
Crisálidas, de Machado de Assis
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Machado de Assis
ÍNDICE:
1.
MUSA CONSOLATRIX 7.
ERRO
2.
VISIO
8.
ELEGIA
3.
QUINZE ANOS 9.
SINHÁ
4.
STELLA 10. HORAS VIVAS
5.
EPITÁFIO DO
MÉXICO 11. VERSOS A CORINA
6. POLÔNIA 12. ÚLTIMA FOLHA
MUSA CONSOLATRIX
QUE A MÃO do tempo e o hálito
dos homens
Murchem a flor das ilusões da
vida,
Musa
consoladora,
É no teu seio amigo e
sossegado
Que o poeta respira o suave
sono.
Não
há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios
ermos;
Da tua voz os namorados
cantos
Enchem,
povoam tudo
De íntima paz, de vida e de
conforto.
Ante esta voz que as
dores adormece,
E muda o agudo espinho em
flor cheirosa
Que vales tu, desilusão dos
homens?
Tu
que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta
sobrenada
À
enchente das angústias,
E, afrontando o rugido da
tormenta,
Passa cantando, alcíone
divina.
Musa
consoladora,
Quando da minha fronte de
mancebo
A última ilusão cair, bem
como
Folha
amarela e seca
Que ao chão atira a viração
do outono,
Ah!
no teu seio amigo
Acolhe-me,— e haverá minha
alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que
teve,
A paz, o último bem, último e
puro!
ERAS PÁLIDA. E os cabelos,
Aéreos, soltos novelos
Sobre as espáduas caíam...
Os olhos meio cerrados
De volúpia e de ternura
Entre lágrimas luziam...
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiam...
Depois, naquele delírio,
Suave, doce martírio
De pouquíssimos instantes
Os tous lábios sequiosos.
Frios, trêmulos, trocavam
Os beijos mais delirantes
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes..
Depois... depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquele sonho desperto,
Olhei... silêncio de morte
Respirava a natureza —
Era a terra, era o deserto,
Fora-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.
Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira;
Tu e o teu olhar ardente,
Lábios trêmulos e frios,
O abraço longo e apertado.
O beijo doce e veemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a fantasia doente.
E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquele sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indiferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de peota
Não se vê a imagem presente
Foi a visão do passado
Foi, sim, mas visão apenas;
Daquelas visões amenas
Que à mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes:
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raízes.
Inda assim, embora sonho,
Mas, sonho doce e risonho,
Desse-me Deus que fingida
Tivesse aquela ventura
Noite por noite, hora a hora,
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora,
Chorara de agradecida!
QUINZE ANOS
Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu fannée,
Insoluciant enfant, belle Ève aux blonds cheveux!
Alfred de Musset
ERA UMA pobre criança ...
—Pobre criança, se o eras! —
Entre as quinze primaveras
De sua vida cansada
Nem uma flor de esperança
Abria a medo. Eram rosas
Que a douda da esperdiçada
Tão festivas, tão formosas,
Desfolhava pelo chão.
— Pobre criança, se o eras! —
Os carinhos mal gozados
Eram por todos comprados,
Que os afetos de sua alma
Havia-os levado à feira,
Onde vendera sem pena
Até a ilusão primeira
Do seu doudo coração!
Pouco antes, a candura,
Coas brancas asas abertas,
Em um berço de ventura
A crianca acalentava
Na santa paz do Senhor;
Para acordá-la era cedo.
E a pobre ainda dormia
Naquele mudo segredo
Que só abre o seio um dia
Para dar entrada a amor.
Mas, por teu mal, acordaste!
Junto do berço passou-te
A festiva melodia
Da sedução ... e acordou-te
Colhendo as límpidas asas,
O anjo que te velava
Nas mãos trêmulas e frias
Fechou o rosto... chorava!
Tu, na sede dos amores,
Colheste todas as flores
Que nas orlas do caminho
Foste encontrando ao passar;
Por elas, um só espinho
Não te feriu... vais
andando...
Corre, criança, até
quando
Fores forçada a parar!
Então, desflorada a alma
De tanta ilusão, perdida
Aquela primeira calma
Do teu sono de pureza;
Esfolhadas, uma a uma
Essas rosas de beleza
Que se esvaem como a escuma
Que a vaga cospe na
praia
E que por si se desfaz;
Então quando nos teus olhos
Uma lágrima buscares,
E secos, secos de febre,
Uma só não encontrares
Das que em meio das angústias
São um consolo e uma paz;
Então, quando o frio 'spectro
Do abandono e da penúria
Vier aos teus sofrimentos
Juntar a última injúria:
E que não vires ao lado
Um rosto, um olhar amigo,
Daqueles que são agora
Os desvelados contigo;
Criança, verás o engano
E o erro dos sonhos teus-
E dirás, - então já tarde, -
Que por tais gozos não vale
Deixar os braços de Deus.
