Em meus momentos escuros Em que em mim não há ninguém, E tudo é névoas e muros Quanto a vida dá ou tem, Se, um instante, erguendo a fronte De onde em mim sou soterrado, Vejo o longínquo horizonte Cheio de sol posto ou nado, Revivo, existo, conheço; E, inda que seja ilusão O exterior em que me esqueço, Nada mais quero nem peço: Entrego-lhe o coração.
A idéia de uma presença que se faz/ sente ausente força o leitor da obra pessoana a refletir toda a complexidade do sentido de ser. Notemos aqui, portanto, uma "ausência" fingida ("fingir é conhecer-se", frase do heterônimo Álvaro de Campos) que revela, assim podemos dizer, enigmática presença, em névoas e muros, de vida. Claro pensemos, muitos, alguma vez, já se sentiram estranhamente ausentes, mesmo vivendo… A presença vaga de um eu-lírico que se faz ausente se desenha na pele dos pronomes: "meus", "mim", "me"… Os verbos na primeira pessoa do singular, em tempo presente, reforçam a idéia de uma "sombra presente/ De uma presença passada" (versos de outro poema de Fernando Pessoa). Ainda que esteja soterrado em si, um instante só basta para que um "longínquo horizonte", cheio de sol posto (pôr-do-sol) ou nado (palavra arcaica, em desuso: nascido/ em aurora), reviva ao eu-lírico, fazendo-o existir, e conhecer. E não importa ser ilusão o mundo exterior: sem desejar nada mais além, entrega ao mundo possivelmente ilusório o "Coração de ninguém" (verso de outro poema de Fernando Pessoa). Parece ser o mundo da ilusão uma forma de suportar, muitas vezes, a realidade da vida… Só parece…
Cf. leitura, e análise, de outro poema de Fernando Pessoa: (ANÁLISE): A presença de quem se faz ausente — Fernando Pessoa (parte 1)
A seção "(ANÁLISE)", como câmera fotográfica, tenta flagrar algumas nuanças mágicas do poema. Esperam-se aqui comentários que possam ajudar a interpretar a beleza da poesia. Críticas pertinentes e sugestões de leitura serão muito bem recebidas.
Texto-análise originalmente publicado em 21/01/2007.