Luta Contra a Miséria: a Fome

A par de muitas misérias, que grassam um pouco por todo o mundo: catástrofes naturais, doenças, guerras, desemprego, violência física, psicológica, abuso sexual, tráfico de seres humanos, entre outras, a fome, na sua vertente alimentar, revela-se, hoje, século XXI, como uma situação que deveria sensibilizar aquela parte da humanidade que vive na abundância, na opulência e no luxo que, por vezes, até estraga mais do que consome.
As desigualdades chocantes que parece acentuarem-se, conduzem a outras situações que são, também elas, inaceitáveis, como os diversos conflitos que proliferam: das famílias às comunidades e destas à sociedade mais alargada. É impossível a continuação, por muito mais tempo, destas situações degradantes.
Terá de fazer-se alguma coisa, sob pena de se caminhar para a destruição violenta da dignidade da pessoa humana. É urgente tomarem-se decisões de fundo, aplicarem-se soluções eficazes, darem-se oportunidades às pessoas que vivem algum tipo de miséria, começando por, eventualmente, alimentar aquelas que estão a passar fome e que só em Portugal atingirá muitas centenas de milhares.
Qualquer pessoa que tenha um mínimo de sentimentos, de virtudes e de possibilidades materiais, que detenha poder de decisão, de execução e de controlo, não pode ficar indiferente à grande reportagem que no passado dia 26 de agosto de 2007, pelas vinte e uma horas, passou no canal privado de televisão portuguesa “SIC”, sob o título: “Vidas de Sobras”, horrivelmente, impressionante, desumano, uma acusação provada contra uma sociedade consumista, esbanjadora e insensível.
Aliás, esta reportagem já passa pela segunda vez, entrando pelas casas dos ricos e dos pobres, porque, provavelmente, da primeira vez que foi exibida, não produziu resultados visíveis. Entretanto, graças aos esforços dos Governos, Central e Local, bem como das Instituições Privadas de Solidariedade Social, Empresas e outras Organizações, a percentagem de pobres em Portugal passou de 20% para 18% entre 2006 e início de 2008, (cerca de um milhão e oitocentos mil portugueses) segundo a reportagem exibida pelo mesmo canal televisivo em 20 de janeiro de 2008, nos Jornais da Tarde e da Noite.
Como foi possível permitirem-se tais situações, num Portugal democrático, dito solidário, ou num mundo em permanente e acelerado progresso material? Como se pode ficar assistindo, imperturbável e insensível, à destruição da respeitabilidade da pessoa humana, quando os avanços técnicos e científicos conseguem resolver tantos outros problemas? Onde estão a paz, a felicidade o amor, a solidariedade entre as pessoas?
Entretanto sabe-se que a pobreza infantil é tem sido outra “chaga” em Portugal e que segundo as últimas estatísticas, em 2014, duas em cada três crianças viviam no limiar da pobreza. Apesar daqueles números serem alarmantes, hoje, 2018 a situação melhorou e o número da pobreza, da fome, dos sem-abrigo, tem vindo a diminuir, mantendo-se, esta tenência.
Tudo indica que: «O homem tem vencido todas as distâncias. Falta-lhe vencer a mais pequena e também a maior (por paradoxal que pareça) de todas: a distância dos corações. De coração a coração cavou-se um abismo, por vezes intransponível, apesar de tudo o que se diz e escreve em profusão. (…), se no país em que se oferecem jóias de milhares de contos a palavra miséria não tem cabimento (duvido que o não tenha), tem-no por certo na maior parte dos países do mundo onde há autêntica miséria e fome. Pobre do homem que na ânsia de se libertar de todas as escravidões aceita sem pestanejar a pior de todas: a escravatura da matéria, seja ela o ouro ou o petróleo (…). Os que vivem numa abundância e num fausto que nenhuma moral (e muito menos a moral cristã) pode aprovar, não queiram provocar com a sua ostentação e luxo a revolta íntima de tantos homens que arrastam uma vida de carências motivadas pelo egoísmo feroz dos seus irmãos, talvez daqueles que mais falam e nada constroem.» (BROCHADO, 1973:85-86).