JÁ RARO e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o último pranto
Por todo o vasto espaço.
Tíbio clarão já cora
A tecla do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora.
À muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.
Uma por uma, vão
As pálidas estrelas,
E vão, e vão com elas
Teus sonhos, coração.
Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o úmido seio?
Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a névoa fria
Virá do roxo oriente.
Dos íntimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera,
Em lágrimas a pares,
Do amor silencioso,
Místico, doce, puro,
Dos sonhos de futuro,
Da paz, do etéreo gozo,
De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.
A virgem da manhã
Já todo o céu domina ...
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã.
EPITÁFIO DO MÉXICO
DOBRA o joelho: — é um
túmulo.
Embaixo amortalhado
Jaz o cadáver tépido
De um povo aniquilado;
A prece melancólica
Reza-lhe em torno à cruz.
Ante o universo atônito
Abriu-se a estranha liça
Travou-se a luta férvida
Da força e da justiça;
Contra a justiça, ó século,
Venceu a espada e o obus.
Venceu a força indômita;
Mas a infeliz vencida
A mágoa, a dor, o ódio,
Na face envilecida
Cuspiu-lhe. E a eterna mácula
Seus louros murchará.
E quando a voz fatídica
Da santa liberdade
Vier em dias prósperos
Clamar à humanidade
Então revivo o México
Da campa surgirá
POLÔNIA
E ao terceiro dia a alma deve voltar ao
corpo, e a nação ressuscitará.
Mickiewicz
COMO AURORA de um dia desejado,
Clarão suave o horizonte
inunda.
É talvez a manhã. A noite
amarga
Como que chega ao termo; e o
sol dos livres,
Cansado de te ouvir o inútil
pranto,
Alfim ressurge no dourado
Oriente.
Eras livre —tão livre como as
águas
Do teu formoso, celebrado
rio;
A
coroa dos tempos
Cingia-te a cabeça veneranda;
E a desvelada mãe, a irmã
cuidosa,
A
santa liberdade,
Como junto de um berço
precioso,
À porta dos teus lares
vigiava.
Eras feliz demais, demais
formosa;
A sanhuda cobiça dos tiranos
Veio enlutar teus venturosos
dias...
Infeliz! a medrosa liberdade
Em face dos canhões
espavorida
Aos reis abandonou teu chão
sagrado;
Sobre
ti, moribunda,
Viste cair os duros
opressores:
Tal a gazela que percorre
os campos,
Se
o caçador a fere,
Cai convulsa de dor em
mortais ânsias,
E
vê no extremo arranco
Abater-se
sobre ela
Escura nuvem de famintos
corvos.
Presa uma vez da ira dos
tiranos,
Os
membros retalhou-te
Dos senhores a esplêndida cobiça;
Em proveito dos reis a terra
livre
Foi repartida, e os filhos
teus—escravos—
Viram descer um véu de luto à
pátria
E apagar-se na história a
glória tua.
A glória, não!—É glória o
cativeiro,
Quando a cativa, como tu, não
perde
A aliança de Deus, a fé que
alenta
E essa união universal e muda
Que faz comuns a dor, o ódio,
a esperança.
Um dia, quando o cálix da
amargura,
Mártir, até às fezes
esgotaste,
Longo tremor correu as fibras
tuas;
Em teu ventre de mãe, a
liberdade
Parecia soltar esse vagido
Que faz rever o céu no olhar
materno;
Teu coração estremeceu; teus
lábios
Trêmulos de ansiedade e de
esperança,
Buscaram aspirar a longos
tragos
A vida nova nas celestes
auras.
Então
surgiu Kosciuszko;
Pela mão do Senhor vinha
tocado
A fé no coração, a espada em
punho,
E na ponta da espada a torva
morte,
Chamou aos campos a nação
caída.
De novo entre o direito e a
força bruta
Empenhou-se o duelo atroz e
infausto
Que
a triste humanidade
Inda verá por séculos
futuros.
Foi longa a luta; os filhos
dessa terra
Ah! não pouparam nem valor
nem sangue!
A mãe via partir sem pranto
os filhos
A irmã o irmão, a esposa o
esposo,
E
todas abençoavam
A heróica legião que ia à
conquista
Do
grande livramento.
