Nome do Escritor: Enéas Antonio Pires (Neônio)

escritor Enéas Antonio Pires (Neônio)

Guarujá

Paredões íngremes multicoloridos
Contrastando com o anil do oceano
Burburinho de um vai e vem humano
O que se passa por detrás dos vidros

Do outro lado de cada janela
O que acontece, comemoração
Amizade e confraternização
Celebração com cores da aquarela

Na areia, pombos, garças, gaivotas
Disputam os espaços com turistas
Que vislumbram ao longe as ilhotas

Ao ir me embora, o que me receia
Ao ser questionado se gostei ou não
Responderão, minhas pegadas na areia.

Local de Nascimento: Penápolis SP

Monólogo felino

Lembrando meus ancestrais e o passado
O que faziam é o que faço agora
Me empanturro e aqui faço hora
Não caminho no cimo do telhado

Não aprendi a caça aos roedores
Tampouco a quaisquer outros vertebrados
Ingiro alimentos importados
Desfruto de afagos e langores

Usufruo de regalias sem fim
Novos tempos me garantem mordomia
Sei, jamais serei couro de tamborim!

Partilho esse espaço com senhoras
Enquanto se realiza a digestão
Durmo e sonho com o correr das horas

Formação Acadêmica: Pós Graduação "Lato Sensu", em nível de especialização em Literatura: Teoria e Crítica.

