FILHOS?
- Arnaldo,
precisamos conversar.
-
Pode
falar, querida.
-
Quero um
filho, afinal de contas já estamos casados há quatro anos.
-
De novo?
Nós já discutimos isso uma centena de vezes.
-
Já faz
tempo, além disso, um casamento para ser perfeito tem que ter
filhos.
-
Quem te
disse essa bobagem?
-
Minha
mãe.
-
Só
podia, aquela jararaca! Tua mãe não passa de uma velha
esclerosada.
-
Não fala
assim dela e além do mais nosso casamento não vai lá essas
coisas.
-
E você
acha que um filho é a solução para todos os problemas matrimoniais do universo?
Filho não é bote de salvação para casamento nenhum. As pessoas se casam para
compartilharem uma vida, porque se amam e até para afugentar a solidão, sei lá.
Mas não com o único propósito de procriar.
-
Arnaldo,
talvez seja melhor, eu sinto essa necessidade, não estou realizada como mulher,
falta algo, não entende?
-
Tudo
bem, eu arranjo um gatinho ou um cachorro.
-
Você é
um insensível, um brutamontes, nem sei como fui casar
contigo.
-
Além do
mais, não temos condições financeiras, quem sabe mais
tarde...
-
Conversa
fiada. Sempre a mesma e ridícula desculpa. Se pensarmos assim, nunca teremos um
nenê.
-
Não é
desculpa esfarrapada, não senhora. Você quer que nosso filho passe pelo mesmo
trabalho que nós estamos passando? Viver essa vidinha de merda. Eu gostaria de
dar tudo. Bom estudo, boas roupas e depois de crescido até um apartamento e um
carro. Mas como farei essas coisas? Não temos nem a nossa própria casa. O
dinheiro mal dá para o aluguel.
-
A vida é
isso, se precisar sofrer ele terá que suportar.
-
O que eu
estou escutando nada mais é do que egoísmo. Você não liga para o futuro da
criança. Só está pensando em si mesma, no seu instintozinho medíocre de
realização materna.
-
Todos
têm filhos. Ninguém que eu conheça faz tanto escândalo por causa
disso.
-
São
todos uns irresponsáveis. Amanhã, os próprios filhos poderão se revoltar contra
eles. O mundo está podre, não vale a pena viver.
-
Idiota,
você só fala asneiras.
-
E mesmo
que tivéssemos todas as condições, quem garantiria que ele seria feliz. Ele
poderia ter vários problemas assim mesmo. Ser drogado, virar um assassino,
tornar-se um estuprador ou mesmo enlouquecer com a pressão desta vida
absurdamente corrida. Quem sabe?
-
Seja
homem uma vez na vida e assuma que não quer ser pai. Que não tem coragem de
assumir uma responsabilidade desse porte. Vamos, diga na minha cara que não quer
ter um filho meu.
-
Não é
bem assim...
-
Admita,
seu bosta! Seu problema é arcar com o compromisso. No fundo seu pensamento está
voltado para as privações que nós teremos que passar.
-
Claro
que não! Mas, chega! Chega de gritos e discussões. Tudo bem! Prometo pensar no
assunto, me dá um tempo, está bem? Assim poremos um ponto final nessa briga
infrutífera.
-
Não
temos tempo! Não adianta pensar! Já faz oito meses que parei de tomar as pílulas
e estou grávida de dois meses.
-
Que
brincadeira mais boba.
-
Decidi
sozinha e agora estou te contando. Se eu não tomasse esta atitude nunca teríamos
uma criança.
-
Então é
verdade... No fundo sempre soube que estava casado com uma
vagabunda.
-
Não
baixe o nível, exijo pelo menos um pouco de respeito, pois serei a mãe do teu
filho.
-
Meu
filho? Meu filho o cacete, até agora quem não entendeu porra nenhuma foi você.
Eu nunca quis ter filhos porque não podia e ainda não posso. Sou
estéril.
-