Tem-se a consciência de que: esta realidade existe, que constitui um libelo que não se consegue escamotear, mas também há a noção de que estas situações não se resolvem de um dia para o outro; sabe-se que o mundo é composto por uma imensidade de indivíduos, de inúmeras espécies animais, vegetais e minerais, para além dos imensos recursos naturais; conhecem-se, relativamente bem, certas características da espécie humana e compreende-se, concordando, ou não, que as desigualdades sempre existiram e muito dificilmente acabarão, até porque a igualdade plena será um valor absoluto, provavelmente, inacessível à humanidade.
Nem seria verdadeiramente justo, se todas as pessoas fossem iguais no modo de viver e usufruir determinados bens, porquanto nem todas se esforçam por uma vida melhor, na medida em que: se por um lado, enquanto umas trabalham, economizam, estudam, investem, arriscam, e até ostentam uma vida sóbria; por outro lado, outras há que, em vez de trabalharem, de auferirem o minimamente necessário para o seu sustento, esbanjam para além das suas possibilidades, adotam estilos de vida incompatíveis com a sua situação económica.
Além do mais, nem todas as pessoas querem, exatamente, tudo igual umas às outras, funcionando assim o relativismo e o livre arbítrio das opções. Seria, pois, injusto que, nestas circunstâncias, todas fossem tratadas de igual forma, como se uns não tivessem mérito, e o demérito dos outros fosse ignorado.
Quem governa, administra, distribui e controla os diversos setores, pessoas e grupos da sociedade, não pode ignorar as realidades que nela coexistem, devendo estar atento às situações, às mudanças, às exigências individuais, da família, das organizações, e aos respetivos contributos que cada uma daquelas entidades dá à sociedade. Impõe-se aqui uma atitude ético-moral, com justiça e equidade. Seria eticamente reprovável, e moralmente condenável, retirar, ilegitimamente, a quem possui e está bem na vida, pela via do trabalho honesto e da poupança, para dar a quem nada faz, nada produz e nada economiza, por vontade própria.
Evidentemente que se excluem, deste raciocínio, as situações alheias à vontade das pessoas, vítimas de diversos contratempos, como a doença, deficiências de diversa ordem, acidentes vários, desemprego contra a própria vontade, reformas e rendimentos exíguos, injustiças praticadas por quem detém algum tipo de poder e influência, contra os mais fracos, entre outros.
Para estas situações é que se justifica o Estado Social, que tem o dever de resolver os problemas que afetam os indivíduos, as famílias e os grupos mais vulneráveis. Infelizmente nem todos os governos se têm mostrado disponíveis para resolverem estas verdadeiras chagas sociais, havendo quem se mostre desiludido com o rumo que o mundo tem tomado, porque: «A esperança de obtenção de justiça social através de um sistema de distribuição da riqueza estatalmente organizado e controlado provou (…) ser totalmente cega em relação à realidade.» (KUNG, 1990:26).
O século XXI não terá começado da melhor maneira, no que concerne: à dimensão social da pessoa humana; ao respeito pela sua indeclinável dignidade; na observância dos mais elementares Direitos Humanos, como o direito à alimentação, à saúde, à educação, à habitação e ao emprego; pelo contrário, ao que se vem assistindo nos últimos anos é a uma degradação galopante da qualidade de vida de multidões de pessoas; a uma ostentação vertiginosa e sem limites de algumas elites que, no seu todo, representam cerca de dez por cento da população mundial, embora controlem, aproximadamente, noventa por cento da riqueza do globo. As assimetrias que se acentuam, permanentemente, podem conduzir, mais cedo ou mais tarde, à deflagração de conflitos muito mais violentos e devastadores do que aqueles que já se verificam em vários países.