A praça e o tempo

Há algum tempo tenho me sentido persuadido a escrever sobre a praça Lauro Gomes, logradouro na área central da cidade de São Bernardo do Campo, espaço amplo, quase plano, de formato retangular, que soma aproximadamente cinco mil metros quadrados e de cuja data de inauguração não tenho notícia. No centro da praça há um busto em bronze de Wallace Cochrane Simonsen, homenagem por ter sido ele o restaurador da autonomia do município, datada de 11/01/1945. A partir do ano de 1955, Lauro Gomes, que exercera dois mandatos, passou a ser prefeito da cidade e nesse período, uma de suas realizações fora a construção da praça que leva o seu nome. Nos dois lados mais amplos da praça estão: a rua Marechal Deodoro, a principal da cidade, por ser eminentemente comercial e rua Marechal Rondon, que dá frente para o colégio Estadual Maria Iracema Munhoz.
Conheci a praça no início do ano de 1970, no alvorecer de minha juventude, ao migrar de minha cidade natal em busca de bom emprego, estudar e lutar por melhores condições de vida. Muita coisa mudou desde então, os costumes, a cultura popular, também a natureza mudou para melhor, a saber, onde a mão do homem não atuou para depreciá-la. A vegetação da praça nesta primavera está exuberante; os gramados, as árvores de grande porte, como as sibipirunas com seus galhos e troncos; generosos hospedeiros às epífitas, vegetação variada que recobre completamente galhos e troncos como se fora um tapete, sem contudo parasitar a hospedeira; além de tantas outras árvores frondosas e bonitas das quais não me lembro do nome, além das palmeiras gerivá, e a popularmente chamada por coquinho doce; e ainda as frutíferas como: amoreiras, pitangueiras, abacateiros, mangueiras, jaqueiras e goiabeiras, estas neste ano produziram muitos frutos, para o deleite de alguns pássaros como os assanhaços, sabiás e outros.
Emocionante quando ao caminharmos ao lado da praça e vermos no gramado interno, do outro lado da grade de ferro que cerca completamente a praça, o João de barro com bolotas de barro no bico para sua construção ou um inseto para alimentar seus filhotes. Na tarde de ontem, vi um sabiá aos pulinhos pelo gramado com uma minhoca se contorcendo em seu bico, certamente seria a refeição de sua ninhada. Em cada face da praça há um grande portão que permanece aberto durante o dia e é fechado a cadeado no final da tarde para evitar o vandalismo durante a noite, pois antes que a praça fosse cercada, fora flagrada pela polícia, uma moradora de rua, seminua tomando banho na fonte, de formato cilíndrico com um possante chafariz, do qual jorrava jatos de água multicolorida nas noites de outrora.
O que embelezava a praça e trazia conforto e lazer aos seus frequentadores, hoje está em ruína, a fonte está seca há anos, as instalações subterrâneas da fonte e chafariz tiveram seu acesso fechado por grades de ferro e cadeado e dos dois lados da porta de acesso há várias e arrepiantes tocas que abrigam as ratazanas. Dentre os bancos de concreto e granito, que são muitos, e confortáveis, de perfis curvilíneos, e traziam anúncios de patrocinadores nos encostos, cinco deles tiveram suas bases de sustentação quebradas por corrosão pelo tempo ou por vandalismo; encontram-se hoje de borco sobre o gramado, como que alguém com vergonha, a esconder dos passantes, o rosto.
No entorno da fonte, tendo ao lado um pedestal com alto falante e amplificador de som, material de trabalho de um cidadão de aparência humilde, que lá está todos os dias a vender CDs de música gospel e pregando o evangelho de maneira amadorística, há um pedestal de concreto em ângulo de 45º o qual sustenta uma placa de bronze com os dizeres: “FONTE PRINCESA IZABEL A REDENTORA”