Coube
às hostes da força
Da
pugna o alto prêmio;
A
opressão jubilosa
Cantou essa vitória de
ignomínia;
E de novo, ó cativa, o véu de
luto
Correu sobre teu rosto!
Deus
continha
Em suas mãos o sol da
liberdade,
E inda não quis que nesse dia
infausto
Teu macerado corpo alumiasse.
Resignada à dor e ao
infortúnio,
A mesma fé, o mesmo amor
ardente
Davam-te
a antiga força.
Triste viúva, o templo
abriu-te as portas;
Foi a hora dos hinos e das
preces;
Cantaste a Deus, tua alma
consolada
Nas asas da oração aos céus
subia,
Como a refugiar-se e a
refazer-se
No
seio do infinito.
E quando a forca do feroz
cossaco
À casa do Senhor ia
buscar-te,
Era
ainda rezando
Que te arrastavas pelo chão
da igreja.
Pobre nação!—é longo o teu
martírio;
A tua dor pede vingança e
termo;
Muito hás vertido em lágrimas
e sangue;
É propícia esta hora. O sol
dos livres
Como que surge no dourado
Oriente.
Não
ama a liberdade
Quem não chora contigo as
dores tuas;
E não pede, e não ama, e não
deseja
Tua ressurreição, finada
heróica!
ERRO
ERRO É TEU. Amei-te um dia
Com esse amor passageiro
Que nasce na fantasia
E não chega ao coração;
Não foi amor, foi apenas
Uma ligeira impressão;
Um querer indiferente,
Em tua presença, vivo,
Morto, se estavas ausente,
E se ora me vês esquivo
Se, como outrora, não vês
Meus incensos de poeta
Ir eu queimar a teus pés,
É que,—como obra de um dia,
Passou-me essa fantasia.
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras.
Tuas frívolas quimeras,
Teu vão amor de ti mesma,
Essa pêndula gelada
Que chamavas coração,
Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada
Me conseguissem prender;
Foram baldados tentames,
Saiu contra ti o azar,
E embora pouca, perdeste
A glória de me arrastar
Ao teu carro... Vãs quimeras!
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras...
ELEGIA
A bondade choremos inocente
Cortada em flor que, pela mão da morte,
Nos foi arrebatada dentre a gente.
CAMÕES
SE, COMO OUTRORA, nas florestas virgens,
Nos fosse dado—o esquife que
te encerra
Erguer a um galho de árvore
frondosa
Certo, não tinhas um melhor
jazigo
Do que ali, ao ar livre,
entre os perfumes
Da florente estação, imagem
viva
De teus cortados dias, e mais
perto
Do
clarão das estrelas.
Sobre teus pobres e adorados
restos,
Piedosa, a noite ali
derramaria
De seus negros cabelos puro
orvalho
À beira do teu último jazigo
Os alados cantores da
floresta
Iriam sempre modular
seus cantos
Nem letra, nem lavor de
emblema humano,
Relembraria a mocidade morta;
Bastava só que ao
coração materno,
Ao do esposo, ao dos teus, ao
dos amigos,
Um aperto, uma dor, um pranto
oculto,
Dissesse: —Dorme aqui, perto
dos anjos,
A cinza de quem foi gentil
transunto
De
virtudes e graças.
Mal havia transposto da
existência
Os dourados umbrais; a vida
agora
Sorria-lhe toucada
dessas flores
Que o amor, que o talento e a
mocidade
À
uma repartiam.
Tudo lhe era presságio alegre
e doce;
Uma nuvem sequer não
sombreava,
Em sua fronte, o íris
da esperança;
Era, enfim, entre os seus a
cópia viva
Dessa ventura que os mortais
almejam,
E que raro a fortuna, avessa
ao homem.
Deixa
gozar na terra.
Mas eis que o anjo pálido da
morte
A pressentiu feliz e bela e
pura
E, abandonando a região do
olvido,
Desceu à terra, e sob a asa
negra
A fronte lhe escondeu; o
frágil corpo
Não pôde resistir; a noite
eterna
Veio
fechar seus olhos
Enquanto
a alma abrindo
As asas rutilantes pelo
espaço.
Foi engolfar-se em luz,
perpetuamente,
Tal a assustada pomba, que na
árvore
O ninho fabricou,—se a mão do
homem
Ou a impulsão do vento um dia
abate
No
seio do infinito
O recatado asilo,—abrindo o
vôo,
Deixa
os inúteis restos
E, atravessando airosa os
leves ares
Vai buscar noutra parte outra
guarida.
