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SÁTIRA AO GOVÊRNO DE PORTUGAL POR GREGÓRIO DE MATTOS
REÇUSITADO EM PERNAMBUCO NO ANNO DE 1713.
 
MOTE
 
Este é o bom governo de Portugal
  
1      Um Reino de tal valor 
        e de povo tão honrado 
        é justo seja louvado 
        desde o vassalo ao Snr. 
        ainda que fraco orador 
        a verdade hei de dizer, 
        e cada qual recolher 
        pode aquilo que lhe toca 
        ainda que digna o provoca 
        uma imitação Real 
        Este é o bom governo de Portugal. 

2      Um rei menino inocente 
        sem compaixão nem piedade 
        inimigo da verdade 
        com adulação contente 
        em uma sombra aparente 
        tanto se enleva este Rei 
        faltando do Reino a lei 
        seguindo somente os vícios 
        e com torpes exercícios 
        o chegou a extremo tal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

 3     Para os povos bem reger 
        Deus o pôs neste lugar 
        não para o desgovernar, 
        nem para o Reino perder; 
        mas creio lhe fazem crer 
        que é já virtude o pecar 
        e o que deve, não pagar 
        ter ambição, e avareza 
        perseguindo a pobreza 
        com tributo desigual 
        Este é o bom governo de Portugal. 

4      Pois um infante inumano 
          insolente matador 
        que sem ter de Deus temor 
        vive bruto, e corre insano 
        é o mais cruel tirano 
        que neste Reino se há visto 
        e que conhecendo isto 
        o tolinho do irmão 
        lhe não dê uma prisão 
        para evitar tanto mal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

5      Um neto de um carreiro 
        hoje Príncipe da Igreja 
        que alcança quanto deseja 
        adulando lisonjeiro 
        sanguessuga do dinheiro 
        que se rouba da pobreza 
        e que cheguem a tal grandeza 
        quem ontem morrendo a fome 
        sem ser visto nem ter nome 
        hoje está já Cardeal 
        Este é o bom governo de Portugal 

6      Que haja um Conselho de Estado 
        para mil resoluções 
        e que em todas as ocasiões 
        é sempre desacertado 
        o parecer sempre errado 
        foi de seus desacertos 
        obrar com desconcertos 
        e só para os bons intentos 
        lhe segua os entendimentos 
        o grão Demônio Infernal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

 7     Também o seu Secretário 
        Dioguinho de Mendonça 
        que anda por geringonça 
        no espácio imaginário 
        sempre aberto o candelário 
        tem de mentiras, e enganos 
        e que com caras de Janos 
        vieram assolando o mundo 
        eu juro que me confundo 
        vendo o que um magano val 
        Este é o bom governo de Portugal. 

8      O Mercia das Mercês 
        feito mosca atordoada 
        que El-Rei não despacha nada 
        diz a todo o português: 
        todos conhecem que fez 
        em breve tempo o palácio 
        porque estuda mui de espácio 
        na sua conveniência 
        tendo piadosa aparência 
        por exercício usual 
        Este é o bom governo de Portugal. 

 9     E que no Conselho de Guerra 
        os pobres dos pretendentes 
        andam feitos pacientes 
        rapando com os pés a terra 
        e vendo que se desterra 
        daqui o merecimento 
        pelo injusto provimento 
        dos postos que estes salvagens 
        dão a Muchilas e Pajens 
        dizem deste tribunal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

10    A junta dos três estados 
        que as rendas reais despende 
        dando todo o que pertende 
        vai pagar os meus pecados 
        depois de ter bem curado 
        os ossos na pertensão 
        com uma e outra informação 
        o mandam a um tesoureiro 
        que lhe diz não tem dinheiro 
        porque é lagarto fatal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

11    Anexa a contadoria 
        donde o Máximo é rezisto 
        porque na junta o que é visto 
        se remete a esta via: 
        se falta aqui a valia 
        para a boa informação 
        acha-se uma dilação 
        e uma dúvida no cabo 
        que té o mesmo Diabo 
        dirá por regra geral 
        Este é o bom governo de Portugal. 

12    O Conselho da Fazenda 
        com dúvidas e demoras 
        passam anos, dias e horas; 
        os pobres nesta contenda 
        em dilação estupenda 
        três anos aqui andei 
        que na verdade não sei 
        como o posso referir 
        não houve que deferir 
        foi o despacho final 
        Este é o bom governo de Portugal. 

13    Um Desembargo do Paço 
        composto de uns chinchilas 
        que com roupas, e golilhas 
        governam o Reino do espaço 
        os corações têm de aço 
        estes soberbos vilões 
        pois de seus maus corações 
        o mal a todos se espalha 
        e preside a tal canalha 
        o Duque de Cadaval 
        Este é o bom governo de Portugal. 

