Brasil/Drama título Latitude Zero diretor Toni Venturi ano 2001 país de origem Brasil duração 85 min língua Português cor Colorido classificação 16anos elenco Débora Duboc, Claudio Jaborandy distribuidora Riofilme
Resenha
Latitude Zero mergulha no desespero dos marginalizados
O primeiro longa-metragem de ficção do diretor Toni Venturi, Latitude Zero, traz um embate entre dois personagens solitários e desesperançados num lugar árido e desolador, que em muitos momentos lembra Paris, Texas, do alemão Wim Wenders. Com um orçamento pequeno para uma produção tão bem cuidada, o diretor se cercou de excelentes profissionais e mostrou um domínio da arte de fazer cinema como só os melhores cineastas conseguem. Ao lado do trabalho preciso dos atores, há ainda a direção de arte de Andréa Velloso, a cenografia de Helcio Pugliese, a fotografia de Jacob Solitrenick e a música de Lívio Tragtenberg que se fundem com precisão numa história densa e que acabam se tornando também personagens da trama. Vísceras de uma história triste. A partir de uma peça teatral de Fernando Bonassi, de onde extrai diálogos econômicos e precisos, o roteiro foi elaborado para servir não só ao trabalho da atriz Débora Duboc e do ator Claudio Jaborandy, mas para explorar cada detalhe da produção. Nada está fora de lugar. A solidão de Lena, uma ex-gerente de hotel do centro de São Paulo, grávida e abandonada pelo amante, se amplifica naquele bar-restaurante de beira de estrada, ao lado de um garimpo abandonado. O ritmo lento do início, bastante teatral, no lugar de incomodar prepara a platéia para a desesperada tentativa da personagem em encontrar uma saída para o beco existencial para onde foi lançada. A chegada de Vilela, rechaçada no início, irá despertar aos poucos a sensualidade e a sexualidade adormecidas em Lena. Este estranho pode muito bem ser o caminho do recomeço. Vilela, um PM com problemas na corporação, chegou até este lugar para esperar que tudo se acalme e possa voltar a São Paulo. Subalterno do amante de Lena, deixa a obediência e a amizade de lado quando vê a chance de retomar a vida longe dos seus problemas e construir um futuro ali. Para Lena, cansada de guerra, ele é apenas mais um sonhador. Mas com a insistência de Vilela, e mesmo dentro daqueles limites de desolação e abandono a que se entregou, a mulher antevê uma solução. O desfecho para uma história de redenção e amor não poderia ser diferente naquele mundo inóspito, tanto em paisagem quanto em sentimentos brutalizados pelo ambiente e desilusões. Mesmo a gravidez é encarada e vivida por Lena como um terrível acidente de percurso. Seu distanciamento daquela criança aparece escancarado. "Esse calor, essa barriga", diz Lena a Vilela, que rebate com o chavão: "Tem um lado bom". Ela retruca: "O lado de fora". Alternando dor e desesperança com a busca do eterno retorno, a relação entre os dois vai se impregnando de uma violência que é a herança dos deserdados. Toni Venturi nos revela sem nenhum anestésico os grandes dramas vividos por pessoas comuns e à margem da abastada sociedade do país. Latitude Zero é ousadamente autoral e comprometido com a discussão que transcende questões meramente pessoais. É um filme que foge dos padrões hollywoodianos a nós impingidos atualmente: da paisagem desolada do Planalto Central direto para o estômago do espectador. Em uma única palavra: visceral.
Ana Vidotti/ Reuters
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