Tela manchada de sangue, por Van Gog

Autor: José Jacques

"Pois bem, em meu próprio trabalho arrisco a vida e nele minha razão aruinou-se em parte..." Vincent Van gog, Carta a Théo, 29 de julho de 1890
Van Gog sentou-se no campo de girassóis e olhou suas mãos. Eram mãos calejadas, cansadas de tanto trabalho. Seu rosto deveria estar assim, pensou. Muito café, noites mal-dormidas, má alimentação. Não tinha dinheiro nem mesmo para comprar um pedaço de pão. Lembrou-se então da generosidade de Théo e começou a sentir-se mal. Sempre imaginava que um dia ganharia dinheiro suficiente para pagar tudo que devia ao irmão. E o irmão nem mesmo reclama, nem lhe dizia, você é um vagabundo, não presta para nada, não, nem mesmo isso, que o irmão tinha toda razão em dizer, a verdade que mais doeria em Van Gog, a verdade que ele ansiava por ouvir.
O campo de Girassóis estava lindo nesta época do ano. Pensou que poderia pintar essa paisagem, quem sabe testando uma nova maneira de recompor o fundo, fazendo um sombreado mais intenso em direção a uma cor opaca... eu devia anotar essas idéias, pensou. Então suspirou. E veio aquela sensação, como um vento morno, de que afinal talvez ele não fosse um grande pintor como imaginava, que foi tudo um engano, que é um delírio. Lembrou de seu médico, dos seus olhos tristes, de quando lhe contava suas novas pesquisas na pintura, suas experimentações, seu médico nada dizia, apenas escutava, imóvel. Talvez isso fizesse parte do delírio, quem sabe? Lembrou-se que uma vez sonhou estar caminhando em um cemitério, em um dia de vento e seu médico surgia, de preto e com um dedo acusatório lhe dizendo "você não tem cura, eu desisto". Acordou ouvindo um tiro, como se viesse de algum lugar distante. Mas não havia nada, apenas seu corpo coberto por um suor frio, seu coração disparado. Aquelas palavras do sonho o perseguiam. O que mais o atemorizava, é que ele já não sabia onde terminava sua doença e onde começava seus pensamentos racionais. Em dias de vento, eles se confundiam, como a sensação de dois rios se misturando, se unindo para formar outra coisa, que ele definia como uma sensação viscosa. Nestes dias, pintava. Ali na pintura, tinha nítida sensação de que, com ela, poderia separar sua loucura da parte sadia e assim poder sanar sua doença. Pois o quadro pintado era seu, era o delírio tomando forma na tela, diferente da paisagem que ele representava, esta sim, real. E olhando os dois, quadro e paisagem, talvez conseguisse discernir realidade de loucura, sua arte do que via. Só que às vezes o quadro parecia mais real que a realidade. Certa vez, ao fazer o movimento de ir do quadro a paisagem e vice-versa, teve uma sensação aterrorizante de que ele não vivia mais naquela paisagem, naquele mundo, mas dentro de um quadro.
Suas pinturas infinitas, seus olhos cansados de olhar para quadros e mais quadros, suas mãos cobertas de tinta, os enjôos que o cheiro da tinta lhe dava, o ato de pintar dia e noite, ineterruptamente, como algo que não podia parar, como uma coisa que tinha de sair de dentro dele, uma doença que tinha de ser extirpada, os sonhos povoados de pinturas de rostos cobertos de tinta, tudo lhe dava a sensação de que ele vivia para pintar e talvez, ele já estivesse vivendo na pintura. A pintura, as tintas, eram esse delírio que, mais do que um parasita, era uma bolha que o queria sugar para dentro. Foi quando olhou-se no espelho e viu-se não como um homem, mas como um retrato, que soube, os quadros estavam lhe pintando. Por isso cortou a orelha. Para sentir carne, para ver sangue, para saber se ainda restava algo de humano, por baixo daquelas camadas de tinta que mais e mais seu rosto se transformava. E então soube.
Soube que a arte sempre foi uma parasita, sempre foi quem quis lhe matar. Por ela tinha arriscado tudo. arriscara até o dinheiro de seu irmão. Entendeu que aquela voz, que o mandava prosseguir, que lhe dizia que ele era um grande artista, que não devia parar de pintar, aquela voz queria matá-lo. A arte consumiu sua vida, agora estava consumindo seu corpo. O cheiro da tinta destruía seu corpo, seu braço doía de tanto pintar, noite e dia, agora ele havia entendido tudo: a arte era sua doença, era o que o matava, aos poucos. Ela enganara-o fazendo crer que ele seria um grande artista, para matá-lo, para fazer ele viver ali, naquele quarto miserável, no meio de telas, pincéis, sem nenhum amigo, nenhum amor, escorraçado por todos como o louco. A arte matou sua vida.
Foi então que, talvez para proteger o irmão, para impedir que ele fosse arrastado junto na mesma loucura, ou porque já não acreditava em mais nada, por sentir que toda sua vida foi um erro por um caminho longo demais agora para voltar, que sua carreira de artista foi um embuste, que ele jamais seria nada, que suas telas jamais valeriam coisa alguma, que todos estavam certos, ele não tinha nenhum talento, que sua crença de ser um grande artista foi apenas um sintoma de sua loucura, que sua arte, sua loucura, tudo era a mesma coisa, o mesmo verme gigante a consumir suas vísceras, por tudo isso, como se fosse um turbilhão de pensamentos, como se estivesse no meio de um tornado e o vento soprasse cada vez mais forte, puxando-o para o céu, ele decidiu: será no campo de trigo. Minha arma será meu pincel e pintarei com sangue meu último retrato, com sangue para quem sabe talvez, no instante de minha morte, eu seja mais humano do que tinta. Partiu para o campo com o vento uivando sobre ele. Partiu demais.


Crônica anterior

Crônica anterior

Menu de crônicas

Menu de crônicas