. Mas a verdade é que é mais, não
lhe parece? Tem ainda o talento de tocar piano, que a mãe não possuía.
Quando Camila voltou à sala
de jantar, Quintanilha sentiu vontade de lhe descobrir tudo, conteve-se e
piscou o olho ao primo. Quis ouvi-la ao piano; ela respondeu, cheia de
melancolia:
-- Ainda não, há apenas um
mês que mamãe faleceu, deixe passar mais tempo. Demais, eu toco mal.
-- Mal?
-- Muito mal.
Quintanilha tornou a piscar o
olho ao primo, e ponderou à moça que a prova de tocar bem ou mal só se dava ao
piano. Quanto ao prazo, era certo que apenas passara um mês; todavia era também
certo que a música era uma distração natural e elevada. Além disso, bastava
tocar um pedaço triste. João Bastos aprovou este modo de ver e lembrou uma
composição elegíaca. Camila abanou a cabeça.
-- Não, não, sempre é tocar
piano; os vizinhos são capazes de inventar que eu toquei uma polca.
Quintanilha achou graça e
riu. Depois concordou e esperou que os três meses fossem passados. Até lá, viu
a prima algumas vezes, sendo as três últimas visitas mais próximas e longas.
Enfim, pôde ouvi-la tocar piano, e gostou. O pai confessou que, ao princípio,
não gostava muito daquelas músicas alemãs; com o tempo e o costume achou-lhes
sabor. Chamava à filha "a minha alemãzinha", apelido que foi adotado
por Quintanilha apenas modificado para o plural: "a nossa alemãzinha".
Pronomes possessivos dão intimidade; dentro em pouco, ela existia entre os
três,-- ou quatro, se contarmos Gonçalves, que ali foi apresentado pelo
amigo;-- mas fiquemos nos três.
Que ele é cousa já farejada
por ti, leitor sagaz. Quintanilha acabou gostando da moça. Como não, se Camila
tinha uns longos olhos mortais? Não é que os pousasse muita vez nele, e, se o
fazia, era com tal ou qual constrangimento, a princípio, como as crianças que
obedecem sem vontade às ordens do mestre ou do pai; mas pousava-os, e eles eram
tais que, ainda sem intenção, feriam de morte. Também sorria com freqüência e
falava com graça. Ao piano, e por mais aborrecida que tocasse, tocava bem. Em
suma, Camila não faria obra de impulso próprio, sem ser por isso menos
feiticeira. Quintanilha descobriu um dia de manhã que sonhara com ela a noite
toda, e à noite que pensara nela todo o dia. e concluiu da descoberta que a
amava e era amado. Tão tonto ficou que esteve prestes a imprimi-lo nas folhas
públicas. Quando menos, quis dizê-lo ao amigo Gonçalves e correu ao escritório
deste. A afeição de Quintanilha complicava-se de respeito e temor. Quase a
abrir a boca, enguliu outra vez o segredo. Não ousou dizê-lo nesse dia nem no
outro. Antes dissesse; talvez fosse tempo de vencer a campanha. Adiou a
revelação por uma semana. Um dia foi jantar com o amigo, e, depois de muitas
hesitações, disse-lhe tudo; amava a prima e era amado.
-- Você aprova, Gonçalves?
Gonçalves empalideceu, -- ou,
pelo menos, ficou sério; nele a seriedade confundia-se com a palidez. Mas, não;
verdadeiramente ficou pálido.
-- Aprova? repetiu
Quintanilha.
Após alguns segundos,
Gonçalves ia abrir a boca para responder, mas fechou-a de novo, e fitou os
olhos "em ontem", como ele mesmo dizia de si, quando os estendia ao
longe. Em vão Quintanilha teimou em saber o que era, o que pensava, se aquele
amor era asneira. Estava tão acostumado a ouvir-lhe este vocábulo que já lhe
não doía nem afrontava, ainda em matéria tão melindrosa e pessoal. Gonçalves
tornou a si daquela meditação, sacudiu os ombros, com ar desenganado, e
murmurou esta palavra tão surdamente que o outro mal a pôde ouvir:
-- Não me pergunte nada; faça
o que quiser.
-- Gonçalves, que é isso?
perguntou Quintanilha, pegando-lhe nas mãos, assustado.
Gonçalves soltou um grande
suspiro, que, se tinha asas, ainda agora estará voando. Tal foi, sem esta forma
paradoxal, a impressão de Quintanilha. O relógio da sala de jantar bateu oito
horas, Gonçalves alegou que ia visitar um desembargador, e o outro despediu-se.
Na rua, Quintanilha parou
atordoado. Não acabava de entender aqueles gestos, aquele suspiro, aquela
palidez, todo o efeito misterioso da notícia dos seus amores. Entrara e falara,
disposto a ouvir do outro um ou mais daqueles epítetos costumados e amigos,
idiota, crédulo, paspalhão, e não ouviu nenhum. Ao contrário, havia nos gestos
de Gonçalves alguma cousa que pegava com o respeito. Não se lembrava de nada,
ao jantar, que pudesse tê-lo ofendido; foi só depois de lhe confiar o
sentimento novo que trazia a respeito da prima que o amigo ficou acabrunhado.
"Mas, não pode ser,
pensava ele; o que é que Camila tem que não possa ser boa esposa?"
Nisto gastou, parado,
defronte da casa, mais de meia hora. Advertiu então que Gonçalves não saíra.
Esperou mais meia hora, nada. Quis entrar outra vez, abraçá-lo, interrogá-lo...
Não teve forças; enfiou pela rua fora, desesperado. Chegou à casa de João
Bastos, e não viu Camila; tinha-se recolhido, constipada. Queria justamente
contar-lhe tudo, e aqui é preciso explicar que ele ainda não se havia declarado
à prima. Os olhares da moça não fugiam dos seus; era tudo, e podia não passar
de faceirice. Mas o lance não podia ser melhor para clarear a situação.
Contando o que se passara com o amigo, tinha o ensejo de lhe fazer saber que a
amava e ia pedi-la ao pai. Era uma consolação no meio daquela agonia; o acaso
negou-lha, e Quintanilha saiu da casa, pior do que entrara. Recolheu-se à sua.
Não dormiu antes das duas
horas da manhã, e não foi para repouso, senão para agitação maior e nova.
Sonhou que ia a atravessar uma ponte velha e longa, entre duas montanhas, e a
meio caminho viu surdir debaixo um vulto e fincar os pés defronte dele. Era
Gonçalves. “-Infame, disse este com os olhos acesos, por que me vens tirar a
noiva de meu coração, a mulher que eu amo e é minha? Toma, toma logo o meu
coração, é mais completo." E com um gesto rápido abriu o peito, arrancou o
coração e meteu-lho na boca. Quintanilha tentou pegar da víscera amiga e
repô-la no peito de Gonçalves; foi impossível. Os queixos acabaram por fechá-la.
Quis cuspi-la, e foi pior; os dentes cravaram-se no coração. Quis falar, mas vá
alguém falar com a boca cheia daquela maneira. Afinal o amigo ergueu os braços
e estendeu-lhe as mãos com o gesto de maldição que ele vira nos melodramas, em
dias de rapaz; logo depois, brotaram-lhe dos olhos duas imensas lágrimas, que
encheram o vale de água, atirou-se abaixo e desapareceu. Quintanilha acordou
sufocado.
A ilusão do pesadelo era tal
que ele ainda levou as mãos à boca, para arrancar de lá o coração do amigo.
Achou a língua somente, esfregou os olhos e sentou-se. Onde estava? Que era? E
a ponte? E o Gonçalves? Voltou a si de todo, compreendeu e novamente se deitou,
para outra insônia, menor que a primeira, é certo; veio a dormir às quatro
horas.
De dia, rememorando toda a
véspera, realidade e sonho, chegou à conclusão de que o amigo Gonçalves era seu
rival, amava a prima dele, era talvez amado por ela... Sim, sim, podia ser.
Quintanilha passou duas horas cruéis. Afinal pegou em si e foi ao escritório de
Gonçalves, para saber tudo de uma vez; e, se fosse verdade, sim, se fosse
verdade...
Gonçalves redigia umas razões
de embargo. Interrompeu-as para fitá-lo um instante, erguer-se, abrir o armário
de ferro, onde guardava os papéis graves, tirar de lá o testamento de
Quintanilha, e entregá-lo ao testador.
-- Que é isto?
-- Você vai mudar de estado,
respondeu Gonçalves, sentando-se à mesa.
Quintanilha sentiu-lhe lágrimas
na voz; assim lhe pareceu, ao menos. Pediu-lhe que guardasse o testamento; era
o seu depositário natural. Instou muito; só lhe respondia o som áspero da pena
correndo no papel. Não corria bem a pena, a letra era tremida, as emendas mais
numerosas que de costume, provavelmente as datas erradas. A consulta dos livros
era feita com tal melancolia que entristecia o outro. Às vezes, parava tudo,
pena e consulta, para só ficar o olhar fito "em ontem".