Hoje, do que era inda
lembrança resta
E que lembrança! Os olhos
fatigados
Parecem ver passar a sombra
dela
O atento ouvido inda lhe
escuta os passos
E as teclas do piano, em que
seus dedos
Tanta harmonia despertavam
antes
Como que soltam essas doces
notas
Que outrora ao seu contacto
respondiam.
Ah! pesava-lhe este ar da
terra impura
Faltava-lhe esse alento de
outra esfera,
Onde, noiva dos anjos, a
esperavam
As
palmas da virtude.
Mas, quando assim a flor da
mocidade
Toda se esfolha sobre o chão
da morte,
Senhor, em que firmar a
segurança
Das venturas da terra? Tudo
morre;
A sentença fatal nada se
esquiva,
O que é fruto e o que é flor.
O homem cego
Cuida haver levantado em chão
de bronze
Um edifício resistente aos
tempos
Mas lá vem dia, em que, a um
leve sopro,
O
castelo se abate,
Onde, doce ilusão, fechado
havias
Tudo o que de melhor a alma
do homem
Encerra
de esperanças.
Dorme,
dorme tranqüila
Em teu último asilo: e se eu
não pude
Ir espargir também algumas
flores
Sobre a lájea da tua sepultura;
Se não pude,—eu que há pouco
te saudava
Em teu erguer, estrela,—os
tristes olhos
Banhar nos melancólicos
fulgores,
Na triste luz do teu recente
ocaso,
Deixo-te ao menos nesses
pobres versos
Um penhor de saudade , e lá
na esfera
Aonde aprouve ao Senhor
chamar-te cedo
Possas tu ler nas pálidas
estrofes
A
tristeza do amigo.
SINHÁ
O teu nome é como o óleo derramado.
Cântico dos Cânticos.
NEM O PERFUME que expira
A flor, pela tarde amena,
Nem a nota que suspira
Canto de saudade e pena
Nas brandas cordas da lira;
Nem o murmúrio da veia
Que abriu sulco pelo chão
Entre margens de alva areia,
Onde se mira e recreia
Rosa fechada em botão;
Nem o arrulho enternecido
Das pombas nem do arvoredo
Esse amoroso arruído
Quando escuta algum segredo
Pela brisa repetido;
Nem esta saudade pura
Do canto do sabiá
Escondido na espessura
Nada respira doçura
Como o teu nome, Sinhá!
HORAS VIVAS
NOITE; abrem-se as flores.
Que
esplendores!
Cíntia sonha amores
Pelo
céu.
Tênues as neblinas
Às
campinas
Descem das colinas
Como
um véu.
Mãos em mãos travadas
Animadas,
Vão aquelas fadas
Pelo
ar
Soltos os cabelos,
Em
novelos
Puros, louros, belos
A
voar.
"Homem, nos teus dias
Que
agonias
Sonhos, utopias,
Ambições;
Vivas e fagueiras,
As
primeiras
Como as derradeiras
Ilusões!
Quantas, quantas vidas
Vão
perdidas,
Pombas malferidas
Pelo
mal!
Anos após anos,
Tão
insanos
Vêm os desenganos
Afinal.
Dorme: se os pesares
Repousares.
Vês? —por estes ares
Vamos
rir;
Mortas, não; festivas,
E
lascivas,
Somos—horas vivas
De
dormir. —"
VERSOS A CORINA
Tacendo il nome di questa gentilissima
DANTE
I
TU NASCESTE de um beijo e de
um olhar. O beijo
Numa hora de amor, de ternura
e desejo,
Uniu a terra e o céu. O olhar
foi do Senhor,
Olhar de vida, olhar de
graça, olhar de amor;
Depois, depois vestindo a
forma peregrina,
Aos meus olhos mortais,
surgiste-me, Corina!
De um júbilo divino os cantos
entoava
A natureza mãe, e tudo
palpitava,
A flor aberta e fresca, a
pedra bronca e rude
De uma vida melhor e nova
juventude.
Minh'alma adivinhou a origem
do teu ser;
Quis cantar e sentir; quis
amar e viver
A luz que de ti vinha,
ardente, viva, pura,
Palpitou, reviveu a pobre
criatura;
Do amor grande elevado
abriram-se-lhe as fontes
Fulgiram novos sóis,
rasgaram-se horizontes
Surgiu, abrindo em flor, uma
nova região;
Era o dia marcado à minha
redenção.