A beleza e os encantos da praça é também maculada pela grande quantidade de barracas e carrinhos de vendedores ambulantes que obstruem muito dos espaços das alamedas e também a freqüência de alguns desocupados aos quais há que se ter cuidado com a proximidade; estelionatários oferecendo variado produto de roubo, outros que subtraem aparelhos celulares aos distraídos e até prostitutas oferecendo favores sexuais aos passantes.
Dos costumes, os quais mencionei no início, há dois remanescentes, que de algum modo traz certo charme aos românticos que os vivenciaram àquele tempo e aí estão para testemunhá-los. Falo aqui dos engraxates, que hoje estão quase em extinção pelo fato de que quase toda a população usa tênis, das crianças aos idosos. Conheci nos anos setenta, um engraxate, aparentando uns cinquenta anos de idade, ao qual chamavam por Zezinho, um mulato de baixa estatura, usava chapéu de tecido e estava todos os dias na esquina da rua Marechal Deodoro com a Tenente Sales, na lateral da praça, muito querido pelos comerciantes e público em geral, que passavam todos os dias para ouvir dele grandes gargalhadas, provocadas por piadas que a ele contavam providencialmente. Zezinho morrera, não me ocorre a data. Hoje, no mesmo local há dois engraxates, um homem e uma senhora; um pouco adiante, além da esquina, pela Marechal, há outro, os três aparentam ter em torno de cinquenta anos ou mais.
Outra atividade que persiste na rua Marechal junto às grades da praça e pode ser visto por quem por ali passa são as ciganas, a oferecerem-se para ler as mãos dos incautos, numa alusão a preverem o futuro e a sorte, sob pagamento; ostentando seus vestidos rodados e longos além de extravagantemente coloridos; trazem também muita bijuteria pelos braços mãos, pescoço, orelhas e ouro nos dentes; exibem fielmente o mesmo estereótipo que vislumbrávamos a mais de quatro décadas.
O que não tenho mais visto na praça é o vendedor de óleo de peixe Piraquê, o peixe elétrico, esse óleo, segundo o seu vendedor, combatia dores reumáticas, vinha em um pequeno vidro na cor marrom, com cerca de 100 mg de conteúdo, com um rótulo e inscrições em preto e branco; o vendedor abria uma enorme mala e dela tirava o produto que acomodava sobre um tapete e também o maior atrativo e chamariz da freguesia, um enorme lagarto teiú, que permanecia imóvel e indiferente à curiosidade dos circunstantes em burburinho, tal era a novidade. Rio ainda hoje ao lembrar das noites nos fins de semana em que íamos à praça, era costume dos jovens postarem-se ao lado das alamedas da praça enquanto as moças davam voltas de braços dados umas às outras para serem vistas pelos expectadores atentos. Certa noite estávamos na praça, eu e um grupo de amigos, moradores em pensões localizadas na vila Gonçalves e dentre o grupo um se destacava, por ser muito brincalhão, o Mauro Gabriel.
Duas jovenzinhas de cerca de dezoito anos de idade, irmãs gêmeas, eram conhecidas de todos, pois vendiam bananas pelas ruas com cestas, daquelas feitas de bambu, em cada uma das mãos, oferecendo de porta em porta. Certa noite, ao passarem as duas irmãs pelo nosso grupo, o Mauro Gabriel disse em voz alta: “Olha as bananeiras”, ao que imediatamente, a mais espevitada delas mirou-o frente a frente e respondeu-lhe: “Bananeira é a P.Q.P.”; rimos a todo o pulmão, todos entre os amigos e também aqueles que estavam por perto e entenderam o ocorrido, inclusive o protagonista do episódio hilário, sem se abater com a surpreendente resposta. Imagino que se daqui a quatro ou cinco décadas, alguém que conheceu a praça há pouco ou a está conhecendo agora, terá a iniciativa de fazer uma retrospectiva, e que diferenças e semelhanças relatará, assim como o faço agora; quem estará ali para testemunhá-la? Só o tempo, o dirá!

