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VAGABUNDO

Eat, drink and love; what can the rest avail us!
BYRON

Eu durmo e vivo no sol como um cigano, 
Fumando meu cigarro vaporoso, 
Nas noites de verão namoro estrela; 
Sou pobre, sou mendigo, e sou ditoso!

Ando roto, sem bolsos nem dinheiro; 
Mas tenho na viola uma riqueza: 
Canto à lua de noite serenatas, 
E quem vive de amor não tem pobreza.

Não invejo ninguém, nem ouço a raiva 
Nas cavernas do peito, sufocante, 
Quando à noite na treva em mim se entornam 
Os reflexos do baile fascinante.

Namoro e sou feliz nos meus amores; 
Sou garboso e rapaz... Uma criada 
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada...

Oito dias lá vão que ando cismado 
Na donzela que ali defronte mora. 
Ela ao ver-me sorri tão docemente! 
Desconfio que a moça me namora!..

Tenho por meu palácio as longas ruas; 
Passeio a gosto e durmo sem temores; 
Quando bebo, sou rei como um poeta, 
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono, 
Minha pátria é o vento que respiro, 
Minha mãe é a lua macilenta, 
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas, 
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras 
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.

Sinto-me um coração de lazzaroni; 
Sou filho do calor, odeio o frio;
Não creio no diabo nem nos santos. 
Rezo à Nossa Senhora, e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela 
Bem doirada e amante da preguiça 
Quiser a nívea mão unir à minha 
Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa. 


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