Oh! Deus, o que fiz para sofrer tanto? Por que serás que estou preso numa gaiola, se nunca matei, não roubei e nem feri ninguém. Será Senhor que estou preso somente pela beleza e esplendor de meu cântico, se foi dávida desse próprio Senhor. Mestre, se este for este o motivo, que me liberte, e deixe que meu cântico melancólico seja ouvido por outros habitantes da floresta.
Oh! Deus, tem pena de mim - tenho asas e não posso voar; tenho voz e não posso cantar; tenho pés e não posso pular; tenho vontade e não posso acasalhar; tenho sonhos e não posso realizar. Será que realmente o meu cantar fascina as pessoas, a tal ponto de querer me ver engaiolada. Não acredito que seja verdade, isto posto, o homem queria me ver na floresta ensaiando um coro com as demais aves da fauna brasileira.
Oh! Grande Mestre, ilumina o homem, e o conscientize que a sua liberdade vale tanto quanto a minha, e jamais faça de um simples passarinho indefeso, um objeto de desejo e capricho pessoal. Dei-me liberdade, me dê carinho, mas deixe-me no meu habitat natural. O meu espaço são as matas, a minha água é dos rios e dos lagos, a minha dormida são as árvores, e a minha comida é retirada da própria natureza. Lá, o mundo é natural, não tem dono - é de todos.
Não vedes Senhor que em dias de inverno, o meu cântico é bucólico. Mas, sabe Rei dos Reis, é que minha alma está tristonha. A solidão me tira a vontade de viver, e o cair das chuvas me enche de comoção, o que poderia ser uma grande alegria se solto estivesse na floresta, se torna num grande pesadelo, pintando um quadro sinistro e macabro da situação.
A minha vingança é o silêncio. Depois, não como. E se acaso, Senhor, um dia não for solto, com certeza, também farei greve de fome. E quem sabe, dessa forma, os homens resolvam de dez e me der a liberdade, pois, somente a Providência Divida é dado o direito de subtraí-la.
Se acaso, um dia eu sair da prisão irei voar, voar tanto, que as minhas asas irão sucumbir, e o vento soprando, dirá: em voz alta e galopante - LIBERDADE, LIBERDADE, LIBERDADE.