-- Entendo, disse Quintanilha
subitamente, ela será tua.
-- Ela quem? quis perguntar
Gonçalves, mas já o amigo voava escada abaixo, como uma flecha, e ele continuou
as suas razões de embargo.
Não se adivinha todo o resto;
basta saber o final. Nem se adivinha nem se crê; mas a alma humana é capaz de
esforços grandes, no bem como no mal. Quintanilha fez outro testamento, legando
tudo à prima, com a condição de desposar o amigo. Camila não aceitou o
testamento, mas ficou tão contente, quando o primo lhe falou das lágrimas de
Gonçalves, que aceitou Gonçalves e as lágrimas. Então Quintanilha não achou
melhor remédio que fazer terceiro testamento legando tudo ao amigo.
O final da história foi dito
em latim. Quintanilha serviu de testemunha ao noivo, e de padrinho aos dous
primeiros filhos. Um dia em que, levando doces para os afilhados, atravessava a
Praça Quinze de Novembro, recebeu uma bala revoltosa (1893) que o matou quase
instantaneamente. Está enterrado no cemitério de S. João Batista; a sepultura é
simples, a pedra tem um epitáfio que termina com esta pia frase: "Orai por
ele!" É também o fecho da minha história. Orestes vive ainda, sem os
remorsos do modelo grego. Pilades é agora o personagem mudo de Sófocles. Orai
por ele!
ANEDOTA DO CABRIOLET
-- CABRIOLET está aí, sim senhor, dizia o preto que viera à matriz de S. José chamar o vigário para sacramentar dous moribundos.
A geração de hoje não viu a
entrada e a saída do cabriolet no Rio de Janeiro. Também não saberá do tempo em
que o cab e o tilbury vieram para o rol dos nossos veículos de praça ou particulares.
O cab durou pouco. O tilbury, anterior aos dous, promete ir à destruição da
cidade. Quando esta acabar e entrarem os cavadores de ruínas, achar-se-á um
parado, com o cavalo e o cocheiro em ossos esperando o freguês do costume. A
paciência será a mesma de hoje, por mais que chova, a melancolia maior, como
quer que brilhe o sol, porque juntará a própria atual à do espectro dos tempos.
O arqueólogo dirá cousas raras sobre os três esqueletos. O cabriolet não teve
história; deixou apenas a anedota que vou dizer.
-- Dous! exclamou o
sacristão.
-- Sim, senhor, dous, nhã
Anunciada e nhô Pedrinho. Coitado de nhô Pedrinho! E nhã Anunciada, coitada!
continuou o preto a gemer, andando de um lado para outro, aflito, fora de si.
Alguém que leia isto com a
alma turva de dúvidas, é natural que pergunte se o preto sentia deveras, ou se
queria picar a curiosidade do coadjutor e do sacristão. Eu estou que tudo se
pode combinar neste mundo, como no outro. Creio que ele sentia deveras; não
descreio que ansiasse por dizer alguma história terrível. Em todo caso, nem o
coadjutor nem o sacristão lhe perguntavam nada.
Não é que o sacristão não
fosse curioso. Em verdade, pouco mais era que isso. Trazia a paróquia de cor;
sabia os nomes às devotas, a vida delas, a dos maridos e a dos pais, as prendas
e os recursos de cada uma, e o que comiam, e o que bebiam, e o que diziam, os
vestidos e as virtudes, os dotes das solteiras, o comportamento das casadas, as
saudades das viúvas. Pesquisava tudo: nos intervalos ajudava a missa e o resto.
Chamava-se João das Mercês, homem quarentão, pouca barba e grisalho, magro e
meão.
"Que Pedrinho e que
Anunciada serão esses?" dizia consigo, acompanhando o coadjutor.
Embora ardesse por sabê-los,
a presença do coadjutor impediria qualquer pergunta. Este ia tão calado e pio,
caminhando para a porta da igreja, que era força mostrar o mesmo silêncio e
piedade que ele. Assim foram andando. O cabriolet esperava-os; o cocheiro
desbarretou-se, os vizinhos e alguns passantes ajoelharam-se, enquanto o padre
e o sacristão entravam e o veículo enfiava pela Rua da Misericórdia. O preto
desandou o caminho a passo largo.
Que andem burros e pessoas na
rua, e as nuvens no céu, se as há, e os pensamentos nas cabeças, se os têm. A
do sacristão tinha-os vários e confusos. Não era acerca do Nosso-Pai, embora
soubesse adorá-lo, nem da água benta e do hissope que levava; também não era
acerca da hora, -- oito e quarto da noite, -- aliás, o céu estava claro e a lua
ia aparecendo. O próprio cabriolet, que era novo na terra, e substituía neste
caso a sege, esse mesmo veículo não ocupava o cérebro todo de João das Mercês,
a não ser na parte que pegava com nhô Pedrinho e nhã Anunciada.
"Há de ser gente nova,
ia pensando o sacristão, mas hóspede em alguma casa, decerto, porque não há
casa vazia na praia, e o número é da do Comendador Brito. Parentes, serão? Que
parentes, se nunca ouvi... ? Amigos, não sei; conhecidos, talvez, simples
conhecidos. Mas então mandariam cabriolet? Este mesmo preto é novo na casa; há
de ser escravo de um dos moribundos, ou de ambos."
Era assim que João das Mercês
ia cogitando, e não foi por muito tempo. O cabriolet parou à porta de um
sobrado, justamente a casa do Comendador Brito, José Martins de Brito. Já havia
algumas pessoas embaixo com velas, o padre e o sacristão apearam-se e subiram a
escada, acompanhados do comendador. A esposa deste, no patamar, beijou o anel
ao padre. Gente grande, crianças, escravos, um burburinho surdo, meia
claridade, e os dous moribundos à espera, cada um no seu quarto, ao fundo.
Tudo se passou, como é de uso
e regra, em tais ocasiões. Nhô Pedrinho foi absolvido e ungido, nhã Anunciada
também, e o coadjutor despediu-se da casa para tornar à matriz com o sacristão.
Este não se despediu do comendador sem lhe perguntar ao ouvido se os dous eram
parentes seus. Não, não eram parentes, respondeu Brito; eram amigos de um
sobrinho que vivia em Campinas; uma história terrível... Os olhos de João das
Mercês escutaram arregaladamente estas duas palavras, e disseram, sem falar,
que viriam ouvir o resto -- talvez naquela mesma noite. Tudo foi rápido, porque
o padre descia a escada, era força ir com ele.
Foi tão curta a moda do
cabriolet que este provavelmente não levou outro padre a moribundos. Ficou-lhe
a anedota, que vou acabar já, tão escassa foi ela, uma anedota de nada. Não
importa. Qualquer que fosse o tamanho ou a importância, era sempre uma fatia de
vida para o sacristão, que ajudou o padre a guardar o pão sagrado, a despir a
sobrepeliz, e a fazer tudo mais, antes de se despedir e sair. Saiu, enfim, a
pé, rua acima, praia fora, até parar à porta do comendador.
Em caminho foi evocando toda
a vida daquele homem, antes e depois da comenda. Compôs o negócio, que era
fornecimento de navios, creio eu, a família, as festas dadas, os cargos
paroquiais, comerciais e eleitorais, e daqui aos boatos e anedotas não houve
mais que um passo ou dois. A grande memória de João das Mercês guardava todas
as cousas, máximas e mínimas, com tal nitidez que pareciam da véspera, e tão
completas que nem o próprio objeto delas era capaz de as repetir iguais.
Sabia-as como o padre-nosso, isto é sem pensar nas palavras; ele rezava tal
qual comia, mastigando a oração, que lhe saía dos queixos sem sentir. Se a
regra mandasse rezar três dúzias de padre-nossos seguidamente, João das Mercês
os diria sem contar. Tal era com as vidas alheias; amava sabê-las,
pesquisava-as, decorava-as, e nunca mais lhe saíam da memória.
Na paróquia todos lhe queriam
bem, porque ele não enredava nem maldizia. Tinha o amor da arte pela arte.
Muita vez nem era preciso perguntar nada. José dizia-lhe a vida de Antônio e
Antônio a de José. O que ele fazia era ratificar ou retificar um com outro, e
os dous com Sancho, Sancho com Martinho, e vice-versa, todos com todos. Assim é
que enchia as horas vagas, que eram muitas. Alguma vez, à própria missa,
recordava uma anedota da véspera, e, a princípio, pedia perdão a Deus; deixou
de lho pedir quando refletiu que não falhava uma só palavra ou gesto do santo
sacrifício, tão consubstanciados os trazia em si. A anedota que então revivia
por instantes era como a andorinha que atravessa uma paisagem. A paisagem fica
sendo a mesma, e a água, se há água, murmura o mesmo som. Esta comparação, que
era dele, valia mais do que ele pensava, porque a andorinha, ainda voando, faz
parte da paisagem, e a anedota fazia nele parte da pessoa, era um dos seus atos
de viver.