Provavelmente não existem estudos rigorosos, resultados objetivos, sobre a quantidade de alimentos, de roupas, de medicamentos, que se inutilizam, que se deterioram, diariamente, em certos círculos e vidas de organizações e pessoas, respetivamente, a final o quanto negligentemente se desperdiça.
Através de um exemplo muito simples, possivelmente: as verbas que se gastam em viagens, reuniões, receções e outros atos, ditos protocolares e “prestigiantes” para quem os promove, seriam suficientes para matar a fome de milhões de pessoas; para dar uma habitação condigna a milhares de famílias; para melhorar as condições de vida dos mais idosos, justamente aqueles que trabalharam e contribuiriam durante uma vida inteira e hoje são pouco apoiados e, eventualmente, numa ou noutra situação, até serão espoliados e ofendidos por quem julga já não precisarem mais deles.
Constata-se que a ciência e a técnica não solucionam muitos problemas, enquanto os homens não se manifestarem disponíveis para resolver as degradantes situações de milhões de pessoas, famílias e grupos desfavorecidos. Ciência e técnica sem um espírito humanitário, e até misericordioso, continuam cegas ao sofrimento humano.
É possível aceitar-se que: «O progresso técnico, grande amigo do homem, sem o projecto espiritual e moral, pode tornar-se, por culpa do mesmo homem, no seu maior inimigo. A investigação científica que sua e tressua para prevenir e exterminar epidemias e doenças e que vai paulatinamente libertando de pestes a humanidade, por ironia das coisas, parece empurrar desumanamente o homem para a infelicidade e para a desgraça, falando-lhe dela e prometendo-lhe a construção dum paraíso terrestre e a fruição nesta vida duma felicidade completa. Não! O homem pode esquecer a sua condição de peregrino e este conceito é gerador da paz e serenidade para o espírito.» (BROCHADO, 1973:75).
Independentemente do conceito de felicidade poder, ou não, estar muito relativizado, desde definições em concreto às conceções mais abstratas, a verdade é que, qualquer que seja a ideia que dela – a Felicidade - se tem, todos a desejam. Como termo mediador, ponto de referência e de partida, para a alcançar, poderiam os responsáveis pelos poderes, legal e legitimamente instituídos, à cabeça dos quais se colocaria o Estado Social, traçar as principais diretrizes axiológicas e concetualizar a felicidade em termos qualitativos, que permitam o acesso a este valor inestimável.
Nesta perspetiva, haverá quem defenda que ser feliz é: «Ter sensações de bem-estar e prazer físicos; poder manifestar alegria e ter tranquilidade de espírito; sentir emoções agradáveis; desfrutar de coisas boas da vida; sentir-se valorizado, aceito e amado. Ter a sensação de utilidade e conseguir realizações na vida; conviver agradavelmente com parentes e amigos; entre outras situações.» (RESENDE, 2000:176-77).
Nos parâmetros enunciados, cabem, praticamente, todas as aspirações da pessoa humana. Nestas circunstâncias apenas é necessário: implementar as estratégias; fornecer os recursos; controlar o processo e validar os resultados. Afinal, menos desperdício, mais racionalização, probidade e austeridade na utilização daqueles recursos que a toda a humanidade pertencem, porque foram colocados no Mundo pela Natureza, seja esta uma Divindade ou um conceito.

Bibliografia:
BROCHADO, Alexandrino, (1973). Sim e Não a Muita Coisa. Porto: Edição do Autor
KUNG, Hans, (1990). Projecto para uma Ética Mundial, Tradução, Maria Luísa Cabaços Meliço, Lisboa: Instituto Piaget.
MOREIRA, José Manuel, (1999). A Contas com a Ética Empresarial, 1ª. Ed., S. João do Estoril-Cascais: Principia, Publicações Universitárias e Científicas, Apud Alexandre Herculano, (1853) “A Descentralização”, em O Portuguez, de 8 de junho de 1853.
RESENDE, Enio, (2000). O Livro das Competências. Desenvolvimento das Competências: A melhor Auto-Ajuda para Pessoas, Organizações e Sociedade. Rio de Janeiro: Qualitymark