Eu cursei uma Graduação em Letras, Português/Inglês, já aos meus 59 anos de idade e conclui a Pós - Graduação em Literatura aos 66 anos. Nos anos de minha adolescência, juventude e idade adulta atuei como técnico na área industrial, tendo trabalhado por 53 anos em indústrias automobilísticas, e indústrias de bens de capita, multinacionais.

Local onde vive: São Bernardo do Campo SP

Os sabiás voltaram

Às quatro horas da manhã, ao acordar, tenho a maravilhosa surpresa do som melodioso do canto de um sabiá, (Turdus rufiventris) interrompendo o silêncio da madrugada, entre os galhos de uma sibipiruna. Segundo a crença Tupy, o sabiá é “aquele que reza muito”. As árvores que enfeitam as ruas de São Bernardo do Campo são na maioria as sibipirunas, mas há também as uvalhas, as jambolão, as quaresmeiras e as palmeiras gerivá, oriundas do Bioma Mata Atlântica; além de outras menos notáveis. Toda essa nomenclatura arbórea me fora informada gentilmente pelo biólogo e detentor de outros talentos, o meu amigo José Vieira, durante os anos em que juntos trabalhamos.
Os sabiás irradiam poesia nas primeiras horas da manhã, em que o negrume do asfalto e o silêncio soturno do período nos oprimem a alma. O título deste texto é uma retrospectiva a uma música que fizera muito sucesso, lançada acerca de três décadas passadas, pelo Trio Parada Dura, intitulada “As andorinhas voltaram”, sendo que as andorinhas são pássaros migratórios, por isso o verso diz: “As andorinhas voltaram”. Quando digo que os sabiás voltaram, significa que eles voltaram a cantar, pois eles são sedentários e têm o período certo do ano em que cantam e encantam ouvidos e mentes de pessoas que como a mim os admiram.
A partir do início do mês de agosto até o final de dezembro eles cantam muito, em vários e diferentes acordes, sendo que a fêmea canta numa freqüência bem menor que o macho, diferente de outros pássaros que possuem um único cantar, invariável. Pelo canto os sabiás secundam os humanos quando querem chamar à atenção uma mulher, desde exibir os músculos adquiridos em uma academia ou outro qualquer atrativo que funcione segundo a intuição de cada um; o sabiá canta para demarcar território e atrair a fêmea para o amor, o acasalamento e a seguir constroem seus ninhos e criam seus filhotes preparando-os para serem adultos no próximo ano. Conforme nomenclatura, assim como os papagaios, os sabiás são fieis por toda a vida, sendo que só há a separação do casal pela morte de um deles.
Os sabiás têm a plumagem predominantemente na cor marrom claro, parecido com chocolate, nas costas e de um alaranjado a vermelho ferrugem na barriga, tanto os machos quanto as fêmeas. Eles se alimentam de frutos, sementes e insetos que encontram nos galhos das árvores e no solo entre folhas secas das florestas ou nos gramados e ainda nos canteiros de flores e nesse particular eles se diferem dos outros pássaros, pois ciscam como as galinhas em busca de minhocas e outros insetos, pude observar isso no canteiro de flores de minha mãe, a dona Rosa, sendo que após a visita dos sabiás ela recolhe a terra que eles jogaram no piso do corredor, de volta ao canteiro.
Os sabiás são graciosos também quando caminham pelo solo, eles se movem aos pulinhos intercalados por breves pausas e agitar frenético e gracioso da cauda. Ano passado, certa manhã eu caminhava pela calçada de uma rua próxima de onde moro e para feliz surpresa levantei a vista para o galho de uma sibipiruna e lá estava a mãe, orgulhosa, na borda do ninho e quatro delgados pescoços em riste rumo ao infinito sendo alimentados, fiz uma foto com o celular e senti ter ganho o dia. Esses pássaros me encantam desde os meus oito anos de idade, era novembro, fim do meu segundo ano escolar, ao subir ao topo de uma mangueira em busca das primeiras mangas que amadureciam, descobri um ninho com quatro filhotes, e ao me aproximar escancararam os bicos, na expectativa de que a mãe se aproximava para alimentá-los, se enganaram e eu sabendo estarem famintos, amassava as formigas doceiras que passeavam pelos galhos da mangueira e as depositava direto nas gargantas dos filhotes até que a mãe aparecia com piados lamentosos e ameaçadores e me expulsava mangueira abaixo.
Em sendo o sabiá o nosso personagem, não podemos nos esquecer do poeta Gonçalves Dias, quando em seus amargos dias no exílio, escrevera o celebre e inesquecível poema que iniciava pelos seguintes versos: “Minha terra tem palmeiras, Onde canta o sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá”.