Quando chegou à casa do
comendador, tinha desfiado o rosário da vida deste, e entrou com o pé direito
para não sair mal. Não pensou em sair cedo, por mais aflita que fosse a
ocasião, e nisto a fortuna o ajudou. Brito estava na sala da frente, em
conversa com a mulher, quando lhe vieram dizer que João das Mercês perguntava
pelo estado dos moribundos. A esposa retirou-se da sala, o sacristão entrou
pedindo desculpas e dizendo que era por pouco tempo; ia passando e lembrara-se
de saber se os enfermos tinham ido para o céu, -- ou se ainda eram deste mundo.
Tudo o que dissesse respeito ao comendador seria ouvido por ele com interesse.
-- Não morreram, nem sei se
escaparão, quando menos, ela creio que morrerá, concluiu Brito.
-- Parecem bem mal.
-- Ela, principalmente;
também é a que mais padece da febre. A febre os pegou aqui em nossa casa, logo
que chegaram de Campinas, há dias.
-- Já estavam aqui? perguntou
o sacristão, pasmado de o não saber.
-- Já; chegaram há quinze
dias, -- ou quatorze. Vieram com o meu sobrinho Carlos e aqui apanharam a
doença...
Brito interrompeu o que ia
dizendo; assim pareceu ao sacristão, que pôs no semblante toda a expressão de
pessoa que espera o resto. Entretanto, como o outro estivesse a morder os
beiços e a olhar para as paredes, não viu o gesto de espera, e ambos se detiveram
calados. Brito acabou andando ao longo da sala, enquanto João das Mercês dizia
consigo que havia alguma cousa mais que febre. A primeira idéia que lhe acudiu
foi se os médicos teriam errado na doença ou no remédio, também pensou que
podia ser outro mal escondido, a que deram o nome de febre para encobrir a
verdade. Ia acompanhando com os olhos o comendador, enquanto este andava e
desandava a sala toda, apagando os passos para não aborrecer mais os que
estavam dentro. De lá vinha algum murmúrio de conversação, chamado, recado,
porta que se abria ou fechava. Tudo isso era cousa nenhuma para quem tivesse
outro cuidado, mas o nosso sacristão já agora não tinha mais que saber o que
não sabia. Quando menos, a família dos enfermos, a posição, o atual estado, alguma
página da vida deles, tudo era conhecer algo, por mais arredado que fosse da
paróquia.
-- Ah! exclamou Brito
estacando o passo.
Parecia haver nele o desejo
impaciente de referir um caso, -- a "história terrível", que
anunciara ao sacristão, pouco antes; mas nem este ousava pedi-la nem aquele
dizê-la, e o comendador pegou a andar outra vez.
João das Mercês sentou-se.
Viu bem que em tal situação cumpria despedir-se com boas palavras de esperança
ou de conforto, e voltar no dia seguinte; preferiu sentar-se e aguardar. Não
viu na cara do outro nenhum sinal de reprovação do seu gesto; ao contrário, ele
parou defronte e suspirou com grande cansaço.
-- Triste, sim, triste,
concordou João das Mercês. Boas pessoas, não?
-- Iam casar.
-- Casar? Noivos um do outro?
Brito confirmou de cabeça. A
nota era melancólica, mas não havia sinal da história terrível anunciada, e o
sacristão esperou por ela. Observou consigo que era a primeira vez que ouvia
alguma cousa de gente que absolutamente não conhecia. As caras, vistas há pouco
eram o único sinal dessas pessoas. Nem por isso se sentia menos curioso. Iam
casar... Podia ser que a história terrível fosse isso mesmo. Em verdade,
atacados de um mal na véspera de um bem, o mal devia ser terrível. Noivos e
moribundos...
Vieram trazer recado ao dono
da casa; este pediu licença ao sacristão, tão depressa que nem deu tempo a que
ele se despedisse e saísse. Correu para dentro, e lá ficou cinqüenta minutos.
Ao cabo, chegou à sala um pranto sufocado; logo após, tornou o comendador.
-- Que lhe dizia eu, há
pouco? Quando menos, ela ia morrer; morreu.
Brito disse isto sem lágrimas
e quase sem tristeza. Conhecia a defunta de pouco tempo. As lágrimas, segundo
referiu, eram do sobrinho de Campinas e de uma parenta da defunta, que morava
em Mata-porcos. Daí a supor que o sobrinho do comendador gostasse da noiva do
moribundo foi um instante para o sacristão, mas não se lhe pegou a idéia por
muito tempo; não era forçoso, e depois se ele próprio os acompanhara... Talvez
fosse padrinho de casamento. Quis saber, e era natural, -- o nome da defunta. O
dono da casa, -- ou por não querer dar-lho, -- ou porque outra idéia lhe
tomasse agora a cabeça, -- não declarou o nome da noiva, nem do noivo. Ambas as
causas seriam.
-- Iam casar...
-- Deus a receberá em sua
santa guarda, e a ele também, se vier a expirar, disse o sacristão cheio de
melancolia.
E esta palavra bastou a
arrancar metade do segredo que parece ansiava por sair da boca do fornecedor de
navios. Quando João das Mercês lhe viu a expressão dos olhos, o gesto com que o
levou janela, e o pedido que lhe fez de jurar,-- jurou por todas as almas dos
seus que ouviria e calaria tudo. Nem era homem de assoalhar as confidências
alheias, mormente as de pessoas gradas e honradas como era o comendador. Ao que
este se deu por satisfeito e animado, e então lhe confiou a primeira metade do
segredo, a qual era que os dous noivos, criados juntos, vinham casar aqui
quando souberam, pela parenta de Mata-porcos, uma notícia abominável...
-- E foi...? precipitou-se em
dizer João das Mercês, sentindo alguma hesitação no comendador.
-- Que eram irmãos.
-- Irmãos como? Irmãos de
verdade?
-- De verdade; irmãos por
parte de mãe. O pai é que não era o mesmo. A parenta não lhes disse tudo nem claro,
mas jurou que era assim, e eles ficaram fulminados durante um dia ou mais...
João das Mercês não ficou
menos espantado que eles; dispôs-se a não sair dali sem saber o resto. Ouviu
dez horas, ouviria todas as demais da noite, velaria o cadáver de um ou de
ambos, uma vez que pudesse juntar mais esta página às outras da paróquia,
embora não fosse da paróquia.
-- E vamos, vamos, foi então
que a febre os tomou...?
Brito cerrou os dentes para
não dizer mais nada. Como, porém, o viessem chamar de dentro, acudiu depressa,
e meia hora depois estava de volta, com a nova do segundo passamento. O choro,
agora mais fraco, posto que mais esperado, não havendo já de quem o esconder,
trouxera a notícia ao sacristão.
-- Lá se foi o outro, o
irmão, o noivo. . . Que Deus lhes perdoe! Saiba agora tudo, meu amigo. Saiba
que eles se queriam tanto que alguns dias depois de conhecido o impedimento
natural e canônico do consórcio, pegaram de si e, fiados em serem apenas meios
irmãos e não irmãos inteiros, meteram-se em um cabriolet e fugiram de casa.
Dado logo o alarma, alcançamos pegar o cabriolet em caminho da Cidade Nova, e
eles ficaram tão pungidos e vexados da captura que adoeceram de febre e acabam
de morrer.
Não se pode escrever o que
sentiu o sacristão, ouvindo-lhe este caso. Guardou-o por algum tempo, com
dificuldade. Soube os nomes das pessoas pelo obituário dos jornais, e combinou
as circunstâncias ouvidas ao comendador com outras. Enfim, sem se ter por
indiscreto, espalhou a história, só com esconder os nomes e contá-la a um
amigo, que a passou a outro, este a outros, e todos a todos. Fez mais;
meteu-se-lhe em cabeça que o cabriolet da fuga podia ser o mesmo dos últimos
sacramentos; foi à cocheira, conversou familiarmente com um empregado, e
descobriu que sim. Donde veio chamar-se a esta página a "anedota do
cabriolet."
PÁGINAS CRÍTICAS E COMEMORATIVAS
1.
GONÇALVES DIAS
2.
UM LIVRO (CENA DA
VIDA AMAZÔNICA)
3.
EDUARDO PRADO
4.
ANTÔNIO JOSÉ
GONÇALVES DIAS
Discurso lido no Passeio Público,
ao inaugurar-se o busto de Gonçalves Dias.
SR. Prefeito do Distrito
Federal,
A comissão que tomou a si
erguer este monumento, incumbiu-me, como presidente da Academia Brasileira, de
o entregar a V. Ex.a, como representante da cidade. O encargo é não somente
honroso, mas particularmente agradável à Academia e a mim.