14    O Conselho de Ultramar 
        donde preside um Diabo 
        que assim lhe vai dado o cabo 
        vendendo o que se há de dar: 
        e espera de se salvar 
        este assolador de gente 
        tão soberbo e insolente 
        que o Rio de Janeiro 
        todos dizem que por dinheiro 
        vendera este irracional 
        Este é o bom governo de Portugal. 

15    E que haja o Reino de ter 
        a um Rei tão desumano 
        que deixasse passar um ano 
        sem o mandar socorrer 
        e que ainda favorecer 
        queiram ao governador 
        que por fraco, e por traidor 
        e por dar a S.Vicente 
        desacreditasse a gente 
        com uma perda universal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

16    A Mesa da Consciência 
        que consciência não tem 
        donde todo o que ali vem 
        faz perder a paciência 
        com uma e outra diligência 
        em qualquer inquirição 
        traz arrastado um cristão 
        que quer pôr a cruz de Cristo 
        e se as cruzes não tem visto 
        não se acha o avô paternal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

17    Chegamos à Relação 
        donde um Bispo é Regedor 
        deixa de ser bom pastor 
        para ser um mau ladrão: 
        depois que empunhou o bastão 
        com presunções de letrado 
        tem muita gente enforcado 
        atropelando os povos 
        lhe quer dar costumes novos 
        por seu destino brutal 
        este é o bom governo de Portugal. 

18    Armazéns e consulado 
        que estão regendo o Fronteira 
        com rezões de Borracheira 
        responde a todo o honrado 
        porque foi tão grão soldado 
        no choque de Badajós 
        nesta ocupação o pôs 
        por seus serviços El-Rei 
        e se há decreto, ordem, ou lei 
        o repugna este animal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

19    A junta que não tem pêlo 
        do comércio, porque calva 
        a deixou o Marialva 
        por lhe arrancar o cabelo 
        custou a vida ao Reselo, 
        porque dizem nesta terra 
        que para as casas do Serra 
        dava dinheiro sem conto 
        porque o queria ter pronto 
        para o pecado carnal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

20    Pois da Alfândega a descarga 
        donde o provedor gentil 
        todo o que vem do Brasil 
        quer despenda com mão larga 
        e se o não faz lhe alarga 
        a descarga do Navio 
        e os anos atrás no Rio 
        carregados se perderam 
        que como não concorreram 
        concorreu-lhes o temporal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

21    O estanque do Tabaco 
        onde preside o Minas 
        de ordenados e propinas 
        mui bem se enche o velhaco 
        ia-lhe chegando ao caco 
        com um bastão estrangeiro 
        e o fo. o bom cavaleiro 
        deteve a cavalaria 
        quando o inimigo fregia 
        de xevara no asinal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

22    A casa da Índia e coutos 
        com todas as vedorias 
        tesoureiros, chancelarias 
        mui bem lhe vejo os pespontos 
        eu lhe conheço estes pontos 
        sem ter passado ao Norte 
        que se governara a corte 
        eu lhes vagara as enchentes 
        pois destas vias correntes 
        só eu lhe sei o canal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

23    Da Câmara, e Senado 
        que em obras, taxas, licenças 
        deve com toda a presteza 
        ter particular cuidado 
        o governo é de estado 
        e são as ruas da cidade 
        monturos e porquidade 
        e o que tem que vender 
        o vende pelo que quer 
        por ter seguro o costal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

24    Os Ministros de justiça 
        que nunca a fizeram direita 
        porque a valia respeita 
        pela puta, ou por cobiça 
        o Demônio assim lhe atiça 
        este fogo em seus ardores 
        juíz e corregedores 
        letrados e escrivães 
        alcaides, e tabeliães 
        todos vestem de um saial 
        Este é o bom governo de Portugal. 

25    Os Ministros da Igreja 
        fradaria, e clerezia 
        em todos há simonia 
        tudo ambição, tudo inveja 
        não há nenhum que não seja 
        um perverso amancebado: 
        outro para ser prelado 
        a Roma manda dinheiro 
        lhe venha um voto papal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

26    Que queira El-Rei sustentar 
        na praça e na campanha 
        a guerra com traça e manha 
        sem já lhe querer paguar 
        e que hão de isto aturar 
        os miseráveis soldados 
        famintos e trabalhados, 
        e ludíbrios padecendo, 
        sempre de fome morrendo 
        sem lhe darem um só real 
        Este é o bom governo de Portugal. 