Era assim que eu sonhava a
mulher. Era assim:
Corpo de fascinar, alma de
querubim;
Era assim: fronte altiva e
gesto soberano
Um porte de rainha a um tempo
meigo e ufano
Em olhos senhoris uma luz tão
serena,
E grave como Juno, e belo
como Helena!
Era assim, a mulher que
extasia e domina
A mulher que reúne a terra e
o céu: Corina!
Neste fundo sentir, nesta
fascinação,
Que pede do poeta o amante
coração?
Viver como nasceste, ó
beleza, ó primor
De uma fusão do ser, de uma
efusão do amor.
Viver,
—fundir a existência
Em
um ósculo de amor,
Fazer
de ambas—uma essência,
Apagar
outras lembranças,
Perder
outras ilusões,
E
ter por sonho melhor
O
sonho das esperanças
De
que a única ventura
Não
reside em outra vida,
Não
vem de outra criatura;
Confundir
olhos nos olhos,
Unir
um seio a outro seio,
Derramar
as mesmas lágrimas
E
tremer do mesmo enleio,
Ter
o mesmo coração,
Viver
um do outro viver...
Tal
era a minha ambição.
Donde
viria a ventura
Desta
vida? Em que jardim
Colheria
esta flor pura?
Em
que solitária fonte
Esta
água iria beber'?
Em
que incendido horizonte
Podiam
meus olhos ver
Tão
meiga, tão viva estrela,
Abrir-se
e resplandecer?
Só
em ti: —em ti que és bela,
Em
ti que a paixão respiras,
Em
ti cujo olhar se embebe
Na
ilusão de que deliras,
Em
ti, que um ósculo de Hebe
Teve
a singular virtude
De
encher, de animar teus dias,
De
vida e de juventude...
Amemos! diz a flor à brisa
peregrina,
Amemos! diz a brisa, arfando
em torno à flor;
Cantemos esta lei e vivamos,
Corina,
De uma fusão do ser, de uma
efusão do amor.
II
A minha alma, talvez, não é
tão pura,
Como era pura nos primeiros
dias;
Eu sei; tive choradas agonias
De que conservo alguma nódoa
escura,
Talvez. Apenas à manhã da
vida
Abri meus olhos virgens e
minha alma.
Nunca mais respirarei a paz e
a calma,
E me perdi na porfiosa lida.
Não sei que fogo interno me
impelia
À conquista da luz, do amor,
do gozo,
Não sei que movimento
imperioso
De um desusado ardor minha
alma enchia.
Corri de campo em campo e
plaga em plaga.
(Tanta ansiedade o coração
encerra!)
A ver o lírio que brotasse a
terra,
A ver a escuma que cuspisse —
a vaga.
Mas, no areal da praia, no
horto agreste,
Tudo aos meus olhos ávidos
fugia...
Desci ao chão do vale que se
abria,
Subi ao cume da montanha
alpestre.
Nada! Volvi o olhar ao céu.
Perdi-me
Em meus sonhos de moço e de
poeta;
E contemplei, nesta ambição
inquieta
Da muda noite a página
sublime.
Tomei nas mãos a citara
saudosa
E soltei entre lágrimas um
canto.
A terra brava recebeu meu
pranto
E o eco repetiu-me a voz
chorosa.
Foi em vão. Como um languido
suspiro,
A voz se me calou, e do ínvio
monte
Olhei ainda as linhas do
horizonte,
Como se olhasse o último
retiro.
Nuvem negra e veloz corria
solta
O anjo da tempestade
anunciando
Vi ao longe as alcíones
cantando
Doidas correndo à flor da
água revolta.
Desiludido, exausto, ermo,
perdido,
Busquei a triste estância do
abandono
E esperei, aguardando o
ultimo sono
Volver à terra, de que foi
nascido.
"Ó Cibele fecunda, é no
remanso
Do teu seio que vive a
criatura;
Chamem-te outros morada
triste e escura,
Chamo-te glória, chamo-te
descanso!"
Assim falei. E murmurando aos
ventos
Uma blasfêmia atroz —
estreito abraço
Homem e terra uniu, e em
longo espaço
Aos ecos repeti meus vãos
lamentos.
Mas,
tu passaste... Houve um grito
Dentro
de mim. Aos meus olhos
Visão
de amor infinito,
Visão
de perpétuo gozo
Perpassava
e me atraía,
Como
um sonho voluptuoso
De
sequiosa fantasia.
Ergui-me
logo do chão,
E
pousei meus olhos fundos
Em
teus olhos soberanos,
Ardentes,
vivos, profundos,
Como
os olhos da beleza
Que
das escumas nasceu...