Se eu houvesse de dizer tudo
o que este busto exprime para nós, faria um discurso, e é justamente o que os
autores da homenagem não devem querer neste momento. Conta Renan que, uma hora
antes dos funerais de George Sand, quando alguns cogitavam no que convinha
proferir à beira da sepultura, ouviu-se no parque da defunta cantar um
rouxinol. "Ah! eis o verdadeiro discurso!" disseram eles consigo. O
mesmo seria aqui, se cantasse um sabiá. A ave do nosso grande poeta seria o
melhor discurso da ocasião. Ela repetiria à alma de todos aquela canção do
exílio que ensinou aos ouvidos da antiga mãe-pátria uma lição nova da língua de
Camões. Não importa! A canção está em todos nós, com os outros cantos que ele
veio espalhando pela vida e pelo mundo, e o som dos golpes de Itajubá, a
piedade de I-Juca-Pirama, os suspiros de Coema, tudo o que os mais velhos
ouviram na mocidade, depois os mais jovens, e daqui em diante ouvirão outros e
outros, enquanto a língua que falamos for a língua dos nossos destinos.
Dizem que os cariocas somos
pouco dados aos jardins públicos. Talvez este busto emende o costume; mas,
supondo que não, nem por isso perderão os que só vierem contemplar aquela
fronte que meditou páginas tão magníficas. A solidão e o silêncio são asas
robustas para os surtos do espírito. Quem vier a este canto do jardim entre o
mar e a rua, achará o que se encontra nas capelas solitárias, uma voz interior,
e dirá pelo rosário da memória as preces em verso que ele compôs e ensinou aos
seus compatrícios.
E desde já ficam as duas
obras juntas. Uma responderá pela outra. Nem V. Ex.a, nem os seus sucessores
consentirão que se destrua este abrigo de folhas verdes, ou se arranque daqui
esse monumento de arte. Se alguém propuser arrasar um e mudar outro, para
trazer utilidade ao terreno, por meio de uma avenida, ou cousa equivalente, o
Prefeito recusará a concessão, dizendo que este jardim, conservado por diversos
regímens, está agora consagrado pela poesia, que é um regímen só, universal,
comum e perpétuo. Também pode declarar que a veneração dos seus grandes homens
é uma virtude das cidades. E isto farão os Prefeitos de todos os partidos, sem
agravo do seu próprio, porque o poeta que ora celebramos, fiel à vocação, não
teve outro partido que o de cantar maravilhosamente.
Demais, se o caso for de
utilidade, V. Ex.a e os seus sucessores acharão aqui o mais útil remédio às
agruras administrativas. Este busto consolará do trabalho acerbo e ingrato; ele
dirá que há também uma prefeitura do espírito, cujo exercício não pede mais que
o mudo bronze e a capacidade de ser ouvido no seu eterno silêncio. E repetirá a
todos o nome de V. Ex.a, que o recebeu e o dos outros que porventura vierem
contemplá-lo. Também aqui vinha, há muitos anos, desenfadar-se da véspera, sem
outro encargo nem magistratura que os seus livros, o autor de Iracema. Se já
estivesse aqui este busto, ele se consolaria da vida com a memória, e do tempo
com a perenidade. Mas então só existiam as árvores. Bernardelli, que tinha de
fundir o bronze de ambos, não povoara ainda as nossas praças com outras obras
de artista ilustre. Olavo Bilac, que promoveu a subscrição de senhoras a que se
deve esta obra, não afinara ainda pela lira de Gonçalves Dias a sua lira deliciosa.
Aqui fica entregue o
monumento a V. Ex.a, Sr. Prefeito, aqui onde ele deve estar, como outro exemplo
da nossa unidade, ligando a pátria inteira no mesmo ponto em que a história,
melhor que leis, pôs a cabeça da nação perto daquele gigante de pedras que o
grande poeta cantou em versos másculos.
UM LIVRO [CENAS DA VIDA AMAZÔNICA]
AQUI ESTÁ um livro que há de
ser relido com apreço, com interesse, não raro com admiração. O autor que ocupa
lugar eminente na crítica brasileira, também enveredou um dia pela novela, como
Sainte-Beuve, que escreveu Volupté, antes de atingir o sumo grau na crítica
francesa. Também há aqui um narrador e um observador, e há mais aquilo que não
acharemos em Volupté, um paisagista e um miniaturista. Já era tempo de dar às Cenas
da Vida Amazônica outra e melhor edição. Eu, que as reli, achei-lhes o mesmo
sabor de outrora. Os que as lerem, pela primeira vez, dirão se o meu falar
desmente as suas próprias impressões.
Talvez achem comigo que o
título é exato, sem dizer tudo. São efetivamente cenas daquela vida e daquele
meio; sente-se que não podem ser de outra parte, que foram vistas e recolhidas
diretamente. Mas não diz tudo o título. Três, ao menos, das quatro novelas em
que se divide o livro, são pequenos dramas completos. Tais o "Boto" o
"Crime do Tapuio" e a "Sorte de Vicentina". O próprio
"Voluntário da Pátria" tem o drama na alma de tia Zeferina, desde a
quietação na palhoça até aquele adeus que ela fica acenando na margem, não já
ao filho, que a não pode ver, nem ela a ele, mas ao fumo do vapor que se perde
ao longe no rio, como uma sombra.
Em todos eles, os costumes
locais e a natureza grande e rica, quando não é só áspera e dura, servem de
quadro a sentimentos ingênuos, simples e alguma vez fortes. O Sr. José Veríssimo
possui o dom da simpatia e da piedade. As suas principais figuras são as
vítimas de um meio rude, como Benedita, Rosinha e Vicentina, ou ainda aquele
José Tapuio, que confessa um crime não existente, com o único fim de salvar uma
menina, ou de "fazê bem pra ela", como diz o texto. Não se irritem os
amigos da língua culta com a prosódia e a sintaxe de José Tapuio. Há dessas
frases no livro, postas com arte e cabimento, a espaços, onde é preciso
caracterizar melhor as pessoas. Há locuções da terra. Há a tecnologia dos usos
e costumes. Ninguém esquece que está diante da vida amazônica, não toda, mas
aquela que o Sr. José Veríssimo escolheu naturalmente para dar-nos a visão do
contraste entre o meio e o homem.
O contraste é grande. A
floresta e a água envolvem e acabrunham a alma. A magnificência daquelas
regiões chega a ser excessiva. Tudo é inumerável e imensurável. São milhões,
milhares e centenas os seres que vão pelos rios e igarapés, que espiam entre a
água e a terra, ou bramam e cantam na mata, em meio de um concerto de rumores,
cóleras, delícias e mistérios. O Sr. José Veríssimo dá-nos a sensação daquela
realidade. A descrição do caminho que leva ao povoado do Ereré, através do
"coberto", do "lavrado" e de um espaço sem nome, é das mais
belas e acabadas do livro. Assim também a do Paru, ou antes a história do rio
nas duas partes do ano, de verão e de inverno, um só lago intérmino ou muitos
lagos grandes, as ilhas que nascem e desaparecem, com os aspectos vários do
tempo e da margem.
Não são descrições trazidas
de acarreto. As pessoas das narrativas vão para ali continuar a ação começada.
No Paru, como o tempo é de "salga", a água é sulcada de canoas, a
margem alastrada de barracas, o sussurro do trabalho humano espalha-se e
cresce. Aí assistimos à morte trágica do pelintra de Óbitos, regatão de alguns
dias, deixando uma triste moça defunta, amarela e magra. Adiante, por meio do
"coberto" e do "lavrado", vemos correr Vicentina, com a
filha de alguns meses "escarranchada nos quadris", fugindo à casa do
marido, depois às onças, depois à solidão, que parece maior ali que em nenhuma
parte; e ambas as cenas são das mais vivas do livro.
Ao pé do trágico, o mesquinho, o comum, o quotidiano da existência e dos costumes, que o autor pinta breve ou minuciosamente. Os pequenos quadros sucedem-se, como o da Rua Bacuri, na cidade de Óbitos, à hora da sesta, ou no fim dela, quando "a natureza estira os braços num bocejo preguiçoso de quem deixa a rede". A rede é o móvel principal das casas; ela serve ao sono, ao descanso, à palestra, à indolência. Se a casa é pobre, pouco mais há que ela; mas, pouco ou muito, podemos fiar-nos da veracidade do autor, que não perde o que seja um rasgo de costumes ou possa avivar a cor da realidade. Vimos o regatão; veremos o benzedeira, a pintadeira de cuias, a mameluca, sem exclusão do jurado, do promotor, do presidente de província.