Livros publicados: Não tenho livros publicados ainda, porém tenho projeto de três publicações a saber: um romance, uma biografia e uma coletânea de crônicas.

Acenos

Deslizando no negrume da avenida
Pela manhã absorto em pensamento
Súbito irrompe em breve momento
Frondosa espirradeira colorida.

Além, a majestosa Mantiqueira
Qual severa tempestade em formação
Dos cumes irregulares, rés do chão
Serpenteia verde e alvissareira

À meia distancia há os arrozais
Tremeluzindo ao querer da brisa
Prometendo o pão à mesa aos comensais

Qual serpente se espalha na imensidão
Silencioso incólume o Paraíba
Irrigando das bordas a vastidão.

Data de Nascimento: 13/11/1948

EMAIL: eneaspires13@gmail.com

Site/Blog: www.celeirodasletrasbr.blogspot.com

Breve incursão em garimpos de selva

Foi uma viagem atípica, de contrastes ante a beleza e exuberancia da floresta e rios amazônicos e os perigos inerentes à maneira de viver e trabalhar naquele espaço quase inóspito da selva amazônica. Chamou-me à atenção o grande afluxo de pilotos e mecânicos de aviões à região dos garimpos de ouro no entorno da cidade de Itaituba, no sul do Estado do Pará, já que o acesso às lavras do garimpo só era possível a bordo de aviões monomotores, pela distancia e imensidão da floresta.
No final do ano de 1981 brevetei-me piloto comercial de avião tendo passado por dificuldades financeiras pelo alto custo do aprendizado, eu tinha em mente trabalhar como piloto para satisfazer o ego e tambem ganhar dinheiro já que nos garimpos os pilotos sobreviventes ganhavam muito bem. Digo “sobreviventes” porque eram muitos os que morriam em acidentes, pelo quanto eram arriscadas e perigosas as operações nas pistas de grarimo. Em contato com os irmãos Paulo e Renato, meus primos, que para lá rumaram havia algum tempo em busca de trabalho, pois eram mecânicos de aviões e tornaram-se arrendatários de oficina de aeronaves na Empresa Crepuri Taxi Aéreo, cuja frota era composta por 12 aeronaves, sendo: 6 Cessna 210, 4 Minuano e 2 Carioca. Resolvi conhecer e sondar as possibilidades de trabalhar como piloto, apoiado por meus primos.
Viajei de Araçatuba, cidade natal de meus primos e seus familiares com destino a Cuiabá, capital de Mato Grosso, em companhia do Renato, o mais novo dos dois irmãos, a bordo de um avião turbo-helice, modelo Fokker da empresa aérea TABA, Transporte Aéreo da Bacia Amazônica, e de lá, pela mesma companhia, seguimos até Itaituba, num aparelho também Fokker, porem muito mais velho e barulhento que o anterior, esse não tinha comissárias de bordo, só comissários. Nesse voo, eu e Renato esvasiamos uma garrafa de natu nobilis, pois comecei a sentir os primeiros sinais do local hostil ao qual eu me dirigia já na escala do voo na cidade de Alta Floresta, com pista de pouso asfaltada e acomodações do aeroporto construidas em madeira, tendo dos dois lados da pista de pouso a floresta densa com enormes troncos de arvores. No momento do pouso estavamos sob chuva moderada, quando encostou ao lado do avião o caminhão tanque com o combustível Jet A1, querosene de aviação e o abastecedor com um guarda chuva protegendo a entrada do tanque sobre a sas do avião, o abasteceu.
Não posso me esquecer de que as minhas passagens aéreas foram custeadas pelo Renato, meu primo e companheiro de viagem, tal era crítica minha situação financeira no ato da viagem. Tentei ressarci-lo dos custos tempos depois porem ele não o aceitou. Durante os dois voos, solicitei aos comandantes viajar na cabine, e fui autorizado por ambos, pois eu estava ávido por saber o quanto possível sobre os voos naquela região de floresta, e tive muita receptividade de ambos durante os voos.
Chegando em Itaituba fui hospedado na casa de meus primos, não posso esquecer de que o Zezinho, irmão cacula dos dois também dividia a moradia e o trabalho com eles. Itaituba é localizada à margem esquerda do rio Tapajós, no Sul do Estado do Pará. Morávamos a menos de 200 metros da margem esquerda do rio, sob um calor insuportável de mais de 40º e lembro me de que para dormir, só o conseguiamos com o ar condicionado ligado a noite toda. Não havia chuveiro elétrico, a água vinda do Rio Tapajós era naturalmente morna.
Já no meu primeiro dia no local, fui apresentado a um piloto, Florindo, um paulista da região Noroeste do Estado de São Paulo que prontamente convidou-me a acompanhá-lo ao primeiro voo do dia a um garimpo que tinha o estranho nome de “invasão” o que denotava hostilidade nas relações humanas, por conflitos de interesses. Esse garimpo fazia parte do complexo de garimpos pertencentes à Fazenda Crepurí. O voo tinha duração de duas horas e meia para ida e a mesma duração na volta, e voávamos a grande altitude e sempre que possível próximo à margem de grandes rios, por prevenção de alguma emergência durante a viagem sobre a floresta, com o rádio de comunicação em frequencia livre, ligado, pois o espaço aéreo na região tinha tráfego intenso. Só o piloto tinha banco e cinto de segurança, eu ia sentado sobre uma caixa de madeira daquelas que acondicionam legumes e o restante do interior do avião era repleto de carga, na maioria das vezes alimentos, gaz de cosinha, combustíveis, ferramentas e outros.
