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Amor Eterno -- 13/07/2000 - 16:48 (José Kappel)
www.kappel.com.br

Foi uma encrenca dos diabos 
que a vida e aquela mulher me meteram. 
Não sei como começou e nem sei 
se ainda terminou. 

Sei que ela está viva 
porque notícias dela tenho a mil, 
e tambémde de seus filhos. 

Não sei lá se tem netos. 

Sei que teve o primeiro 
marido e largou e teve o 
segundo e também largou e 
parou no terceiro.Acho. 

Virem-se os obstetras! 

Para suportar minha vida na outra, 
espero, ansioso, que seja mais calma. 

Tudo começou quando a 
encontrei sentada num pedaço de cimento, 
numa tarde de outono, 
largando pétulas de flores ao vento. 
Um lindeza que me fez vibrar 
até minha pecadora e impiedosa alma. 

Estava dispersa até me ver. Eu com 18 e ela 
com 18 anos. Querem idade mais perfeita para 
deixar o coração se meter em encrencas de amor? 
Em balbúrdias coloquias? 

Parecia bendita e talvez maldita. 
Mas era linda e seus olhos profundos, 
sua boca igual 
a maçãs virgens. 

Sei que foi ali que tudo começou. 
Eu olhei prá ela, ela olhou 
prá mim.Nada mais ia terminar! 

Estava marcado o enlevado encontro para 
a vida toda. 

Impiedosa vida de alegrias 
pessoais, de desencontros totais 
de perdas e danos, sem costura e sem 
véu.Mas bela e sedosa,rosada e cálida. 

Nos ncontrávamos semm mistérios 
durante quase um 
ano, sem ninguém ligar, sem ninguém dar 
palpites.Nem havia fofocas nos salões de 
beleza! 

Ela aqui e eu aqui. 
Assim tudo começou. 
Como começa todos os dias 
com alguém. 

Só que comigo foi diferente, 
quando a história começou 
a mudar. 

Sofri o diabo. 

Primeiro ela era noiva 
e vivia comigo 
mas tinha um noivo 
e enganava com ele. 

Depois ela casou com o noivo 
passou a lua-de-mel com ele, 
mas deixou seu coração comigo. 

Fui a seu casamento e ela teve 
tempo de deixar no meu bolso um bilhete: 
"Te amo eternamente". E foi prá cama com o cara. 

Sumiu dois meses. 
Apareceu grávida, cinco mseses depois. 
Era um filho que nasceu filha. 

Enquanto isso, ela 
resolveu voltar comigo. 
Não podi viver sem mim e eu 
sem ela. 

Passamos a nos encontrar 
e namorar. 

Eu já nem ligava para outra mulher. 
Amava aquela deusa tanto que de mais 
nada queria saber. 

Foi brabo! 
Foi dos diabos! 

Coisinha encrencada essa coisa de 
amor, de mulher que agarra 
o espírito da gente e tudo combina. 
dentro do desespero a luz aparece! 

Dá agonia, dá tremor, 
da sensação estranha. 
A gente vê estrelas em pleno dia! 

E assim passaram-se alguns anos. 

Ela de dia passava comigo e à noite 
dormia com o marido. 

Então ela voltou a ficar grávida. 
Minha culpa não era, 
com ela só brabeira de amor platônico, 
de fundição de almas 
e redemoinhos de conversas 
que atravessavam um dia inteiro. 
No amor de carne nem pensar! 

Nasceu outro filho, 
que na verdade, era a segunda filha. 

A primeira tinha 8 anos, 
o marido dentuço tinha 41 
eu tinha 25 e ela 25. 
e o filho dela 6 meses,o marido, 
35 anos. 

Um dia ela me anunciou solenemente que queria 
viver comigo e não podia. 
Tinha medo.O marido bebia e batia muito nela. 

Resolvi tirar satisfação com o marido. 
De bobo, não tinha nada: 
tomei meia-garrafa de uísque Jack 
Daniel's e fui lá na casa 
dela. 

Quando ela me viu começou a gritar 
o marido, já bêbado, nem falou nada 
voou em cima de cima - o cara já 
sabia da trama de amor eterno. 

Besteira minha. Dei um tapa no vento 
e ele um safanão na minha cara. 

A mulher que eu amava, encostou-se num canto 
e começou a gritar. Apareceu a filha dela 
e começou a gritar. 

A vizinha veio à janela e todos começaram 
a gritar. 

Eu ainda refestelado no chão. 

Chamaram a polícia. Eu mal me aguentava em 
pé não só pelo soco como pela bebida. 
Ele também 
bêbado, quis bater na polícia. 