Nem falta aqui a observação
fina e aguda. Uma senhora, a quem a tia Zeferina, que a criou, recorre chorando
para que faça soltar o filho preso para voluntário (como diziam aqui no Sul),
ouve a mãe tapuia, tem sincera pena dela, promete que sim, fala do presidente
da província, que é bom moço, do baile do dia 7 de Setembro, em palácio, a que
ela foi: "uma festa de estrondo; as senhoras estavam todas vestidas de
verde e amarelo; muitas tinham mandado vir o vestido do Pará, mas foi tolice,
porque em Manaus arranjava-se um vestido tão bem como no Pará; o dela, por
exemplo, foi muito gabado..." Já a tia Zeferina ouvira cousa análoga ao
Major Rabelo, seu compadre, quando lhe foi contar a prisão do filho, e ele
rompeu furioso contra os adversários políticos. Todos os negócios pessoais se
vão coçando assim naquela agonia errante. No "Boto", é o próprio pai
de Rosinha, que não escava muito as razões do abatimento mortal, da filha,
"por andar atarefado com as eleições".
Que ele também há eleições no
Amazonas; é o tempo da salga política, a quadra das barracas e dos regatões.
Não nos dá um capítulo desses o Sr. José Veríssimo, naturalmente por lhe não
ser necessário, mas a rivalidade da vila e do porto de Monte Alegre é um quadro
vivo do que são raivas locais, os motivos que as acendem, a guerra que fazem e
os ódios que ficam. Aqui basta a questão de saber se o correio morará no porto,
embaixo, ou na vila em cima. E porque não há história sem foguetes, os foguetes
vão contar às nuvens o despacho presidencial. A sessão do júri, no “Crime do
Tapuio”, é outro quadro finamente acabado. Tudo sem sombra da caricatura. O
embarque dos voluntários é outro, mas aí a emoção discreta acompanha os
movimentos mal ordenados dos homens. Nós os vimos desembarcar aqui, esses e
outros, trôpegos e obedientes, marchando mal, mas enfim marchando seguros para
a guerra que já lá vai.
Em tão várias cenas e lances,
o estilo do Sr. José Veríssimo (salvo nos "Esbocetos", cuja estrutura
é diferente) e já o estilo correntio e vernáculo dos seus escritos posteriores.
Já então vemos o homem feito, de mão assentada, dominando a matéria. Há, a
mais, uma nota de poesia, a graça e o vigor das imagens, que outra sorte de
trabalhos nem sempre consentem. Aqui está a frente da casa do sítio em que
Rosinha nasceu: "A palha da cobertura, não aparada, dava-lhe o aspecto
alvar das crianças que trazem os cabelos caídos na testa". No tempo da
pesca emigram, não só os homens, mas também os cães e os urubus. Os cães são
magros e famintos: "Cães magros, com as costelas salientes, como se
houvessem engulido arcos de barris..." Os urubus pousam nas árvores,
alguma vez baixam ao solo, andando "com o seu passo ritmado de anjos de
procissão". A umas árvores que há na grande chaneca do
"coberto", bastava mostrá-las por uma imagem curta e viva, "em
posições retorcidas de entrevados". Mas não se contenta o nosso autor de
as dizer assim: em terra tal, tudo há de vibrar ao calor do sol: “Dir-se-ia que
o sol, que abrasa aquelas paragens, obriga-as a tais contorções violentas e
paralisa-as depois"...
Há muitas dessas imagens
originais e expressivas; melhor é tê-las ou retê-las intercaladas na narração e
na descrição. Chateaubriand, escrevendo em 1834 a Sainte-Beuve, justamente a
propósito de Volupté, que acabava de sair do prelo, pergunta-lhe admirado como
é que ele, René, não achara tantas outras. "Comment n'ai-je pas trouvé ces
deux vieillards et cer deux enfants entre lesquels une révolution a
passé...", etc. Desculpe a pontinha de vaidade, é de Chateaubriand, e
alguma cousa se há de perdoar ao gênio. Mas, em verdade, mais de um de nós
outros poderíamos dizer com sinceridade e modéstia como é que nos não acudiram
tais e tais imagens do nosso autor, pois que elas trazem a feição de cousas
antes saídas do tinteiro que compostas no papel.
Também é dado perguntar por
que é que o Sr. José Veríssimo deixou logo um terreno que soube arrotear com
fruto. Ele dirá, em uma nota, falando dos "Esbocetos", que o fruto
era da primeira mocidade. Vá que sim; mas as Cenas trazem outra experiência, e
a boa terra não é esquecida, se se lhe encomenda alguma cousa com amor.
Até lá, fiquem-nos estas
Cenas da Vida Amazônica. Mais tarde algum crítico da escola do autor compulsará
as suas páginas para restituir costumes extintos. Muito estará mudado. Onde
José Tapuio lutou com a sicuriju até matá-la, outro homem estudará alguma nova
força da natureza até reduzi-la ao doméstico. Coberto e lavrado darão melhor
caminho às pessoas. Já agora, como disse nhá Miloca à mãe tapuia, os vestidos
fazem-se tão bons em Manaus como em Belém. A política irá pelas tesouras da
costureira, e a natureza agasalhará todas as artes, suas hóspedes. Tal crítico,
se tiver o mesmo dom de análise do Sr. José Veríssimo, achará que um testemunho
esclarecido é mais cabal que outro, e regalará os seus leitores dando-lhe este
depoimento feito com emoção, com exação e com estilo.
EDUARDO PRADO
A ÚLTIMA VEZ que vi Eduardo
Prado foi na véspera de deixar o Rio de Janeiro para recolher a S. Paulo, dizem
que com o gérmen do mal e da morte em si. Naquela ocasião era todo vida e
saúde. Quem então me dissesse que ele ia também deixar o mundo, não me causaria
espanto, porque a injustiça da natureza acostuma a gente aos seus golpes; mas,
é certo que eu buscaria maneira de obter outras horas como aquela, em que me
detivesse ao pé dele, para ouvi-lo e admirá-lo.
Só falamos de arte. Ouvi-lhe
notícias e impressões, senti-lhe o gosto apurado e a crítica superior, tudo
envolvido naquele tom ameno e simples, que era um relevo mais aos seus dotes.
Não tínhamos intimidade; faltou-nos tempo e a prática necessária. Antes daquela
vez última, apenas falamos três ou quatro, o bastante para considerá-lo bem e
cortejar o homem com o escritor. Eduardo Prado era dos que se deixam penetrar
sem esforço e com prazer. O que agora li a seu respeito na primeira mocidade,
na escola e nos últimos anos, referido por amigos que parecem não o esquecer
mais, confirma a minha impressão pessoal. Aliás, os seus escritos mostravam bem
o homem. Apanhava-se o sentimento da harmonia que ajustava nele a vida moral,
intelectual e social.
Principalmente artista e
pensador, possuía o divino horror à vulgaridade, ao lugar-comum e à declamação.
Se entrasse na vida política, que apenas atravessou com a pena, em dias de
luta, levaria para ela qualidades de primeira ordem, não contando o humour, tão
diverso da chalaça e tão original nele. Mas a erudição e a história não menos
que a arte, eram agora o seu maior encanto. Sabia bem todas as cousas que
sabia.
Naturalmente remontei comigo,
durante aquela boa hora, e ainda depois dela, ao tempo das cartas de viagem que
nos deu tão rica amostra de um grande talento que viria a crescer e subir. A
matéria em si convidava ao egotismo, mas ele não padecia desse mal. Também
faria correr o risco da repetição de cousas vistas e pintadas, que se não acha
aqui. A faculdade de ver claro e largo, a arte de dizer originalmente a
sensação pessoal, ele as possuía como os principais que hajam andado as terras
ou rasgado os mares deste mundo. Invenção de estilo, observação aguda, erudição
discreta e vasta, graça, poesia e imaginação produziram essas páginas vivas e
saborosas. Aquela partida de Nápoles, sob um céu chuvoso e de chumbo, não se
esquece. Relê-se com encanto essa explicação do tempo áspero. durante o qual o
céu napolitano se recompõe, para começar novamente a ópera "com os coros
de pescadores e as barcarolas, a música de luz e de azul". Assim a África,
assim todas as partes onde quer que este brasileiro levou a ânsia de ver homens
e cousas, cidades e costumes, a natureza vária entre ruínas perpétuas, através
de regiões remotas...
Conta-se que ele chorou,
quando morreu Eça de Queirós. Agora, que ambos são mortos, alguém que
imaginasse e escrevesse o encontro das duas sombras, à maneira de Luciano,
daria uma curiosa página de psicologia. As confabulações de tais espíritos são
dignas de memória. Sterne escreveu que "um dia. conversando com
Voltaire..." e imagina-se o que diriam eles. Imagina-se o que diriam,
todas as noites, Stendhal e Byron, passeando no solitário foyer do Teatro
Scala. Quando Montaigne ouvia as histórias que Amyot lhe ia contar, podemos ver
a delícia de ambos e admitir que as visitas continuam no outro mundo. Assim se
podia dizer do Eça e do Eduardo, por um texto que exprimisse o talento, o amor
das cousas finas e belas, e, enfim, a grande simpatia que um inspirava ao
outro.