Eras
tu, maga visão
Eras
tu o ideal sonhado
Que
em toda a parte busquei,
E
por quem houvera dado
A
vida que fatiguei;
Por
quem verti tanto pranto,
Por
quem nos longos espinhos
Minhas
mãos, meus pés sangrei!
Mas se minh'alma, acaso, é
menos pura
De que era pura nos primeiros
dias,
Por que não soube em tantas
agonias
Abençoar a minha desventura;
Se a blasfêmia os meus lábios
poluíra,
Quando, depois de tempo e do
cansaço,
Beijei a terra no mortal
abraço
E espedacei desanimado a
lira;
Podes, visão formosa e
peregrina,
No amor profundo, na
existência calma
Desse passado resgatar
minh'alma
E levantar-me aos olhos teus,
-- Corina!
III
Quando voarem minhas
esperanças
Como um bando de pombas
fugitivas;
E destas ilusões doces e
vivas
Só me restarem pálidas
lembranças;
E abandonar-me a minha mãe
Quimera,
Que me aleitou aos seios abundantes;
E vierem as nuvens
flamejantes
Encher o céu da minha
primavera;
E raiar para mim um triste
dia,
Em que, por completar minha
tristeza
Nem possa ver-te, musa da
beleza,
Nem possa ouvir-te, musa da
harmonia;
Quando assim seja, por teus
olhos juro,
Voto minh'alma à escura
soledade,
Sem procurar melhor
felicidade,
E sem ambicionar prazer mais
puro,
Como o viajor que, da falaz
miragem,
Volta desenganado ao lar
tranqüilo
E procura, naquele último
asilo,
Nem evocar memórias da
viagem;
Envolvido em mim mesmo, olhos
cerrados
A tudo mais,—a minha fantasia
As asas colherá com que algum
dia
Quis alcançar os cimos
elevados.
És tu a maior glória de minha
alma,
Se o meu amor profundo não te
alcança
De que me servirá outra
esperança?
Que glória tirarei de alheia
palma?
IV
Tu que és bela e feliz, tu
que tens por diadema
A dupla irradiação da beleza
e do amor;
E sabes reunir, como o melhor
poema,
Um desejo da terra e um toque
do Senhor;
Tu que, como a ilusão, entre
névoas deslizas
Aos versos do poeta um
desvelado olhar,
Corina, ouve a canção das
amorosas brisas,
Do poeta e da luz, das selvas
e do mar.
AS BRISAS
Deu-nos a harpa eólia a
excelsa melodia
Que a folhagem desperta e
torna alegre a flor,
Mas que vale esta voz, ó musa
da harmonia,
Ao pé da tua voz, filha da
harpa do amor?
Diz-nos tu como houveste as
notas do teu canto?
Que alma de serafim
volteia aos lábios teus?
Donde houveste o segredo e o
poderoso encanto
Que abre a ouvidos
mortais a harmonia dos céus?
A LUZ
Eu sou a luz fecunda, alma da
natureza;
Sou o vivo alimento à viva
criação.
Deus lançou-me no espaço. A
minha realeza
Vai até onde vai meu
vívido clarão.
Mas, se derramo vida a Cibele
fecunda,
Que sou eu ante a luz dos
teus olhos? Melhor,
A tua é mais do céu, mais
doce, mais profunda.
Se a vida vem de mim, tu dás
a vida e o amor.
AS ÁGUAS
Do lume da beleza o berço
celebrado
Foi o mar; Vênus bela entre
espumas nasceu.
Veio a idade de ferro, e o
nume venerado
Do venerado altar baqueou:
—pereceu.
Mas a beleza és tu. Como
Vênus marinha
Tens a inefável graça e o
inefável ardor.
Se paras, és um nume; andas,
uma rainha.
E se quebras um olhar, és
tudo isso e és amor.
Chamam-te as águas, vem! tu
irás sobre a vaga.
A vaga, a tua mãe que te abre
os seios nus,
Buscar adorações de uma plaga
a outra plaga.
E das regiões da névoa às
regiões da luz!
AS SELVAS
Um silêncio de morte entrou
no seio às selvas.
Já não pisa Diana este
sagrado chão,
Nem já vem repousar no leito
destas relvas
Aguardando saudosa o amor e
Endimião.
Da grande caçadora a um
solicito aceno
Já não vem, não acode o grupo
jovial;
Nem o eco repete a flauta de
Sileno,
Após o grande ruído a mudez
sepulcral.
Mas Diana aparece. A floresta
palpita,
Uma seiva melhor circula mais
veloz;
É vida que renasce, é vida
que se agita;
À luz do teu olhar, ao som da
tua voz!
