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TARDE ENSOLARADA DE DOMINGO

         Ah, o sol! Após um ano inteiro de lamentações à beira da janela do escritório onde trabalho, poderei enfim apreciar minha pele derretendo sob o efeito do foguento astro rei. Dou uma olhadela pra a rua enquanto tomo um copo de suco de laranja. O gosto dessa fruta me é estranho pela manhã, mas litoral é sinônimo de esportes radicais e suco de fruta é uma das bebidas preferidas dos esportistas; eu faço o que posso, bebo o suco. Na rua, muitas pessoas voltando da praia e as imagens se distorcendo devido à refração provocada pelos raios solares. As pessoas realmente acordam cedo na região litorânea, bem, nem tão cedo; ao olhar para o relógio, percebo que são quase treze horas. Eu tinha certeza que acordaria após o meio dia se não tivesse meu rádio-relógio por perto, o único inconveniente é que me sentiria levantando para ir ao ponto de ônibus pegar a lotação rumo ao "trampo de peão".

         O sol está gostoso, minha pele arde como se estivesse tocando numa panela de pressão recém tirada do fogo. Meus pés expiram aliviados por terem um para de sandálias a lhes proteger do incandescente piso de blocos hexagonais. A caminhada até a praia seria de aproximadamente de cem metros, o que me permitiria fazer um pouco de musculação, carregando o guarda sol, uma cadeira, esteira, toalha e bronzeaador! Xi! Esqueci de trazer o bronzeador, tudo bem, o sol não está tão quente assim e, depois, os bronzeadores daqui sãouma porcaria, os paraguaios são mais baratos. Não sei porque falo assim, dificilmente os uso. No meio da caminhada, noto que meus ombros já estão com uma nova cor, só não sei se era assim que eu esperava, talvez, se estivesse mais moreno e menos vermelho...

         Esse é o mundo! Admiro o céu e o mar se confundindo no horizonte, me esqueço que a musculatura dos braços está tesa e gritando: "Largue estas bugigangas e me cubra com uma toalha". É, a riqueza do Brasil ninguém leva, nos mesmos é que a destruímos, tamanha é a quantidade de lixo que tenho de diblar. Finalmente encontro um lugarzinho entre um canal de esgoto e outro, ali o lodo não é tão intenso e as latas de cerveja não vão e vêm com as ondas. É lindo ver o mar, mas é mais gostoso ainda estar nele; já não suportava mais suar sobre as queimaduras de meus ombros. O sal que se espalha por todo o meu estômago a cada embolada em que me envolvo diz que a comunhão experimenteda por minha pessoa e pela natureza é perfeita.

         Resolvo deixar o sal e voltar ao sol, deitado sobre a toalha não terei mais que aturar caranguejos e garrafas me beliscando quando submerso, além do mais, já estava me sentindo inferiorizado diante dos surfistas que de vez em quando chegavam às minha proximidades, onde a água batia em minhas coxas, para em seguida voltarem ao fundo do mar. Senti-me uma criança brincando na areia molhada enquanto o irmão mais velho se diverte de verdade em meio às ondas. Fingi que estava dormindo por trás dos óculos escuros, as pessoas que passavam me olhavam, eu também as observava e me perguntei se o que pensavam era o mesmo que eu. Por que eles tinham uma pele morena de sol e eu aquela pele vermelha de filme de faroeste?

         Deixei para lá a questão, pois a tarde de domingo estava espetacularmente ensolarada, ou direi terrivelmente. Não, não podia apelar para o guarda-sol; tinha que pensar na segunda-feira e nos olhares invejosos dos colegas de trabalho, pena não poder receber os tapinhas nas costas como parabéns.

         O sol começa a se pôr, poxa, como o tempo passa! Só minhas axilas não queimaram, parece que fui marcado por um gigantesco ferro em brasa. Ah! Mas quando o vermelho sumir e o ardor passar... Quanta felicidade, vou até comprar uma camiseta regata com os dizeres Long Beach. Antes, porém, terei que recolher todo o lixo que produzi, mas como, se até eu estou contido no meio da lixeira deixada por meus semelhantes? Dou uma disfarçada, enterro alguns palitos de sorvete que usei para criar um relógio solar o qual sequer sei usar; bato desajeitadamente o cabo do guarda-sol para tirar a areia e saio como quem quer passar desapercebido.

         A caminhada de volta parece ser mais longa que a de ida; bem que o prédio da kitchenette que aluguei poderia ter piscina, mas uma ducha fria no pátio não é tão mal assim, além do mais, evitou-se o vexame de ficar só nas beiradas por não saber nadar. Logo tiraria a sunga apertada que me deixava assustado vez ou outra quando meus olhos se fixavam num corpo mais tentador. Tiraria também as sandálias que entraram em fricção com o costado de meus pés desde que dei o primeiro passo da volta, aliando-se a esse confronto eu poderia notar a presença de uma leve, mas ardente pitada de areia. Garotas e rapazes passam por mim impecavelmente bronzeados, guiando suas bicicletas não muito reluzentes, ambos resultantes do mesmo agente causador, o sol com o mar. Lembro-me que acordara tarde demais para fazer meu cooper anual.

         Não contava com isto: do pátio posso ver as janelas de quase todos os apartamentos, logo a vergonha me dá uma idéia. Esqueço a ducha fria e subo a escadaria correndo num fôlego só até o sétimo andar. Grande idéia! Compensei o cooper desobedecendo as regras do condomínio, espalhando areia por todo o corredor. Banho tomado na kitche, o pote de loção refrescante no lixo, seu conteúdo todo sobre minha pele; uma necessidade de ficar em pé o tempo inteiro só para não precisar gemer na hora de desencostar de qualquer lugar. Minha pele ardendo em alta temperatura, um friozinho vindo bem do meio da coluna. Estou com febre de sol, ou será uma vontade que chegue amanhã, quando a dor se tornará prazer e poderei desfilar com minha regata fazendo pressão até que minha pele natural jogue fora a falsa idéia de garoto bronzeado de Long Beach.

Autor: Arnold Gonçalves

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