Quando me despedi de Eduardo
Prado, naquele dia, vim perguntando a mim mesmo se teria vida bastante para ler
e admirar as obras-primas que esse talentoso brasileiro levava no cérebro em
gestação, ou em gérmen, e durante muitos anos viriam abastecer a nossa língua e
a nossa terra. Seis dias depois, era ele que morria. Chamei injusta à natureza;
bastaria dizer -- indiferente.
ANTÔNIO JOSÉ
UM DIA DESTES, relembrando
uma passagem da tragédia que Magalhães consagrou à memória de Antônio José,
adverti na resposta dada pelo judeu ao Conde de Ericeira, quando este lhe
recomenda que imite Molière; o judeu responde que Molière escrevia para
franceses e ele não. Será essa resposta a rigorosa expressão da verdade?
Antônio José não se modelou, certamente, pelas obras do grande cômico, não
cogitou jamais da simples pintura dos vícios e dos caracteres. Molière caminhou
do Médico Volante e dos Zelos de Barbouillé à Escola das Mulheres e ao Tartufo;
Antônio José não passou das Guerras do Alecrim e Manjerona, e, dado que
tentasse fazê-lo, é certo que não poderia ir muito além. Não tinha centro
apropriado, nem largas vistas; faltavam-lhe outros meios, outros intuitos; e,
se porventura entrou em seu espírito reatar a tradição de Gil Vicente,
levantando sobre os alicerces lançados por esse operário do século XVI as
paredes de um teatro regular, convinha justamente não imitar nada, nem ninguém,
não se fazer Molière, nem Plauto, ficar Antônio José; é a condição das obras
vivas.
Interpretada desse modo, é
exata e verdadeira a resposta que Magalhães põe na boca do judeu; mas só desse
modo. O Anfitrião prova que o nosso poeta alguma cousa imitou e transplantou de
Molière, a tal ponto que forçosamente o tinha diante de si, ou na banca de
trabalho ou na memória; e, porque esta observação não haja sido feita, cuido
que interessará, quando menos, a título de curiosidade literária. Ao mesmo
tempo, direi o que me parece do escritor e da sua obra.
E, antes de mais nada, ocorre
ponderar que Antônio José goza de uma reputação sobre palavra. A fogueira de 18
de outubro de 1739 iluminou-lhe a figura de maneira que o puderam ver todos os
olhos; a tragédia do Sr. Magalhães vulgarizou-o entre as nossas platéias de há
40 anos; mas só os estudiosos o terão lido, e nem todos, porque a tarefa exige
constância e esforço, embora de certo modo os pague. Pode-se dizer, sem erro,
que ele pertence à família dos poetas cômicos, qualquer que seja o grau de
parentesco, -- com a circunstância que era um desperdiçado, -- trocava a boa
moeda do cômico pelo cobre vulgar do burlesco. Mas, poeta cômico era-o, e de
boa veia, -- mais decerto que Nicolau Luís, que lhe sucedeu na estima das
platéias de Lisboa, mais ainda que Manuel de Figueiredo, cujas intenções
literárias abafaram, talvez, a livre expansão do engenho, e que aliás escrevia
de si mesmo que -- "havendo-se enganado consigo em infinitas cousas, nunca
se preocupou de que tinha graça". Acresce que o fim trágico do judeu
comunica às suas páginas alegres e juvenis um reflexo de simpática melancolia,
que ainda mais nos convida a percorrê-las e estudá-las. A piedade não é decerto
razão determinativa em pontos de críticas e tal poetastro haverá que,
sucumbindo a uma grande injustiça social, somente inspire compaixão sem
desafiar a análise. Não é o caso de Antônio José; este mereceria por si só que
o estudássemos, ainda despido das ocorrências trágicas que lhe circundam o
nome.
Nenhuma das comédias do judeu
se pode dizer excelente e perfeita; há porém graus entre elas, e a todas
sobreleva a das Guerras do Alecrim e Manjerona. Nesta, como nas demais,
nota-se, decerto muita espontaneidade, viveza de diálogo, graça de estilo,
variedade de situações, e certo conhecimento de cena; mas a alma de todas elas
não é grande; vive-se ali de enredo e de aparato. Se ao poeta foi estranha a
invenção dos caracteres e a pintura dos vícios, não menos o foi a transcrição
dos costumes locais. Salvo o Alecrim e Manjerona, todas as suas peças são
inteiramente alheias à sociedade e ao tempo; a Esopaida tem por base um assunto
antigo; a Vida de D. Quixote põe em cena o personagem de Cervantes; as outras
peças são todas mitológicas. Podiam estas, não obstante o rótulo, conter a
pintura dos costumes e da sociedade cujo produto eram; mas, conquanto em tais
composições influa muito o moderno, não se descobre nelas nenhuma intenção
daquela natureza.
Ao contrário, a intenção
quase exclusiva do poeta era a galhofa, e tal galhofa que transcendia muita vez
às raias da conveniência pública. Nenhuma de suas peças, -- óperas é o nome
clássico, -- nenhuma é isenta de expressões baixas e até obscenas, com que ele,
segundo lhe argüía um prelado, "chafurdou na imundície". Tinha razão
o prelado, mas não basta ter razão, cumpre saber tê-la. Ora, a baixeza e a
obscenidade das locuções não eram novidade na cena portuguesa, nem na de outros
países; e, deixando de ir agora a exemplos estranhos à nossa língua, basta
lembrar que o Cioso, de Ferreira, do culto autor da Castro, foi dado por
Figueiredo com a declaração de ter sido "expurgado segundo o melindre dos
ouvidos do nosso século". Gil Vicente, sem embargo de se representarem
suas peças na corte de D. João III e D. Manuel, adubava-as às vezes de espécies
que nos parecem hoje bem pouco esquisitas. As óperas do judeu eram dadas num
teatro popular; não as ouvia a corte de D. João V, mas o povo e os burgueses de
Lisboa, cujas orelhas não teriam ainda os melindres que mais tarde lhes
atribuiu Figueiredo. A diferença entre Antônio José e os outros era afinal uma
questão de quantidade; mas, se o tempo lho permitia e, com o tempo, a censura,
que muito é que o poeta reincidisse? Não é isto escusá-lo, mas explicá-lo.
Deixemos os trocados e equívocos, que são um chiste de mau gosto, mácula de
estilo, que o poeta exagerou até à puerilidade, cedendo a si mesmo e ao riso
das platéias. Outro defeito que se lhe argúi, é o tom guindado e os arrebiques
de conceito, que se notam em muitas falas de certos personagens, os deuses,
príncipes e heróis. Um de seus biógrafos, comparando o estilo de tais
personagens com o dos criados e pessoas ínfimas, que são simples e naturais,
supõe que houve no poeta intenção satírica, opinião que me parece carecer de
fundamento, entre outras razões porque não há sempre aquela diferença de
estilo, e não é raro falarem os principais personagens do mesmo modo natural e
reto, que os de condição inferior. Guindam-se muita vez, mas era achaque do
tempo e exageração na maneira de empregar o estilo nobre, porque havia então um
estilo nobre; e, se o judeu teve alguma vez intenção satírica, arrebicando ou
empolando a expressão, tal intenção foi somente literária e nenhuma outra. Que
diremos dos anacronismos de linguagem? Esses são constantes e excessivos. Os
dobrões de Alcmena, e alcunha de Alfacinha, dada a Anfitrião, Juno crismada em
Felizarda, um criado antigo "de corpo à inglesa", outro com
"relógio de pendurucalhos", deviam promover a gargalhada franca do
povo. Esse fugir do meio e da ação para a realidade presente vai algumas vezes
além, como na Esopaida, em que o herói, falando de sua vida, diz que anda em
livros pelo mundo -- "e agora me dizem que se está representando no Bairro
Alto". Já na Vida de D. Quixote havia o poeta posto a mesma cousa na boca
de Sancho, quando o cavaleiro, vendo um barco amarrado, pergunta ao escudeiro:
-- "Sabes onde estamos? -- Sei bem.-- Aonde? -- No Bairro-Alto". O
judeu podia responder que tal sestro foi o de Regnard e o de Boursault, por
exemplo, que pôs o seu Esopo a tomar café e meteu com ele esposas de tabeliães;
podia citar muitos outros exemplos anteriores e contemporâneos, e a crítica se
incumbiria de apontar os que vieram depois dele; mas não vale a pena.
