o prazer de ler A literatura nos dá um prazer sem igual. É a nossa amante nas horas mais difíceis, em que ninguém nos ama, ninguém nos quer. Quando estamos acamados, abandonados, entregues à solidão...

livros antigos Livros antigos, os clássicos, me dão alergia. Uma pena, pois neles estão tantas ideias esquecidas ou mal utilizadas. São textos difíceis, mas se você quer mesmo saber, só com eles vai ser...

saci pererê Nada contra a cultura alienígena, afinal, vivemos num país de imigrantes. Toda a nossa cultura surge dessa mistura, mas porque não valorizá-la, retomar o que é nosso...

passarinho amarelo Peço a Deus Não muita coisa... Uma casinha singela, Mas aconchegante... Peço também um quintal Com muitas árvores Onde os amigos alados Possam pousar Quando vierem nos visitar...

pessoas que leemo Muitos acreditam que quem gosta de ficar horas a ler não tem tempo para viver. E o que seria o viver sem o saber, bem, é mais ou menos o que vemos nesse nosso novo Brasil...



pessoas que ajudam Dizem que a solidariedade é uma qualidade cada vez mais rara. As vezes me pergunto se um dia ela foi menos rara. A humanidade sempre sofreu a toa, não é de hoje. Repare que quem costuma ser ajudado, dificilmente ajuda. Curioso, uns nascem para doar, e muitos só para receber. Certamente o mundo só irá melhorar quando este quadro se inverter...


Sei que ninguém tem conhecimento deste ocorrido, mas no inicio dos anos 1980, a maior usina hidroelétrica do mundo, até então, estava sendo construída. Por conta disto, um dos mais lindos cartões postais do país, mais que isso, um dos mais majestosos trabalhos da natureza, estava deixando de existir para o surgimento do grande lago de Itaipú. SETE QUEDAS. E um poema escrito pelo grande mestre Carlos Drummond de Andrade me fez estremecer, e desde então escrevo poesias sobre a natureza e a destruição. Registro aqui este poema do grande autor, o qual não encontrei em livro algum, publicado que foi em um único jornal.

Cachoeira Sete Quedas

Adeus a Sete Quedas

Sete damas por mim passaram,
E todas sete me beijaram.
Alphonsus de Guimaraens


Aqui outrora retumbaram hinos.
Raimundo Correia


Sete quedas por mim passaram,
e todas sete se esvaíram.
Cessa o estrondo das cachoeiras, e com ele
a memória dos índios, pulverizada,
já não desperta o mínimo arrepio.
Aos mortos espanhóis, aos mortos bandeirantes,
aos apagados fogos
de Ciudad Real de Guaira vão juntar-se
os sete fantasmas das águas assassinadas
por mão do homem, dono do planeta.

Aqui outrora retumbaram vozes
da natureza imaginosa, fértil
em teatrais encenações de sonhos
aos homens ofertadas sem contrato.
Uma beleza-em-si, fantástico desenho
corporizado em cachões e bulcões de aéreo contorno
mostrava-se, despia-se, doava-se
em livre coito à humana vista extasiada.
Toda a arquitetura, toda a engenharia
de remotos egípcios e assírios
em vão ousaria criar tal monumento.

E desfaz-se
por ingrata intervenção de tecnocratas.
Aqui sete visões, sete esculturas
de líquido perfil
dissolvem-se entre cálculos computadorizados
de um país que vai deixando de ser humano
para tornar-se empresa gélida, mais nada.

Faz-se do movimento uma represa,
da agitação faz-se um silêncio
empresarial, de hidrelétrico projeto.
Vamos oferecer todo o conforto
que luz e força tarifadas geram
à custa de outro bem que não tem preço
nem resgate, empobrecendo a vida
na feroz ilusão de enriquecê-la.
Sete boiadas de água, sete touros brancos,
de bilhões de touros brancos integrados,
afundam-se em lagoa, e no vazio
que forma alguma ocupará, que resta
senão da natureza a dor sem gesto,
a calada censura
e a maldição que o tempo irá trazendo?

Vinde povos estranhos, vinde irmãos
brasileiros de todos os semblantes,
vinde ver e guardar
não mais a obra de arte natural
hoje cartão-postal a cores, melancólico,
mas seu espectro ainda rorejante
de irisadas pérolas de espuma e raiva,
passando, circunvoando,
entre pontes pênseis destruídas
e o inútil pranto das coisas,
sem acordar nenhum remorso,
nenhuma culpa ardente e confessada.
(“Assumimos a responsabilidade!
Estamos construindo o Brasil grande!”)
E patati patati patatá...

Sete quedas por nós passaram,
e não soubemos, ah, não soubemos amá-las,
e todas sete foram mortas,
e todas sete somem no ar,
sete fantasmas, sete crimes
dos vivos golpeando a vida
que nunca mais renascerá.

Publicado no JB - Jornal do Brasil em 07/10/1982 - Rio de Janeiro

Autoria do Mestre: Carlos Drummond de Andrade

Lago de Itaipú