Eu corri lá e me atraquei com ele. 
O policia pensou que era nova briga, 
que eu tinha entrado na briga e veio 
outro policial e entrou 
no meio e foi todo mundo pro chão. 

Naquela noite dormimos na polícia. 
Eu de um lado e ele de outro. 
Depois daquele dia nunca mais vi o 
marido de minha amada. 

Ele arrumou outra mulher e 
eu ainda solteiro 
aproveitava e encontrava com 
ela todos os dias - juras contínuas de 
amor eterno era lugar-comum. 

Ela queria que eu fosse morar com ela. 
Mas eu não podia, como ia largar 
minha mulher? Ah! já tinha casado - 
com uma linda moça de 23 anos que 
só pensava em sexo 
o dia inteiro. 

Eu tinha uma filha de 6 anos. Mas 
a mulher, não amava 
aquela mulher, amava a outra. 
A do amor eterno! 

Um dia à noite, no quarto, cortamos os pulsos, 
levemente, até jorrar um filete de sangue.Enlaçamos nossos 
pulsos e juramos que viveríamos a vida inteira assim.Amantes gêmeos e eternos. 

Só que eu cortei o meu pulso com força demias e precisei de ir até a farmácia 
para fazzer um curativo.Desmaiado. 

A partir dai nós nunca mais nos esqueceriamos um do outro. 

Ela já tinha duas filhas e eu uma filha. 

Andava desconfiado de minha mulher fogosa. 
Quase toda noite ela ia para uma reunião 
de costura. 

Eu não ligava muito, pois enquanto 
ela ia costurar eu ia encontra minha amada. 

Tínhamos uma babá que cuidava das coisas 
da casa e da criança. 

Um dia minha mulher chegou em casa 
e disse que estava esperando outro filho. 

Eu logo desconfiei que o filho não era meu. 
tinha certeza - o homem sabe quando a coisa 
funciona. 

Enquanto isso minha amada me chamou e 
disse que um vizinho antigo seu a chamou 
para morar com ele. Ela se sentia sozinha 
e ele, viúvo também, mas sozinho. 

Felizes dos sozinhos!Sempre arrumam companhia! 

E foram os dois viverem juntos. Ele já tinha um 
filho de 18 anos. 

E com essa enlação dupla passamos 
a nos amar mais. 

Um dia inteiro não dava. 

Nós amámos tão intensamente - agora num motel - 
que o mundo era pequeno para nós dois. Nós dois sempre com 
a cicatriz nos pulsos - juras de meu amor 
eternizado. 

Tive uma filha e minha mulher 
recebeu tanta visita no hospital que não dava prá desconfiar 
de quem era o filho que devia ser meu.Muito homem 
veio abraçá-la e achar o bebe com a cara 
do papai.Uma graça - diziam todos. 

O quarto se encheu de flores. 
Abracei e acariciei minha mulher 
como se amasse muito. 
Vi meu filho no berçário e não tinha 
parecido comigo. 

Tinha agora dois filho, minha amada também dois. 

Um belo dia - depois que uns anos se 
passaram, conversando no motel ela me disse 
que ia largar seu atual homem. 

Encarei com naturalidade, afinal ele bebia muito 
e batia nos dois: no filho e nela. 

Um dia - raivoso e masculinizado até a proa - 
cerquei aquele homem numa esquina. 
Quando ele me viu saiu correndo atrás de mim 
com um pedaço de pau. 

Sem ser herói, corri tanto que fui parar 
de novo numa farmácia para tomar um 
calmante.Tremendo de amor e medo. 

Ela acabou largando ele e eu também nunca mais vi. 
Dizem que ele morreu numa briga, esfaqueado, 
e o filho começou a entrar em drogas e roubos 
e acabou preso. É o que eu sei. 

Ela voltou a antiga casa, que estava alugada, 
e passou novamente a viver sozinha, mas 
encontrando-se comigo todas as noites. 

Foi ai que minha mulher abriu o jogo e disse 
que sabia desde o início que eu tinha uma amante. 
Estava aprontando a coisa prá me largar! 
Eu disse que éramos apenas colegas. 

Puta que pariu de colega ! - esbravejou ela. 

Pegou os filhos 
e foi morar com a mãe e levando meu filho. 
Passei a morar sozinho. 

Enquanto isso minha amada me anunciou um 
dia que conheçara outro homem e estava 
disposta a viver com ele. 

Aleguei que, pela primeira vez na vida, 
estávamos sozinho e livres de todos. 

Ela alegou a educação dos filhos, dizendo que 
o novo amante era dono de um colégio e assim 
seus filhos não pagariam mensalidade. 

Compreendi.Sabia que ela me amava perdidamente. 