Venhamos ao Anfitrião. Um
erudito escritor, o Sr. Teófilo Braga, supõe que a intenção do poeta, nessa
comédia, foi pintar em Júpiter a pessoa de D. João V, suposição que detidamente
examinei e me parece inteiramente gratuita. Cuido que o crítico faz de uma
coincidência um propósito, e fundamenta a sua suspeita na possível analogia das
aventuras do deus pagão e do rei cristão. A analogia podia ser um elemento de
prova, mas desacompanhada de outras não faz chegar a nenhum resultado
definitivo. Ora, basta ler o Anfitrião, basta comparar a situação do poeta e o
tempo para varrer do espírito semelhante hipótese. Certo, não faltava audácia
ao poeta; aí está, como exemplo, a definição da justiça, feita por Sancho, na
Vida de D. Quixote; mas entre a generalidade desse trecho e a sátira pessoal do
Anfitrião vai um abismo. Ocorre-me que do Anfitrião de Molière também se disse
ser alusão a Luís XIV, com a diferença que em França não se atribuiu a Molière
a intenção de ferir, mas de ser agradável ao rei, que lhe havia encomendado
aquela apoteose de suas próprias aventuras, opinião esta que foi de todo
condenada. Não, não há motivo para atribuir a Antônio José a intenção que lhe
supõe o Sr. Teófilo Braga; e, se tal intenção existisse, o desenlace da
comédia, quando Júpiter se declara acima da lei, viria a ser de um sarcasmo tão
cru que não alcançaríamos compreendê-lo naquele século.
Evidentemente, o judeu achou
na aventura pagã o mesmo que lhe acharam Plauto, Molière e Camões, -- um
assunto prestadio às combinações cênicas, e, demais, singularmente próprio para
as chufas do Bairro-Alto. Desnecessário é dizer os trâmites dessa travessura de
Júpiter, que, namorado de Alcmena, toma a figura do marido e vai à casa dela,
acompanhado de Mercúrio, que copia as feições de Sósias, criado de Anfitrião. O
nosso poeta seguiu no principal a fábula que encontrou nos antecessores,
fazendo-lhe todavia as alterações suscitadas pelo gosto próprio e das platéias.
Assim, o Sósias de Plauto, de Molière e de Camões é na peça de Antônio José um
Saramago. Não lhe mudou ele o essencial; trocando-lhe o nome, obedeceu ao
sistema de dar aos criados nomes burlescos. O de Jason, nos Encantos de Medéia,
chama-se Sacatrapos; há nas outras óperas um Caranguejo, um Esfuziote, um
Chichisbéu. São nomes, não valem mais que nomes. Nem Molière chamou Dandim ao
principal personagem de uma de suas comédias senão para o caracterizar desde
logo de um modo jovial; não pretendeu outra cousa. Contudo, a observação em
relação a Antônio José tem o valor de um rasgo significativo.
Cotejando o Anfitrião de
Antônio José com os de seus antecessores, vê-se o que ele imitou dos modelos, e
o que de sua casa introduziu. Já disse que no principal os seguiu a todos; mas
nem sempre soube escolher, e darei disso um exemplo claro. Camões, que não
sendo poeta cômico, era todavia homem de tacto e gosto, corrigiu, antes de
Molière, o desenlace do Anfitrião de Plauto. Na comédia deste, logo depois de
explicar Júpiter os equívocos da situação e de anunciar ao marido de Alcmena que
o filho desta é seu, mostra-se Anfitrião inteiramente satisfeito e glorioso com
o desenlace. Camões suprimiu tão singular contentamento, e o mesmo fez Molière
-- em ambos os poetas Anfitrião ouve silencioso as declarações do pai dos
deuses, sem que Alcmena assista a elas. Antônio José não só não seguiu nessa
parte os modelos recentes, mas até carregou a mão sobre o que imitou de Plauto.
A alegria do seu Anfitrião e da sua Alcmena é tão franca, tamanho é o alvoroço
dos dous esposos, que realmente chega a ofender as leis da verossimilhança,
ainda tratando-se de um caso divino. Neste ponto Antônio José antes inadvertido
do que obrigado do gosto público. Outro caso. Nas comédias anteriores não há
nenhum lugar em que Alcmena veja ao mesmo tempo os dois Anfitriões, e isto não
só era necessário para prolongar e justificar os equívocos, mas até o exigia a
verossimilhança, porque, desde que Alcmena chegasse a ver juntos os dous
exemplares exatos do marido, saía da boa fé que serve de fundamento à sua
ilusão, para cair no maravilhoso e no inextricável. E é justamente o que
acontece na comédia do judeu.
Vamos agora ao que o judeu
imitou diretamente de Molière. Há na comédia daquele um caráter, o de
Cornucópia, mulher de Saramago, que não tem equivalente na de Plauto, nem na de
Camões, e que só na de Molière existe. "Molière (é observação de La
Harpe), fazendo de Cléanthis mulher de Sósias, inventou uma situação paralela à
de Anfitrião e Alcmena, dando-lhe porém diferente aspecto; Cléanthis pertence
ao número das esposas que, "por serem honestas cuidam ter o direito de ser
insuportáveis". Ora bem, a situação e o caráter de Cléanthis
transportou-os o judeu para o seu Anfitrião, e não se pode dizer encontro
fortuito, senão deliberado propósito. Basta cortejá-los com espírito advertido
-- a diferença é de tom, de estilo; substancialmente, a invenção é a mesma --
as próprias idéias reproduzem-se às vezes na obra do judeu. Assim, logo na cena
em que Mercúrio transformado em Saramago (Sósias) encontra a mulher deste,
achamos o traço comum aos dois poetas.
Na comédia de Molière:
CLÉANTHIS
Regarde,
traitre, Amphytrion;
Vois
comme pour Alcmène il étale de flamme.
Et
rougis là-dessus du peu de passion
Que
tu témoignes pour ta femme.
MERCÚRIO
Hé!
mon Dieu! Cléanthis, ils sont encore amants.
Il
est certain âge ou tout passe;
Et
ce qui leur sied bien dans ces commencements,
En
nous, vieux mariés, aurait mauvaise grâce.
Il
nous ferait beau voir, attachés face à tace.
À
pousser les beaux sentiments!
CLÉANTHIS
Mérites-tu,
pendard, cet insigne bonheur
De
te voir pour épouse une femme d'honneur?
MERCÚRIO
Mon
Dieu! tu n'es que trop honnête;
Ce
grand honneur ne me vaut rien.
Ne
sois point si femme de bien,
Et
me romps un peu moins la tête.
Agora Antônio José:
CORNUCÓPIA -- Também nosso
amo trazia bastante fome, e contudo está dizendo à nossa ama tanta cousa
galantinha que faria derreter uma pedra.
MERCÚRIO -- Com que é o mesmo
nossos amos do que nós? Eles casadinhos de um ano, e nós há um século. Eles
senhores e rapazes, e nós velhos e moços?! Eles dous jasmins e nós dous
lagartos? E finalmente eles com amor, e nós, ou pelo menos eu, sem nenhum?
CORNUCÓPLA -- Ora, o certo é
que pior é fazer festa a vilões ruins; por estas, que se tu conheceras a mulher
que tens, que outra cousa fora, talvez que se eu fora alguma dessas
bandeirinhas enfeitadas que me quiseras mais; porém a culpa tenho eu em não
aceitar o que me davam nas tuas costas.
MERCÚRIO -- Pois ainda estás
em tempo...
Trata-se, como se vê, de um
caráter e de uma situação integralmente transcritos, embora de outro jeito,
cedendo o poeta aos seus hábitos literários, à sua índole e ao seu meio. Nem é
somente na introdução do caráter de Cornucópia, e na situação dos dous
personagens, que Antônio José revela ter diante de si ou na memória a peça de
Molière; há ainda outro vestígio; há uma idéia na cena em que Júpiter se
despede de Alcmena, -- idéia que o judeu expressa deste modo:
ALCMENA -- Este amor nasce da
obrigação.
JÚPITER -- Pois quisera que
esta fineza nascera mais do teu amor que de tua obrigação.
ALCMENA -- A obrigação de
amar ao esposo supera toda a obrigação.
JÚPITER -- Pois mais devera
que me quiseras como a amante que como a esposo.
ALCMENA -- Não sei fazer esta
diferença, pois não posso amar-te como a esposa, sem que te ame como a amante.
Na comédia de Molière:
JÚPITER
En
moi, belle et charmante Alcmène,
Vous
voyez un mari, vous voyez un amant;
Mais
l'amant seul me touche, à parler franchement,
Et
je sens près de vous que le mari me gêne.
Cet
amant, de vos voeux jaloux au dernier point,
Souhaite
qu'à lui seul votre amour s'abandonne.
ALCMENA
Je
ne sépare point ce qu'unissent les dieux;
Et
l'époux et l'amant me sont forte précieux.