O POETA
Também eu, sonhador, que vi
correr meus dias
Na solene mudez da grande
solidão,
E soltei, enterrando as
minhas utopias,
O último suspiro e a última
oração;
Também eu junto à voz da
natureza,
E soltando o meu hino ardente
e triunfal,
Beijarei ajoelhado as plantas
da beleza,
E banharei minh'alma em tua
luz, — Ideal!
Ouviste a natureza? Às
súplicas e às mágoas
Tua alma de mulher deve de
palpitar;
Mas que te não seduza o cântico
das águas,
Não procures, Corina, o
caminho do mar!
V
Guarda estes versos que
escrevi chorando
Como um alivio à minha
soledade,
Como um dever do meu amor, e
quando
Houver em ti um eco de
saudade
Beija estes versos que
escrevi chorando.
Único em meio das paixões
vulgares
Fui a teus pés queimar
minh`alma ansiosa,
Como se queima o óleo ante os
altares;
Tive a paixão indômita e
fogosa,
Única em meio das paixões
vulgares.
Cheio de amor, vazio de
esperança,
Dei para ti os meus primeiros
passos
Minha ilusão fez-me talvez,
criança;
E eu pretende dormir aos teus
abraços,
Cheio de amor, vazio de
esperança.
Refugiado à sombra do
mistério
Pude cantar meu hino
doloroso:
E o mundo ouviu o som doce ou
funéreo
Sem conhecer o coração
ansioso
Refugiado à sombra do
mistério.
Mas eu que posso contra a
sorte esquiva?
Vejo que em teus olhares de
princesa
Transluz uma alma ardente e
compassiva
Capaz de reanimar minha
incerteza
Mas eu que posso contra a
sorte esquiva?
Como um réu indefeso e abandonado
Fatalidade, curvo-me ao teu
gesto;
E se a perseguição me tem
cansado.
Embora, escutarei o teu
aresto.
Como um réu indefeso e
abandonado,
Embora fujas aos meus olhos
tristes
Minh'alma irá saudosa,
enamorada
Acercar-se de ti lá onde
existes
Ouvirás minha lira
apaixonada,
Embora fujas aos meus olhos
tristes,
Talvez um dia meu amor se
extinga,
Como fogo de Vesta mal
cuidado,
Que sem o zelo da Vestal não
vinga;
Na ausência e no silêncio
condenado
Talvez um dia meu amor se
extinga,
Então não busques reavivar a
chama.
Evoca apenas a lembrança
casta
Do fundo amor daquele
que não ama
Esta consolação apenas basta;
Então não busques reavivar a
chama.
Guarda estes versos que
escrevi chorando
Como um alívio à minha
soledade,
Como um dever do meu amor; e
quando
Houver em ti um eco de
saudade
Beija estes versos que
escrevi chorando.
VI
Em vão! Contrário a amor é
nada o esforço humano;
É nada o vasto espaço, é nada
o vasto oceano.
Solta do chão abrindo as asas
luminosas
Minh'alma se ergue e voa às
regiões venturosas,
Onde ao teu brando olhar, ó
formosa Corina?
Reveste a natureza a púrpura
divina!
Lá, como quando volta a
primavera em flor,
Tudo sorri de luz tudo sorri
de amor;
Ao influxo celeste e doce da
beleza,
Pulsa, canta, irradia e vive
a natureza;
Mais languida e mais bala, a
tarde pensativa
Desce do monte ao vale: e a
viração lasciva
Vai despertar à noite a
melodia estranha
Que falam entre si os olmos
da montanha;
A flor tem mais perfume e a
noite mais poesia;
O mar tem novos sons e mais
viva ardentia;
A onda enamorada arfa e beija
as areias,
Novo sangue circula, ó terra,
em tuas veias!
O esplendor da beleza é raio
criador:
Derrama a tudo a luz, derrama
a tudo o amor.
Mas vê. Se o que te cerca é
uma festa de vida
Eu, tão longe de ti, sinto a
dor mal sofrida
Da saudade que punge e do
amor que lacera
E palpita e soluça e sangra e
desespera.
Sinto em torno de mim a muda
natureza
Respirando, como eu, a
saudade e a tristeza
E deste ermo que eu vou, alma
desventurada,
Murmurar junto a ti a estrofe
imaculada
Do amor que não perdeu,
com a última esperança.
Nem o intenso fervor, nem a
intensa lembrança.
Sabes se te eu amei, sabes se
te amo ainda,
Do meu sombrio céu alma
estrela bem-vinda!