Ao avistar a pista de pouso não acreditei ser posível pousar no que parecia ser uma estrada de chão batido, estreita, curta e com várias ondulações, o que fazia o avião sacolejar apesar dos 500 quilos de mercadoria a bordo. Aos lados e nas cabeceiras da pista havia um grande trecho de floresta devastado, com os troncos de árvores espalhados em todas as direções e chamuscados pelo fogo, para viabilizar a aproximação e o pouso dos aviões. Foi uma experiência única e inimaginável até então e uma grande sensação de alívio ao ver a parada do motor do avião, para descarregá-lo rapidamente e voar mais duas horas e meia de volta à base em Itaituba. Enquanto descarregavamos o avião, pude ver além do final da pista a parte trazeira de um avião que não parou a tempo e precipitou num declive deixando à mostra só o profundor e o leme direcional.
De volta a Itaituba, Paulo perguntou-me sobre minha experiência no primeiro voo e avisou-me de que caso eu quisesse, teria outro voo para um garimpo próximo a Jacaréacanga, uma base aérea já em território amazonense. Naquela noite, jantamos em um restaurante que ficava no centro comercial da cidade, fui alí apresentado a algumas pessoas, entre elas o senhor Lourival Lemos, tambem conhecido por “Rei da voz”, proprietário da Fazenda Crepurí onde se encontrava os garimpos crepuri, sem ilha e cuiú-cuiú, alem das oficinas e de razoável frota de aviões e aínda a criação de gado para abastecer de carne a cidade e garimpos. Renato disse ao senhor Lourival que eu fora para lá com o intuito de voar e ele prontamente ordenou que disponibilizassem um avião para que eu comessasse a voar imediatamente. Agradeci-o, tendo em mente a remota possibilidade de pilotar um avião naquelas condições fora de padrão. Conheci também naquela noite, no mesmo complexo comercial, um cassino, coisa inédita para mim até então, contudo, já que estava ali, arrisquei a sorte, joguei e perdi alguns parcos cruzeiros, o que era a moeda corrente à época.
Na manhã seguinte fui apresentado a um piloto o Vanilson Alves, a quem chamavam tambem por “pé”, por ele ter uma cicatriz muito grande em um dos pés causada por um sério acidente de que fora vítima, ao saltar de paraquedas. Voamos por duas horas e meia até o destino, um vale ladeado por serras e tendo à cabeceira da pista por onde procede os pousos, uma enorme castanheira com seus grandes galhos superiores cortados a motoserra para viabilizar a passagem aos aviões durante os pousos e as decolagens, o que é feito assustadoramente ao passarmos muito próximo pelo quão crítica é a operação no local; além de que nas decolagens só podem estar a bordo o piloto e um passageiro, caso contrário o avião não passa por sobre os troncos da castanheira. Enquanto descarregavamos o avião, solicitaram ao pé, que levasse um senhor que passava muito mal com malária para Itaituba, com o que o pé prontamente concordou, porem disse que me levaria até a base aérea de jacareacanga distante de lá meia hora de voo e lá eu o esperasse porque o avião não sairia daquela pista com tres pessoas a bordo. Após uma hora de espera em Jacareacanga, tempo em que travei batalha com borrachudos, chegaram, o pé e o enfermo, a seguir chegou na caçamba de uma caminhonete uma senhora doente com malária e tres garimpeiros. Voamos por duas horas e meia de volta a Itaituba, sendo que eu e os tres garimpeiros sadios, desembarcamos na cabeceira oposta da pista de pouso para que o piloto não fosse penalizado pelo excesso de passageiros, pela Infraero.
À minha chegada ao aeroporto meus primos me deram a notícia do acidente com o Florindo, o piloto com quem eu voara no dia anterior, e por sorte não estava com ele no voo, pois a carga do avião que ao pilonar, pressionou-o com o seu assento ao painel do avião, e ele não morreu por pouco, sendo hospitalizado por alguns dias. Fomos ao hospital visitá-lo e eu perguntei-lhe: Você contunuará a voar? Ele respondeu-me: - Assim que tiver alta volto a voar, tenho minha família para sustentar.
Na cidade, todos os dias deparavamos com com situações inéditas e chocantes, havia duas famílias de rivais nordestinos, poderosos financeiramente que se degladiavam pelo poder econômico e por isso morriam de tempos em tempos, membros de ambas. Certo dia eu e meu primo Paulo, fomos a uma loja de ferragens para comprar uma bomba de poço e na entrada da loja havia um homem trajando um uniforme camuflado como aqueles que usam os soldados do exercito, portando à mostra uma pistola à cintura e um fusil às mãos, a título de defender os proprietários de emboscada inimiga. Em uma das emboscadas, em que assassinaram vários membros da família, entre os mortos estava uma grávida e a seu lado o feto de seu filho morto, retirado do ventre da mãe pelos assassinos.