Passou ela a viver com tal homem 
e eu sozinho. 

Até que conheci outra mulher de 
uns 35 anos e passamos a viver juntos. 

Minha amada quando soube virou bicho 
e quis até invandir minha casa para 
acertar as ontas com aquela "vagabunda". 

Pela primeira vez ela se mostrou 
ciumenta em público. 

Alegou que não haveria quebra de amor eterno pois, 
como 
já disse, tínhamos um pacto de sangue. 

Tirei essa idéia da cebeça dela. 

Ela estava preocupada com os filhos 
pois o dono do colégio era conhecido 
como cornudo ativo e seu filhos poderiam 
saber, já que a cidade era pequena. 


Duplicidade sim, pois apesar de ela viver com 
um professor eu vivia com uma bancária, 
que sempre que sonhava sussurava "Obrigado sr. 

Ä situação parecia ter se acalmado. Tive um filho 
com a bancária e minha amada teve um filho com o 
professor. 

O tempo, 
algures, passava. 

Eu toda noite encontra com ela deixando o mundo 
rodar, amando loucamente aquele pedaço de 
espírito onde o tempo parecia não se mover 
tamanha a grandeza de nosso amor. 

Assim o tempo passou. 
Mas fomos nos 
distaciando. 

A bancária me largou e 
se juntou com o gerente do banco. 

Sentia que meu amor eterno 
se distaciava de mima a cada dia, 
apesar de manter silencio. 

Um dia, ela me chamou e disse que em 
nome de seus filhos e dos meus, não poderia viver assim. 

Eu tentei justificar nosso amor-eterno. 
Ela disse que o amor eterno continuaria 
mas não poderíamos mais se encontrar assim. 

De raiva tomada, tomei uma garrafa 
inteira de uísque e fui no colégio onde 
o tal professor dava aula. 

O porteiro não 
me deixou entrar pois disse que eu estava 
embriagado. 

Me fuzilei em cima do porteiro. 
Apareceu a mulher do porteiro e começou a 
gritar, apareceram os alunos atraídos pelo alarido 
e todos começaram a gritar. Vieram os 
profesores e começaram a gritar! 

Foi um pandemônio! 

Apareceu o diretor da escola que logo chamou 
a polícia. O porteiro tinha um corpo avantajado 
que logo me arrimou na primeira socada. 

Apareceu outros dois corpulentos policiais que me 
agarraram, me encostaram no carro deles e mandou 
por as mãos no capô e que eu abrisse as pernas. 
Igual a filme policial.Ouvi as algemas rangerem. 

Embriagado e com raiva, me atraquei com o policial 
e a desvantagem veio logo: tomei uma violento 
surrupapo na cara que só fui acordar no 
ambulatório com a cara inchada. 

Houwe inquérito, essas coisas, 
e o juiz, em vez de me prender, mandou eu 
fazer um trabalho comunitário: limpar o pátio 
da escola do escárnio do professor durante 
dois meses. 

Então, todas as tardes, lá ia eu de vassoura 
na mão, varrendo aquela poeira, enquanto 
lá em cima o professor ria de escrachar, sem 
saber logicamente que eu vivia e comia a mulher dele. 
Nãa contei, mas quando acabou parte do amor platônico, 
passamos a viver um pouco da carne e da luxúria. 


Ela acabou mudando de cidade e dela 
não tive mais notícias de corpo à corpo. 

Apenas ela me enviava pelo correio fotografias 
de sua família, de suas filhas moças lindas 
de morrer, me mandava poemas, me mandava tiaras 
de sua roupas, pétalas esquecidas de flores. 

Vinham também a foto de um belo menino de seus 
10 anos que eu nunca fui saber quem era e ela 
nunca tocou em seu nome.Mas ele me lembrava 
alguém! 

Assim se passaram 40 longos anos. 
Hoje, aos 50 anos, vou a missa todos 
os dias pedindo a Deus que ela 
volte, ou que o marido dela morra, 
ou que os alunos resolvam matar 
de a pauladas aquele 
professor. 

Hoje sou um solitário que vivo aposentado 
com a casa cheia de fotos, flores, roupas,calcinhas, 
sutians, vestidos, perfumes e garrafas 
de bebidas. 
e tudo que se possa se imaginar que se possa 
enviar 
pelo correio. para seu amor eterno. 

Haja vida! 
Haja amor eterno! 

Mas desconfio que essa história ainda não acabou 
pois outro dia recebi pelo correio uma aliança 
gravada com o nome do professor.E de quem seria 
aquela foto, sem nome, do garoto, que aparecia em 
toda correspondência? 

Tenho lá desconfianças, pois 
haja vida, 
haja amor-eterno!

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