27    E pode a guerra manter 
        com palavras e enganos 
        com quatro pobres maganos 
        e sem lhes dar de comer 
        bem pudera conhecer 
        pois lhes dá tão pouco disto 
        nos sucessos que tem visto 
        depois que o cetro empunhou 
        que vitória alcançou 
        pois lhe tem ódio mortal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

28    Os assentistas sem lei 
        do Reino distribuidores 
        que o trigo aos lavradores 
        tomam com poder de El-Rei 
        não lho paguando, eu o sei, 
        para o tornar a vender 
        deixando a fome morrer 
        de El-Rei a cavalaria 
        e a pobre infantaria 
        e sofra isto um general 
        Este é o bom governo de Portugal. 

29    Quem as conquistas governa 
        manda para desabonos 
        uns pataratas fanchonos 
        sem para nada prestar 
        e que se hão de aumentar 
        uns redicolhos sujeitos 
        sem obras, ações nem feitos 
        e se há fatal ocasião 
        de ter a espada na mão 
        a fuga lhe é cordial 
        Este é o bom governo de Portugal. 

30    Que a mais da Fidalguia 
        que na soberba se enfronha 
        nela se acha sem vergonha 
        toda a má velhacaria: 
        a franqueza, e a covardia 
        se vê contra os castelhanos 
        e para os pobres paisanos 
        são uns tigres, uns leões 
        e parecem uns supiões 
        no proceder tão cabal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

31    Que me dizeis das donzelas 
        com escrúpulos honrados 
        e tendo os pontos quebrados 
        vos colhem nas esparrelas: 
        e tendo três vezes parido 
        enganam ao pobre marido 
        com um virgo de trementina 
        encaixando-se a menina 
        cos enfiam com uma linha 
        em possessão virginal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

32    Também se vêem as casadas 
        que porque querem brilhar 
        trazer jóias e galear 
        e serem mui regaladas 
        as honras trazem manchadas 
        porque o pobre do marido 
        como não dá o vestido 
        nem para a casa o sustento 
        e diz que está muito isento 
        de que o governe o casal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

33    Que a pobre desconsolada 
        da viúva sem marido 
        o capelo tragua erguido 
        e a cabeça apolvilhada 
        mui cheirosa e perfumada 
        segundo o mimo pertenda 
        sem ter juro nom ter renda 
        sempre a presunção é alta 
        e se acaso o noivo falta 
        não falta um provincial 
        Este é o bom governo de Portugal. 

34    Que venha todo o estrangeiro 
        e cada um negociando 
        o ouro e prata vão levando 
        deixando-nos sem dinheiro 
        e não há já conselheiro 
        que seja homem de talento 
        que apurado o entendimento 
        algum remédio lhe aplique 
        para que o Reino não fique 
        exausto deste metal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

35    Que andem por esta cidade 
        roubando vários maraus 
        e que estes vaganaus 
        tenham a favor e amizade; 
        sem ter honra, nem verdade 
        furtando uma, e outra vez, 
        achando o Conde, ou Marquês 
        que dizem se presos vão 
        que são de sua obrigação 
        ao ministro principal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

36    Pois uns atravessadores 
        de trigo, azeite, ou de vinho 
        que são por todo o caminho 
        do povo uns assoladores 
        porque da fome os rigores 
        todos fazem padecer 
        e que haja de se sofrer 
        que qualquer bisbilhoteiro 
        encorram (por ter dinheiro) 
        em caso tão criminal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

37    Toda a mais canalha vil 
        mercadores vendilhões 
        que estão ganhando milhões 
        com empregar um ceitil 
        tem toda a traça gentil 
        para poderem roubar, 
        podendo-se isto emendar 
        com uns açoutes, ou galés 
        porque assim em que lhe pes 
        tenham menos cabedal 
        Este é o bom governo de Portugal. 

38    Os mais que aqui não refiro 
        fiquem à eleição dos leitores 
        que de tão graves oradores 
        muito pouco me admiro: 
        corra a fortuna seu giro 
        com mil voltas e rodeios 
        pois, que por tão vários meios 
        vivem neste Reino insano 
        o bom, e o mau, alto, e malo 
        e como quer cada qual 
        Este é o bom governo de Portugal. 

39    Já não temos que esperar 
        neste governo insolente 
        mais que perecer a gente 
        sem o bem nunca alcançar; 
        só para Deus apelar 
        pode o povo português 
        e pedir-lhe desta vez 
        que nos dê governo novo 
        para que com ele o povo 
        sigua no seu natural 
        Este é o bom governo de Portugal. 

40    Quando aquele Santo Rei 
        que em Alcácer foi vencido 
        pelejando inavertido 
        contra o povo de Muley 
        por exaltar de Xpo. a lei 
        sair por divino acerto 
        donde está o encoberto, 
        com verdade e com razão 
        diz, a nossa nação 
        tendo um cetro imperial 
        Este é o bom governo de Portugal. 

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