
ESPIANDO A VIOLÊNCIA DAS GRANDES CIDADES - crônica não publicada
Segundo os jornais de São Paulo do dia 13 de outubro de 1975, segunda-feira, no fim de semana houve sete crimes de morte e cinco tentativas de assassinato. Para o cronista Plínio Marcos, é um índice alarmante, principalmente comparando-se com a Argentina, que está à beira de uma guerra civil, onde, devido a agitações e violências políticas, no mesmo fim de semana morreram apenas 20 pessoas no país todo.
1 - A violência nas grandes cidades está atingindo índices de assombrar qualquer cidadão. Mas, assim mesmo, as pessoas parecem só tomar conhecimento dessa violência quando são vítimas dela. Quando a vítima é o vizinho, ninguém se afoba. Eu mesmo, que a toda hora boto esses meus olhos em cima de manchetes de jornais tipo "espremeu, sai sangue", ou talvez por isso mesmo, já nem ficava pálido de espanto diante de crimes abomináveis, escancarados em letras garrafais. Achava que era exagero. Achava. Não acho mais. Tudo porque na segunda-feira passada...Ou será na retrasada? Sei lá. Ainda não peguei embocadura de escrever pra revista semanal. O que sei é que foi na segunda-feira após a quinta-feira que entrou pra História, devido ao discurso do Ernesto Geisel, no qual ele falou da necessidade de a Petrobrás fazer contrato de risco. Localizada a segunda-feira, vamos em frente. Que eu não quero falar de petróleo, nem de contrato de risco. O que quero contar é que nessa segunda-feira de madrugada, abri um jornal e vi, ninguém me contou, vi, com esses olhos que a terra há de comer um dia, duas manchetes que me entortaram o patuá. A primeira estava no alto da página: "Argentina: 20 mortos". E a segunda, no meio da página: "Fim de semana violento". E logo abaixo, essas explicações: "Polícia de São Paulo atendeu 7 casos de morte e 5 tentativas."
2 - A Argentina, segundo os comentaristas políticos, só não está em guerra civil por questão de detalhes. Os chefes da situação não acham os chefes da oposição pra lhes entregar a declaração de guerra. Mas, mesmo sem cumprirem o protocolo, o pau quebra em cada esquina, e tal e coisa e lousa. Pois na Argentina, num fim de semana movimentado, só matam vinte. Na Argentina inteira. Num país inteiro, vinte. Num país agitado, prestes a entrar numa guerra civil, vinte. E em São Paulo, que é apenas uma cidade de uma país onde reina a tranqüilidade e a concórdia, no mesmo fim de semana, sete assassinatos e cinco tentativas. E, se contarmos todos os crimes acontecidos nesse mesmo fim de semana, nas outras capitais brasileiras, a quantos crimes de morte chegaremos? Cinqüenta? Cem? Duzentos? E se juntarmos às capitais brasileiras, São João do Mereti, Nova Iguaçu, Caxias que, junto com Dallas City, são campeãs mundiais de bochicho? Quantos crimes de morte teremos no Brasil, num único fim de semana? Sei que só em São Paulo, sete vidas se acabaram a tiro, a faca e a marretada. E mais cinco só não se acabaram porque Deus não quis. É muito assassinato. Muita gente morta. Sem contar os atropelados e trombados no meio do trânsito ou afogados em piqueniques. Realmente é muita violência pra uma cidade de um país tranqüilo.
3 - Diante desse quadro cavernoso, me apresso a dizer que não sou capaz de análise. Conheço minhas limitações. Sei que meu puçá (rede de pescar siri) tem vara curta e que, por essas e outras, eu só pesco o que aparece boiando nas águas barrentas em que navego contra a maré. Mas esses cadáveres todos que viraram manchetes me fazem matutar. A Argentina, com seus vinte mortos de um fim de semana agitado, está à beira de uma revolução social. Não estaria o Brasil, com seus...sei lá quantos mortos de um fim de semana tranqüilo, à beira de uma convulsão social?
4 - Os mortos brasileiros não foram inventados por mim. Nem sou eu que estou inventando quando digo que o povão lesado das quebradas do mundaréu está se tratando com mingau de araruta feito com leite de sapo e comendo capim amargo pela raiz. Tem muita gente que mora nas beiras do rio e quase se afoga toda vez que chove. Tem muita gente cansada de berrar da geral sem nunca influir no resultado. Pra essa gente, petróleo, contrato de risco, não quer dizer nada. O que lhes diz é a fome, má conselheira, que induz a besteiras, a violências inúteis, a gestos desesperados. Não será a miséria que está por trás desses crimes todos nas grandes cidades? Vai ver que é.
Moral da história: todo poder corrompe. E o poder absoluto corrompe absolutamente. É o que dizia, se não me falha a memória, Maquiava. E eu, parafraseando-o, digo: a miséria também corrompe. E a miséria absoluta corrompe absolutamente.