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Volta a Pernambuco


Contemplando a maré baixa
nos mangues do Tijipió
lembro a baía de Dublin
que daqui já me lembrou. 

Em meio à bacia negra
desta maré quando em cio, 
eis a Albufera, Valência,
onde o Recife me surgiu. 

As janelas do cais da Aurora,
olhos compridos, vadios,
incansáveis, como em Chelsea,
vêem rio substituir rio. 

E essas várzeas de Tiuma
com seus estendais de cana
vêm devolver-me os trigais
de Guadalajara, Espanha.
Mas as lajes da cidade  
não em devolvem só uma,  
nem foi uma só cidade  
que me lembrou destas ruas.   

As cidades se parecem  
nas pedras do calçamento  
das ruas artérias regando  
faces de vário cimento,   

Por onde iguais procissões  
do trabalho, sem andor,  
vão levar o seu produto  
aos mercados do suor.   

Todas lembravam o Recife,  
este em todas se situa,  
em todas em que é um crime  
para o povo estar na rua,   

Em todas em que esse crime,  
traço comum que surpreendo,  
pôs nódoas de vida humana  
nas pedras do pavimento.   

(Paisagens com figuras, 1954/1955)   

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