Paulo e Renato me contavam que em determinados garimpos, nas barracas dos acampamentos cobertas por lona preta de plastico, onde os garimpeiros dormiam, à noite morriam muitas pessoas por balas perdidas resultado de brigas ou tiros dados a esmo por garimpeiros embriagados. Depois de algum tempo, cavavam valas no interior das barracas como se fossem sepulturas, para que ali pudessem dormir livres do perigo de serem alvejados e mortos.
Outro tipo de assassinato bárbaro era cometido contra os garimpeiros mergulhadores que tomavam parte nas equipes das barcaças apoitadas no leito dos rios. Nessas barcaças havia todo o equipamento de extração por sucção e peneiramento, com bombas possantes movidas a óleo diesel, tendo mangueira de cerca de 80 milímetros de diâmetro para sucçionar do fundo do rio: areia, cascalho e seixos de onde separavam o ouro quando houvesse. O garimpeiro mergulhador descia ao fundo do rio tendo um peso às costas para que lá pudesse permanecer sem flutuar, e também tinha uma outra mangueira de menor diâmetro que levava ar forçado ao respiradouro além de uma corda presa à cintura pela qual através de pequenos toques em forma de código ele sinalizava aos que estavam a bordo aliviarem-na para a locomoção ou que o puxassem à superfície quando necessário. O grupo a bordo da barcaça, ciente das posses do companheiro em razoável quantidade de ouro, mancomunados em cruel e sórdida ação criminosa, interrompiam o envio de ar para que ele morresse asfixiado ou afogado caso se safasse do respiradouro em situação de desespero, também não atendiam aos toques em código na corda para o içamento e ao contrário cortavam-na para que a correnteza do rio o levasse. Certos da morte do desventurado colega, apossavam-se do ouro e outros pertences de relativo valor e sumiam na mata em direção a outros garimpos distantes dali.
Certo domingo à tarde vi um cachorro vira latas de porte médio pulando pela rua com somente uma pata dianteira e uma trazeira cruzadas, a cena me deixou penalizado, então o Paulo me disse: - Essa é uma das barbaridades que os garimpeiros embriagados fazem em fins de semana ociosos. A cadeia da cidade fica junto à calçada e as grades com prisioneiros enroscados a elas, como que atores representando aos transeuntes parece não chocar os moradores locais, parece comum como são comuns para nós as vitrines das lojas nas áreas centrais das cidades.
Às tardes íamos a uma ilha do rio Tapajós a bordo de uma pequena lancha do Paulo, meu primo, em um bar de propriedade de uma jovem senhora, que lá vivia com seu bebê. Lá tomávamos cerveja e comíamos tira gosto vendo as travessuras de um pequeno macaco que costumava vir beber cerveja à mesa com os fregueses, ele era uma espécie de mascote do estabelecimento.
Naquele lugar, nem tudo era sobressalto e acontecimentos desagradáveis e tristes, contava meu primo Paulo, entre tantos acontecimentos engraçados, dois ficaram reclusos em minha memória. Certo dia, indo do aeroporto à cidade, distante cercas de tres a quatro quilômetros, havia uma caminhonete parada ao lado da estrada e um caixão com um cadáver sobre a areia e o motorista trocando o pneu da caminhonete. Paulo dirigiu-se ao motorista e perguntou-lhe: - Amigo, o que aconteceu? O outro responde: - Tive que parar para trocar o pneu furado da caminhonete. – E porque você tirou o caixão da caçamba do veículo? – É em respeito ao finado. Paulo saiu rindo sozinho do que vira e ouvira.
Num outro dia, no centro comercial da cidade em horário das crianças em idade escolar voltarem para casa com as mães, Paulinho vira, o que não era surpresa às pessoas pelas ruas; animais domésticos de todos os portes, só que nesse dia estavam lá, em meio ao burburinho de pessoas, um casal de equinos copulando tranquilamente no meio da rua para surpresa e deleite dos escolares, que sob puxôes de orelhas e sopapos de suas mães envergonhadas e sob protesto diziam a seus filhos: - Olha pra frente menino e caminha rápido senão vai apanhar! Paulinho dizia ter rido muito e ria cada vez que nos contava esse incomum flagrante.
Daquela época só se tem uma certeza, o ouro que saiu daqueles garimpos está espalhado, ornamentando pescoços, orelhas, braços, mãos, bocas e outras partes da geografia humana de muitas pessoas pelo Brasil e pelo mundo; as histórias, certamente mais tristes que alegres, estão à medida em que o tempo passa, mais raras nas mentes e nos relatos dos seres humanos que la habitaram ou lá estiveram de passagem, remanescentes daquela época de sonhos com a prosperidade, de falência material e humana; e de mim, humilde e breve protagonista daquelas plagas, tenham este pequeno fragmento de História.

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