Como divaga a abelha inquieta
e sequiosa
Do cálice do lírio ao cálice
da rosa,
Divaguei de alma em alma em
busca deste amor;
Gota de mel divino, era
divina a flor
Que o devia conter. Eras tu.
No
delírio
De te amar— olvidei as lutas
e o martírio;
Eras tu. Eu só quis, numa
ventura calma,
Sentir e ver o amor através
de uma alma;
De outras belezas vãs não
valeu o esplendor,
A beleza eras tu: — tinhas a
alma e o amor.
Pelicano do amor dilacerei
meu peito,
E com meu próprio sangue os
filhos meus aleito;
Meus filhos: o desejo, a
quimera, a esperança;
Por eles reparti minh'alma.
Na provança
Ele não fraqueou, antes
surgiu mais forte;
É que eu pus neste amor,
neste último transporte,
Tudo o que vivifica a minha
juventude:
O culto da verdade e o culto
da virtude,
A vênia do passado e a
ambição do futuro,
O que há de grande e belo, o
que há de nobre e puro.
Deste profundo amor, doce e
amada Corina,
Acorda-te a lembrança um eco
de aflição?
Minh'alma pena e chora à dor
que a desatina:
Sente tua alma acaso a mesma
comoção?
Em vão! Contrário a amor é
nada o esforço humano,
É nada o vasto espaço, é nada
o vasto oceano!
Vou,
sequioso espírito,
Cobrando
novo alento
N'asa
veloz do vento
Correr
de mar em mar;
Posso,
fugindo ao cárcere,
Que
à terra me tem preso,
Em
novo ardor aceso,
Voar,
voar, voar!
Então,
se à hora lânguida
Da
tarde que declina
Do
arbusto da colina
Beijando
a folha e a flor
A
brisa melancólica
Levar-te
entre perfumes
Uns
tímidos queixumes
Ecos
de mágoa e dor;
Então,
se o arroio tímido
Que
passa e que murmura
À
sombra da espessura
Dos
verdes salgueirais,
Mandar-te
entre os murmúrios
Que
solta nos seus giros,
Uns
como que suspiros
De
amor, uns ternos ais;
Então,
se no silêncio
Da
noite adormecida
Sentires—mal
dormida
Em
sonho ou em visão,
Um
beijo em tuas pálpebras,
Um
nome aos teus ouvidos
E
ao som de uns ais partidos
Pulsar
teu coração.
Da
mágoa que consome
O
meu amor venceu
Não
tremas: — é teu nome,
Não
fujas— que sou eu!
ÚLTIMA FOLHA
MUSA, desce do alto da
montanha
Onde aspiraste o aroma da
poesia
E deixa ao eco dos sagrados
ermos
A
última harmonia.
Dos teus cabelos de ouro, que
beijavam
Na amena tarde as virações
perdidas,
Deixa cair ao chão as alvas
rosas
E
as alvas margaridas.
Vês? Não é noite, não, este
ar sombrio
Que nos esconde o céu. Inda
no poente
Não quebra os raios pálidos e
frios
O
sol resplandecente.
Vês? Lá ao fundo o vale árido
e seco
Abre-se, como um leito
mortuário;
Espera-te o silêncio da
planície,
Como
um frio sudário.
Desce. Virá um dia em que
mais bela.
Mais alegre, mais cheia de
harmonias
Voltes a procurar a voz
cadente
Dos
teus primeiros dias.
Então coroarás a ingênua
fronte
Das flores da manhã,—e ao
monte agreste,
Como a noiva fantástica dos
ermos
Irás,
musa celeste!
Então,
nas horas solenes
Em
que o místico himeneu
Une
em abraço divino
Verde
a terra, azul o céu;
Quando,
já finda a tormenta
Que
a natureza enlutou,
Bafeja
a brisa suave
Cedros
que o vento abalo;
E
o rio, a árvore e o campo,
A
areia, a face do mar
Parecem,
como um concerto
Palpitar,
sorrir, orar;
Então,
sim, alma de poeta,
Nos
teus sonhos cantarás
A
glória da natureza
A
ventura, o amor e a paz!
Ah! mas então será mais alto
ainda;
Lá
onde a alma do vate
Possa
escutar os anjos,
E onde não chegue o vão rumor
dos homens;
Lá onde, abrindo as asas
ambiciosas
Possa adejar no espaço
luminoso,
Viver de luz mais viva e de
ar mais puro
Fartar-se
do infinito!
Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da
poesia.
E deixa ao eco dos sagrados
ermos
A
última harmonia.
FIM