Se, neste ponto, já se não
trata de uma situação, de um caráter novo, mas de uma idéia entrelaçada no
diálogo, importa repetir que ainda imitando ou recordando, o judeu se conserva
fiel à sua fisionomia literária; pode ir buscar a especiaria alheia, mas há de
ser para temperá-la com o molho da sua fábrica. Dessa inclinação ao baixo
cômico achamos outro exemplo na Esopaida, cujo assunto fora tratado, antes
dele, por Boursault. O caráter tradicional de Esopo era pouco apropriado à
comédia: é um moralista, um autor de apólogos, mas Boursault trouxe-o assim
mesmo para a cena, único modo de lhe conservar a cor original. O Esopo de
Antônio José parece antes um exemplar apurado daqueles lacaios argutos e
atrevidos da comédia clássica; salvo dous ou três lugares, é outro gênero de
Sacatrapos ou Chichisbéu; figura ali com agudezas e trocadilhos. Há destes
extremamente bufões, como o da bacia das almas, e disso e de pouco mais se
compõe a filosofia de Esopo. Não obstante essa cor geral, notam-se ali toques
de bom cômico, embora leves e a espaços. Há também, e principalmente, a veia
satírica, na cena que quase todos os seus biógrafos transcrevem, -- a das teses
dos filósofos, cena extremamente chistosa, e que o próprio Dinis, com toda a
sua veia do Hissope e do Falso Heroísmo, não sei se chegaria a fazer mais
acabada. Compare-se essa cena com a da invasão do Parnaso pelos maus poetas, na
Vida de D. Quixote, e ver-se-á que havia no talento de Antônio José uma forte
dose de sátira, -- o que, de certa maneira, lhe diminuía a força cômica. Nessas
duas peças é, aliás, sensível a habilidade teatral do poeta, que não tinha
propriamente uma ação em nenhuma delas, e não obstante, logrou condensar a vida
dos episódios, manter a unidade do interesse e angariar o aplauso público.
Acresce que o seu D. Quixote não tem o defeito capital do seu Esopo; o poeta
soube dar-lhe alguns toques da ingenuidade sublime que caracteriza o tipo de
Cervantes: é o que se vê logo, na exposição, quando D. Quixote responde ao
barbeiro acerca da armada que se prepara para combater o turco: -- "Para
que se cansam com tantas máquinas? diz ele. Eu lhes dera um bom arbítrio com
que, em menos de uma hora, vençam quantas armadas e armadilhas o turco
tiver". É ocioso dizer que o arbítrio seria a cavalaria andante.
De todas as comédias, porém,
a que goza as honras da primazia, é a das Guerras do Alecrim e Manjerona, e com
razão; é a mais acabada e a mais cômica. Tem o gosto do tempo, e até um
ressaibo da maneira de Calderón, que de si mesmo escrevia:
Es
comedia de Don Pedro
Calderón,
donde ha de haber,
Por
fuerza, amante escondido
Y
rebozada mujer.
Há ali com efeito mulheres
rebuçadas e amantes escondidos, e tanta vida como nas peças de Calderón.
Não trato aqui do fato que
poderia ter dado lugar à obra do judeu, nem das dúvidas de Costa e Silva sobre
se os dous rancilos do alecrim e da manjerona existiam antes da comédia, ou se
esta os fez nascer; é investigação que não vale a pena de um minuto, e aliás o
texto do poeta é claro. Em tudo se avantaja o Alecrim e Manjerona, até na linguagem,
que é aí muito menos obscena que nas outras, diferença que se pode atribuir ao
progresso do talento, porquanto já no Labirinto de Creta se dá o mesmo
fenômeno. Não direi, como Garrett, que essa peça teria hoje todo o valor de uma
comédia histórica, mas assim mesmo, quem lhe vê as figuras, a século e meio de
distancia, parece contemplar uma gravura em que elas conservam as feições e o
vestuário do tempo,-- os namorados pobres, o velho avarento que arde por se ver
livre das sobrinhas, e que, ao anunciarem-lhe a chegada do pretendente
provinciano, manda deitar "mais um ovo nos espinafres", D. Tibúrcio,
as duas damas, o Semicúpio e a velha Fagundes, todo o pessoal da antiga farsa.
Superior às outras
composições, como estilo e originalidade, não menos o é como viveza, graça e
movimento: e, se a farsa domina, não é tanto que não apareça a comédia. Basta
apontar, por exemplo a cena da consulta médica, por ocasião do desastre de D.
Tibúrcio, que é uma das melhores do teatro do judeu, e não ficaria vexada se a puséssemos
ao ledo das de Molière e Gil Vicente. Para não faltar nada, há também aforismos
latinos, e até uma copla latina, digna de Molière. Podemos considerar o Alecrim
e Manjerona como uma das melhores comédias do século XVIII.
Ler o Alecrim e Manjerona, o
Anfitrião, a Esopaida e o D. Quixote, é avaliar todo o poeta, com suas
qualidades boas e más, com o jeito do seu espírito e influência do seu tempo.
Nicolau Luís Figueiredo Dinis e Garção, no mesmo século, tiveram talvez mais intenção
cômica do aue Antônio José, mas os meios deste eram maiores, possuíam outra
virtualidade, outra espontaneidade, outra abundância. Dir-se-á que, se a
Inquisição o deixara viver, Antônio José produziria alguma obra de esfera
superior? Repito: não creio que ele subisse muito acima do Alecrin1 e
Manjerona; iria talvez ao ponto de fazer alguma cousa parecida com o Avaro, mas
não faria todo o Avaro.
Agora, a século e meio de
distancia, podemos afirmar que Antônio José foi um destino decapitado. Qualquer
que fosse a natureza do seu engenho, é fora de dúvida que o auto-da-fé em que
ele pereceu, devorou com a mesma flama assaz de páginas alegres e vivazes. A
prova de que o teatro poderia ainda esperar muito de Antônio José, está na
comparação das obras dele com a vida dele. Era um cristão-novo, como tal
suspeitado e perseguido; aos vinte e um anos padeceu um primeiro processo, e
sabe-se que terríveis eram os processos inquisitoriais: basta dizer que o
delinqüente revelou todos os seus cúmplices em judaísmo, com a maior franqueza
e minuciosidade, o que se pode explicar pela tenra idade do poeta, mas também
pelo terror que o tribunal infundia, não menos que pela exortação mansa com que
os inquisidores extorquiam a confissão de todos os erros e a denúncia de todos
os cúmplices, -- sem prejuízo, aliás, do cárcere e da polé. Pois bem, não
obstante os vestígios e as lembranças desse primeiro ato da Inquisição, não
obstante o espetáculo do que padeciam os seus, as óperas de Antônio José trazem
o sabor de uma mocidade imperturbavelmente feliz, a facécia grossa e petulante,
tal como lha pedia o paladar das platéias, nenhum vislumbre do episódio
trágico, salvo uns versos do Anfitrião que se crêem (e, quanto a mim, sem outro
fundamento além da conjetura) como aplicáveis a ele mesmo. Mas ainda supondo
que a conjetura tenha razão, admitindo mais que a alegoria da justiça na Vida
de D. Quixote seja o resumo das queixas pessoais do poeta (suposição tão frágil
como aquela), a verdade é que os sucessos da vida dele não influíram, não
diminuíram a força nativa do talento, nem lhe torceram a natureza, que estava
muito longe da hipocondria. Molière, que, se nem sempre teve flores no caminho,
não conheceu o ínfimo dos padecimentos de Antônio José, foi o criador de
Alceste; o nosso judeu, dado que tivesse a mesma intensidade de talento, não
escolheria nunca o assunto do Misantropo.
Nisto, menos que em nenhuma
outra cousa, imitaria ele o grande mestre. Não lhe fossem propor graves
problemas, nem máximas profundas, nem os caracteres, nem as altas observações
que formam o argumento das comédias de outra esfera, nem sobretudo as
melancolias de Molière e Shakespeare. O nosso judeu era a farsa, a genuína
farsa, sem outras pretensões, sem mais remotas vistas que os limites do seu
bairro e do seu tempo. Certo, eu posso hoje, à fina força arrancar alguma idéia
inicial das óperas do judeu; por exemplo, ao ver nos Encantos de Medéia a
dedicação da feiticeira de Colchos, que trai os deveres filiais e põe todas as
suas artes ao serviço de lason, ao ponto de lhe entregar o velocino e ao ver
que, apesar de tudo isto, o príncipe foge com Creusa, posso, digo eu, atribuir
ao poeta a intenção de que o reconhecimento não é caminho do amor e que um
coração pode ser legitimamente ingrato. Seria lógico, seria bem deduzido da
ação, mas não passaria de obra da crítica, inteiramente alheia à intenção do
poeta, que achou no assunto uma farsa de tramóias e nada mais. Esta é a última
conclusão que rigorosamente se pode tirar do poeta. Ele não imitou, não
chegaria a imitar Molière, ainda que repetisse as transcrições que fez no
Anfitrião; tinha originalidade, embora a influência das óperas italianas.
Convenhamos que era um engenho sem disciplina, nem gosto, mas característico e
pessoal.
FIM